sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Morte (2)

 


V

Os dois exércitos se lançaram um contra o outro ao soprar dos clarins. Quilperic sentia a sede da batalha percorrer seus membros e ferver seu sangue. Buscou incendiar seus homens com seus urros.
Desembainhara a espada que fora de seu pai e procurou por Sighebert com o olhar, primeiro avistando Brunhilde, que com cortes rápidos abatia dois de seus cavaleiros. Uma amazona feroz, ao gritar era como uma águia, ao passo que seu marido permaneceu mais atrás, coordenando suas tropas, até o momento em que a batalha se tornou mais ferrenha. Nisso avançou, e aos seus golpes nem cotas de malha nem escudos resistiam. Cortava a carne entre espessos guinchos de agonia. Ficou com os braços ensanguentados até os ombros.
Enquanto dardos e lanças voavam pelos ares, escutou o brado de Quilperic. Chamava por seu nome.
Foram então um de encontro ao outro, porém antes um terceiro guerreiro se interpôs, acertando a cabeça do rei de Nêustria com a maça que lançara: era Froila, lutando com as forças da Austrásia.
O elmo salvou a vida de Quilperic, porém não sua consciência. Despencara do cavalo e ficou desmaiado no solo, tendo de ser protegido por seus homens.
Apesar da satisfação de Froila, Sighebert o fitou com recriminação: afinal, desejava um confronto de reis, uma oportunidade para encerrar a guerra com sua própria espada.
Não havia valor em matar um homem inconsciente. Por isso o rei da Austrásia deixou de lado a área onde Quilperic estava caído, dirigindo-se a outra.
A batalha se deu pela manhã. Quilperic acordou horas depois, com a cabeça pesada demais para que pudesse erguê-la. O mundo rodopiou ao seu redor, enquanto um vento frio batia em seu rosto.
- O rei acordou!- Bradou o soldado que primeiro o vira reabrindo os olhos.
Estava vivo, isso era certo. Mas fora derrotado. Logo soube que seu exército se retirara e que um de seus homens o carregara para longe. Estava em uma tenda precária, seu corpo estirado sobre uma grama que cheirava a sangue. Urinou ali mesmo, o que só faria o cheiro piorar, enquanto que em Divoduro Froila seria duramente recriminado:
- Nunca mais interfira quando eu estiver indo ao encontro de outro rei.- Sighebert falou ao cabisbaixo mercenário.- Se fizer isso mais uma vez, seu único pagamento será a morte.
- Sim, meu senhor.- Parecendo assustado, Froila acatou.
Todavia, fora uma boa vitória. E seguiriam outras, porém após uma destas o mercenário ficaria bastante ferido, despertando ao lado do cadáver de um de seus companheiros. Enfraquecido, ergueu-se a custo. Talvez o tivessem deixado para trás, acreditando que estivesse morto.
Tudo em volta cheirava a sangue e excrementos. Em alguns corpos, viam-se as crostas de sangue seco. Parou diante do rio Mosel, onde boiavam alguns cadáveres. Refletido nas águas, como uma moeda pálida e incandescente, o sol; e de repente sentiu o cheiro de uma fumaça acre.
Deparou-se com um grupo de velhos queimando alguns corpos.
- Mas o que está havendo aqui?- Questionou.
- Estamos queimando os mortos, para que não retornem.
- Vocês são pagãos?- Froila desembainhou sua espada.
- Não, não somos! Acalme-se, senhor, por favor!- Uma idosa se colocou à frente do companheiro que falara primeiro.
- Então o que isso significa?
- Há alguma maldição nesta terra. Há algum tempo que os mortos que caem ou são enterrados nela acabam retornando do outro mundo. Furiosos, famintos e, o que é o pior, dotados de forças muito maiores do que as nossas! O único meio de impedir que isso aconteça, Deus que nos perdoe, mas Ele deve compreender, é queimando os cadáveres. Ora, senhor: Jesus Cristo tem o poder para, se preciso, reconstituir os corpos dos eleitos das cinzas no dia do Juízo. Ele nunca deixa de fazer maravilhas pelo fiel.
- Os homens que aqui caíram morreram lutando pelos reis da Nêustria e da Austrásia.- Froila voltou a embainhar a espada.- Mereceriam enterros dignos.
- Merecem mais o Paraíso, senhor. Não é justo que este lhes seja retirado por nossa negligência.
- Estão querendo dizer que nesta terra o diabo é príncipe?
- Ele é o príncipe de todo este mundo, senhor. Aqui, especificamente, ele é rei, pois conta nas sombras com súditos e seguidores.
Froila olhou ao seu redor. Foi percorrido por um calafrio. Parecia ser noite antes da escuridão. Os velhos que recolhiam os cadáveres para queimá-los tinham os rostos exaustos e desolados. Ainda assim, se moviam.
O mercenário deixou-os para trás e, um tanto aflito, tomou seu caminho para Divoduro.

*

Suesson ficou em chamas. Sighebert apenas fixaria seu estandarte quando se cansasse de contemplar o fogo, o que lhe dava grande satisfação.
Para Brunhilde, era ainda mais gratificante espalhá-lo, lançando com seus seguidores tochas ardentes contra as casas indefesas.
O rei da Austrásia vencera Quilperic em seu reino e, ao avançar pela Nêustria, dizimara toda a resistência. Inclusive nos muros de Suesson, nos quais os soldados da guarnição local se sentiram como que devorados por um relâmpago.
Quilperic fugira com Fredegund para as proximidades da Armórica. E não vinha encontrando paz; em questão de alguns dias, acotovelando-se com os homens que lhe restavam em uma pequena fortaleza, despejou sua ira sobre a esposa:
- Você me levou a ceifar a vida de Golsund e eis o resultado! Eis o desastre! Minha antiga cunhada se tornou minha pior inimiga e, está, com o marido dela, apoderando-se de nosso reino. Ouvi que Sighebert já se proclama o novo rei!
- De que adiantava seguir com uma rainha que nada mais tinha a lhe oferecer?- Inquiriu Fredegund.
- Talvez eu devesse ter tido mais paciência com a pobre Golsund.
- Sete anos não foram o bastante?
- Você fala, a critica, mas e se o mesmo mal a atingir? E se o seu ventre é ou se tornou seco? Se não por questão de natureza, por vontade e castigo de Deus?
- Sinto por dizer isso, senhor, mas não fui eu a derrotada nas recentes batalhas. Não empunho lança ou espada.
- Se ao menos pudesse fazer isso e se comparar a Brunhilde! Mas é muito inferior a ela. Ainda que não aceite, isso está sendo demonstrado.- Afastou-se antes de ouvir a resposta de Fredegund, que foi deixada sozinha, entre pensamentos turvos, enquanto em Suesson, as chamas enfim apagadas, inclusive em razão da forte chuva, Froila abraçava Runda:
- Pensei que não fosse conseguir reencontrá-la!
- O rei Quilperic e a rainha Fredegund estão arruinados. Percebi isso enquanto fugiam, desesperados para levar consigo o máximo possível de seus pertences.- Replicou a criada.- Eu me escondi em um celeiro e aguardei que a pilhagem se encerrasse. Tive muito medo que o fogo fosse ateado no feno ao qual me imiscuí, mas contei com a proteção de Deus e de São Martinho! Nenhum homem pérfido me encontrou e, quando saí, o pior já havia passado.
- Confesso que temi pelo pior. E não apenas em razão dos homens.- Virou e fechou o rosto.
- Por que diz isso?
- Espero que eu esteja errado. Mas parece que quanto mais pessoas morrem, quanto mais guerras há, o diabo se torna mais vivo e esperto.
- Estas palavras me assustam. É melhor que tenhamos fé. Porque foi graças à minha fé que Deus me protegeu, que estou intacta.- E abriu o pequeno relicário de prata em seu pescoço, em que estavam as que acreditava serem as unhas de São Martinho. Voltou a fechá-lo antes de oferecê-lo a Froila, que o beijou.

*

O nevoeiro se espalhava pela floresta como o hálito de um gigante frio. Mas Fredegund ia adiante, decidida, se as forças da Terra e do Céu não pretendiam ajudá-la, a conjurar as que se encontram abaixo. Refletia: “Se Deus me abandonou, se os homens estão contra mim, se minha alma já foi tomada pela escuridão, não há razão para me devotar, me curvar, dar prioridade ao sol. A lua sugere um caminho e uma perdição: devem existir demônios que jamais foram anjos, que são homens e mulheres que optaram por uma feroz escolha. Também posso dizer a mim mesma o que fazer.”, encaminhava-se para o necromante do norte, que se dizia que vivia naquelas paragens.
Não se sabia onde precisamente. Mas havia a noção que bastava andar pela área, com os pensamentos em encontrá-lo, para que aparecesse.
- Pouco adianta nos escondermos, pois sempre somos perseguidos por nós mesmos.- De repente, Fredegund escutou uma voz sombria. Não precisou olhar para trás, pois ele estava vindo, como que suspenso no ar, a túnica negra encobrindo suas mãos e suas pés. Sob o capuz, no entanto, via-se o rosto pálido e muito enrugado. No lugar do olho direito, uma pedra cuja cor se alternava entre o vermelho e o violeta-escuro. Jamais vira uma semelhante.
- Imagino que o senhor seja o necromante.- Sentiu que era desafiada, de alguma forma que não soube explicar a si mesma.
- É como muitos me chamam, embora este seja um nome muito limitado e limitante.
- Como o senhor se classifica?
- Simplesmente não me classifico, minha rainha. Eu sou. E ajo.
- Poderia lhe perguntar como sabe a minha identidade, mas creio que isso seja desnecessário. Talvez tenha me visto em Suesson.
- Nunca estive em Suesson. Mas meus corvos já.
Fredegund escutou gralharem. Ao olhar para o alto, havia corvos voando e pousando nos galhos das árvores. Enquanto escurecia, a névoa se tornava mais densa.
- O que deseja de mim?- Ele indagou, voltando a atrair sobre si os olhos da rainha, que por alguns momentos haviam se fixado no alto, como em uma espécie de nostalgia.
- Preciso encontrar uma maneira de vencer Sighebert e Brunhilde da Austrásia.
- Eu já lutei em uma guerra, mas isso foi há muito tempo.
- Sei que hoje trava suas batalhas de outra maneira, sem espadas, arcos ou lanças.
- Não, rainha, não travo nenhuma batalha. Não há mais necessidade. Mas posso conjurar certos mistérios para quem vem a mim. E estes podem ser mistérios de vitória.
- Isso, de outra maneira, mais grosseira, ouvi sobre o senhor. O que devo fazer para contar com sua ajuda?
- Nada.
- Nada?
- Não tenho nada a ganhar com riquezas. As paixões também já se desfizeram há muito para mim. Apenas o que desejo é que me procurem. Não pense que são muitos os que vêm a mim, rainha. Para a maioria falta coragem. Talvez esta seja a minha única paixão, a única que resta: aguardar para realizar; para provar que há uma razão para a minha existência.- A mão ossuda, quase sem pele, se desvencilhou da longa manga para tocar os cabelos de Fredegund. Ela não receou, apesar do frio que se espalhou por sua carne; justamente por este, não havia ali nenhum calor masculino.
Após deixar escapar um sorriso esquálido, quase sem dentes, o necromante a conduziu a uma área da floresta em que as árvores pareciam petrificadas, inclusive as folhas. A neblina diminuíra. Mas a escuridão aumentara.
O feiticeiro nórdico olhou para o alto e seus corvos derrubaram algumas folhas, que caíram de forma brusca. Viram-se nestas, desenhadas e começando a brilhar, runas. A noite pareceu se amenizar, ainda que sutilmente.
- O que vamos fazer?- Fredegund indagou.
- Vamos conjurar um draugr.
- De que espécie de demônio se trata?
- Na verdade, trata-se de um ser humano. Um pouco como nós.- Encarou a rainha, que não soube o que mais dizer, aguardando que ele prosseguisse:- Com a diferença que está morto. Em minha terra natal, a palavra draugr significa “aquele que voltou a andar”. Com a diferença que com uma força muito maior do que a que possuía em vida, pois os eflúvios do Inferno são poderosos e intensificam a crueldade, removem todos bloqueios que possam existir à realização do pleno potencial humano.
- O senhor se referiu ao Inferno. Então imagino que apenas possa ser um draugr uma alma atormentada.
- Evidente, pois as que se exilam no Céu não mais desejam retornar à Terra. Ao passo que os pobres atormentados anseiam por vingança. Contra todo o mundo, ou contra alguém em particular.
- O senhor não...- Hesitou por um momento.- Teme o Inferno?
- Eu escolhi viver na Terra. Como posso temer o Inferno?
- Algum dia o senhor terá de partir. Crê que será elevado ao Céu?
- Ainda não ficou clara a minha escolha? Ao contrário de outros, eu decidi. Nada tenho a fazer no alto. E meu espírito não está atormentado.
- Está sugerindo então que é imune à morte. De uma maneira que chego a me perguntar se não se tornou a própria morte. Isso se não estou enlouquecendo.
- A rainha um dia irá partir. Não hoje.
- Irei me tornar um demônio?
- A rainha já é o que será.- E, diante do silêncio de Fredegund, o necromante deu alguns passos e depois prosseguiu:- Nosso draugr será Godomar, um burgúndio, um antigo rival de Sighebert, que não se conforma com sua derrota. Seu corpo está enterrado perto daqui.
- Ele também odeia Brunhilde?
- Ele ainda não a conhece, pois foi morto por Sighebert antes dele chegar ao reino dos godos. Esteja certa que a odiará, pois o ódio dos mortos é mais intenso; e sobretudo porque Sighebert a ama.
- Agrada-me ouvir isso.
- Só que antes de iniciar nosso chamado, há algo que a rainha precisa saber.
- Diga.
- Eu lhe disse que já é o que será. Saiba também que a morte, uma vez convocada, não pode ser extirpada.
- Não vou me amedrontar com enigmas.
- Não deve ter medo. Mas precisa refletir.
- Não tenho tempo para pensar muito.
- Será então como a rainha deseja.
O necromante primeiro silenciou. Fredegund logo se sentiu paralisada. E era como se houvesse um vento gélido que não ventava, percorrendo seus ossos. As runas nas folhas se apagaram, a não ser uma, que era um único traço, e a noite se aprofundou. A rainha escutou a gargalhada de um corvo, que rasgou sua alma. O bruxo deu início a um ritual de palavras sombrias, enquanto caminhava em círculos. Fredegund sabia não poder se mover. Ele voltou a tocá-la. E começou a cair uma chuva que não molhava.
Quando as demais runas voltaram a se acender, foi como o despertar de um sonho. Não tinha ideia de quanto tempo transcorrera. Talvez tivessem sido horas. Mas o que importava era quem estava ali de pé, diante dos dois.

*

A figura humana adiante, suja de terra e sombras, tinha mais ossos do que carne. Mas estava bem viva, como seu olhar denunciava, carregado com um ódio e uma tristeza incomensuráveis.
Os corvos pareceram enlouquecer, primeiro voando furiosamente ao redor e grasnando sem cessar, depois partindo. A chuva cessou. O necromante abriu os braços e se abaixou para tocar o solo.
- Seja bem-vindo, Godomar.- O feiticeiro sorriu, não parecendo surpreso quando Fredegund pronunciou estas palavras.
Ouviu-se um relincho e, de uma nova neblina, formou-se um cavalo descarnado, sem cauda e orelhas. O draugr montou no animal. Nada disse à rainha, que sentiu que ele já sabia de tudo.
- Vá e cumpra com seu destino, amenize sua agonia.- Fredegund voltou a falar.
Sem rédeas, o cavalo obedeceu o draugr. Desapareceram na névoa e nas trevas.
- Está feito, rainha.- Disse o necromante.- Pode regressar a seu marido, se assim desejar.

VI

Sighebert estava caçando com seus homens. A princípio, perseguiam juntos um javali.
Entretanto, houve um momento em que se distanciou dos demais cavaleiros. E uma névoa repentina pareceu ascender ao seu redor, contribuindo para que se perdesse dos demais.
Voltou a escutar o javali: guinchava de uma maneira que nunca antes ouvira.
Ao avançar, deparou-se com o animal completamente estraçalhado e com as entranhas colocadas para fora. E, o mais estranho, continuava a ouvi-lo:
- O que há neste lugar?- Questionou-se.- Algum espírito maligno? Alguma força de Satanás?
De súbito o cavalo se ergueu e se agitou, dando sinais de pavor. Sighebert conhecia aquele animal, tinha-o como companheiro há muito tempo; pela primeira vez não conseguiu contê-lo, até ser derrubado.
E o cavalo o deixou, desaparecendo na névoa, enquanto algo ou alguém, assim o rei da Austrásia sentiu, nadava entre a pedra e a madeira, entre as rochas e as árvores.
A neblina foi se reunindo e se adensando, dando forma a uma criatura: era Godomar; mas, como draugr, Sighebert não o reconheceu. Pareceu-lhe, montado em seu cavalo descarnado, apenas um ser do Inferno.
O rei da Austrásia desembainhou sua espada. Dizia-se que o punho desta fora forjado com fragmentos dos ossos do pulso direito de Maria Madalena. E Sighebert sentia que mais do que nunca precisava ter fé.
Godomar desceu de seu cavalo, dizendo:
- Não haveria mérito em vencê-lo com você estando abaixo. Eu devo colocá-lo abaixo: sob a terra; como você me colocou um dia.- Sua voz de humana tinha muito pouco, mas ainda assim era compreensível; parecia haver areia entre seus dentes.
Sighebert estranhou aquelas palavras. Nunca antes vira semelhante demônio.
Também o cavalo do draugr desapareceu na névoa. E o morto-vivo atacou, seus golpes incrivelmente pesados e rápidos. O rei da Austrásia tentava se esquivar, mas não conseguia, tendo de recorrer ao choque de lâminas, até que, atingida diversas vezes, a sua não resistiu.
O draugr mostrou um sorriso pútrido. Sighebert tomou a decisão de fazer algo que nunca fizera; mas também nunca estivera diante de semelhante oponente: decidiu fugir; correr para longe, orando a Deus que o socorresse. Uma santa não tendo sido o bastante, apelou para o próprio Criador. E Godomar, a princípio, não pareceu segui-lo.
Será que ele receou ser atingido por um raio do Senhor?”, a uma certa altura, o rei da Austrásia parou e olhou para trás; parecia já noite. Nenhum rastro do draugr, até que um braço saiu de uma grande pedra na qual Sighebert se apoiara e atravessou seu corpo.
Depois o braço voltou a se retrair, para a seguir empurrá-lo, jogando-o no chão. E Godomar emergiu do solo como se estivesse deixando a água.
Enquanto sangrava no chão, seu abdome aberto, Sighebert tentou orar, mas não conseguiu tirar de sua mente o rosto do draugr, que ficou de pé à sua frente, na escuridão. De repente, lembrou-se do burgúndio que um dia abatera...
Mas era tarde para falar: Godomar pisou no pescoço de Sighebert, esmagando-o com todo seu peso.

*

Brunhilde deu prosseguimento à guerra, acusando o soberano de Nêustria do assassinato de seu marido.
Não acreditava no que alguns diziam, que a cena de morte de Sighebert indicava a ação de um demônio:
- O único demônio aqui é Quilperic, o vil, o sanguinário, que não se contentou em arrancar a vida de minha irmã, que também deve ter bebido o sangue de meu marido e certamente deseja o do meu filho!
Brunhilde fora oficializada como regente, pois seu filho com Sighebert, o príncipe Quildebert II, tinha apenas cinco anos. Mas muitos soldados não simpatizavam com a rainha, nem gostavam de receber ordens de uma mulher. Sentiam falta do carisma e da presença de Sighebert. De modo que logo proliferaram desertores e, por mais que Brunhilde dissesse que não sentia falta dos covardes e dos traidores, estes fizeram falta no campo de batalha, seguindo-se diversas derrotas para a Nêustria, que foi recuperando seus territórios.
A guerra principiava a se inverter, com Quilperic primeiro dizendo à sua esposa:
- Parece que foi um anjo severo que interveio em nosso favor. Algum crime cometido por Sighebert deve ter enfurecido a Deus. Eu me considerava o pior dos homens, mas eis que vejo que há alguém que certamente cometeu um pecado pior do que o meu, embora não consiga imaginar qual.
- Por que fala de um anjo, e não de um demônio?- Indagara-lhe Fredegund.
- Os anjos também podem ser muito duros e mesmo cruéis, como o que ceifou os primogênitos do Egito. Isso está nas Escrituras.
- E se eu lhe disser que o demônio que arrancou a vida de Sighebert foi por mim evocado, recorrendo às artes da feitiçaria do norte?
- Não, mesmo você não iria tão longe...
- Senhor, não há mal em usar o mal para fazer o bem, para cumprir com desígnios superiores. O rei Salomão escravizou um demônio para erguer seu Templo; e assim fizeram muitos outros. O próprio Deus se serviu de Satã para testar Jó. Os demônios servem a Deus, e portanto servem ao homem, que foi feito à sua imagem e semelhança. Não devemos temê-los e sim comandá-los, pois se Deus permite sua existência isso ocorre porque são uma força a ser considerada.
- O que está dizendo me maravilha e me assusta. Como posso acreditar?
- Lembra-se da noite em que estive ausente e lhe disse que havia ido orar na floresta, após encontrar um bom eremita?
- Sim, eu me recordo.
- Na verdade, eu me encontrei com o necromante do norte que vive na floresta de Armórica.
- E por que só está me dizendo isso agora? Por que mentiu?
- A resposta não lhe é evidente?
- Tem razão. Se tivesse comentado algo comigo naqueles dias terríveis, eu não só não teria acreditado como poderia até tê-la surrado.
- Mas agora chegou o momento da verdade. Vou lhe relatar tudo o que ocorreu. Olhe nos meus olhos e, caso sinta que minto, poderá me dar o mesmo fim de Golsund.- Fredegund expôs cada um de seus passos; Quilperic chegou a se sentar na cama, aterrorizado, enquanto ouvia.
Quando ela terminou de falar, o rei comentou:
- Essa criatura agiu como um verdadeiro anjo exterminador ao nosso favor.
- Agora não mais duvida de sua esposa?- Indagou Fredegund.
- Como poderia? Por outro lado, não foi Deus que agiu por nós. Depois das minhas mãos, foi a vez das suas.
- As ações de Deus são frequentemente executadas por mãos humanas.
- Mesmo quando tecem assassinato e feitiçaria?
- Devo lembrar mais uma vez que Salomão escravizou um demônio, creio que foi Asmodeu, para erigir o Templo?
- Seja como for, desde que matamos Golsund nossos destinos estão entrelaçados. E só me resta esperar que o que você diz seja correto. Perdão pela dúvida, Fredegund.
- Quem sou eu para receber o perdão de um rei?
- É a mulher que faz de tudo para me ver no topo.
- Ajo de acordo com o dever da esposa de um rei.
- Não, você faz muito mais. Agora não tenho mais dúvidas que me dará muitos filhos!- Ergueu-se da cama.- É apenas uma questão de paciência, que é o que devo cultivar por uma mulher tão extraordinária. Perdoe-me por ter lhe dito que é inferior a Brunhilde: está provando ser muito superior, pois uma guerra se vence não apenas com a força, e sim sobretudo com a inteligência, com a argúcia, e com um ímpeto que não mede esforços mesmo quando se dorme. Sem Sighebert ao seu lado, a espada de Brunhilde é cega. Ao passo que seus olhos, minha feroz Fredegund, enxergam muito além do que costumamos ver.
- Eu gostaria de lhe apresentar o necromante, senhor.
- Sendo sincero, Fredegund, prefiro não vê-lo.
- Compreendo, meu rei.
- Não tenho sua inspiração para me mover nas sombras. Mas não se preocupe: minha espada agora irá brilhar.
Mesmo sem estar adiante, Quilperic foi então obtendo vitória após vitória no campo de batalha, o que culminou com a reconquista de Suesson. Brunhilde se viu forçada à retirada que considerou a mais ignominiosa de todas as que realizara.
Muito foi gasto e perdido. Mas a viúva de Sighebert, em seu regresso a Divoduro, ainda tinha o maior de seus tesouros: o pequeno Quildebert, no qual via refletida a imagem de seu marido.
Fredegund sonhou, e neste sonho Godomar lhe aparecia, dizendo:
- Rainha, a guerra muito em breve chegará ao fim. Meu inimigo já está morto. Agora bastará plantar a semente do terror em seus entes mais queridos.
Quando a rainha de Nêustria acordou, chegou a pensar que veria o draugr a seu lado no leito, sombrio e taciturno, embora ao sonhar tivesse escutado suas palavras com clareza.
Mas não havia ninguém, a não ser a escuridão, impalpável; refletiu que, se não fora apenas um devaneio, algo em que não acreditava, um destino terrível estava se desenhando para Brunhilde.
Isso a levou a sorrir.

*

Quildebert sempre tivera o sono de um anjo. Bastava deitar, sereno, e desaparecia de si.
Contudo, após a morte do pai, haviam tido inicio os pesadelos.
Sighebert sequer valorizava tanto assim o filho, sua presença ao lado do menino era rara; quisera vê-lo logo crescido, para que pudessem cavalgar e lutar juntos. A criança era uma existência frágil e incerta, à qual preferira não se apegar.
Todavia, mesmo que tivessem convivido tão pouco, e que Sighebert tivesse partido antes de poder caçar e guerrear com o filho, haviam sido pai e filho, e os laços de sangue desafiavam a serenidade do pequeno Quildebert.
Já sonhara com o pai encarando-o sem as órbitas dos olhos; uma visão que fizera com que transpirasse e gritasse, para depois passar o resto da noite abraçado à mãe, ambos sem dormir. E também tivera outro pesadelo em que uma criatura semelhante a um enorme morcego voava em seu quarto, ocupando todos os espaços das trevas.
Só que desta vez acordara. Depois de não sonhar. E vira diante de seus olhos, sobre seu peito, um gato preto, que o fitava com olhos humanos.
Logo o ar começou a faltar para Quildebert. A criatura não se movia. Mas crescia em tamanho e era dela que vinha toda a opressão, isso estava claro.
O menino tentou gritar, sem êxito. Seu coração se acelerou. Parecia até que ia saltar, sangrando, para fora da boca, quando sua mãe entrou e viu o gato enorme, que já ocupava o corpo inteiro da criança.
O ser trevoso se voltou para ela, ameaçador. Estava claro que não era um simples animal.
- Saia de perto do meu filho, demônio!- Brunhilde avançou desembainhando sua espada.
Por pouco não atingiu foi seu filho, pois a criatura das sombras desapareceu quando estava prestes a ser golpeada. Quildebert, em grande aflição, recuperou o ar.
- Meu filho!- Brunhilde o abraçou e pôs-se a chorar.- O que teria sido de você se eu não tivesse vindo ver como estava seu sono? E eu pensei que fossem apenas maus sonhos! O que me dou conta agora é que se trata de feitiçaria! Quilperic vendeu sua alma ao diabo!- Agora sim acreditava que fora um demônio, e não um ser humano, a levar a vida de Sighebert.

VII

Brunhilde foi ao encontro do rei e da rainha de Nêustria para dar um fim à guerra.
- Mas não pensem que faço isso por temor às suas armas. Não sou covarde.- Deixou claro diante de ambos. Haviam combinado um local neutro, em um bosque, com suas respectivas escoltas.- Cedo porque, depois de perder minha irmã e meu marido, não quero também perder meu filho para forças sombrias, que estão além do alcance da ação de uma mulher honesta e cristã.
- Não entendo o que a senhora está tentando sugerir.- Replicou Quilperic.
- Sei que compreende perfeitamente, rei feiticeiro.
- Não se dá conta do atrevimento que é se referir ao rei de Nêustria dessa maneira?- Inquiriu Fredegund.
- Mesmo que o rei seja inocente de crimes de magia, ainda é o assassino de minha irmã. Portanto, jamais lhe deverei desculpas.
- Insiste em acusar o rei! Foram suas vis suspeitas que deram início a esta guerra insensata. Mas Deus demonstrou ser justo e puniu seu marido com a morte e a senhora com a derrota, que seu indomável orgulho se nega a reconhecer. Agora, suas acusações são de feitiçaria, quando sabe que tanto eu como o rei somos fiéis à doutrina da Santa Igreja.
- Você não me engana. Se por acaso seu esposo é inocente quanto à magia, você certamente é culpada. Ou são os dois feiticeiros, ou apenas você, a quem me recuso a me dirigir como rainha, pois não passa de uma usurpadora. Se minha irmã está morta, você é a principal culpada.
- A senhora está passando dos limites.- Interveio Quilperic.
- O senhor e sua concubina que não conhecem qualquer limite.
- Como ainda insiste em me acusar, sem nenhuma prova?
- A verdade me foi revelada por gente que os servia.
- Acabou de confessar o quanto é baixa!- Exclamou Fredegund.- Manteve espiões em nosso palácio!
- A minha baixeza nunca, nem remotamente, descerá ao ponto da sua.
- Prefere então crer na palavra de um servo, ou de um mercenário, agora me recordo de um que desapareceu de nossas fileiras, a confiar no que diz um rei? Essas pessoas se vendem, e inventam as mais variadas histórias, por muito pouco.
- Não vim aqui para discutir com você e nem mesmo com seu marido. Vim para acertar a paz. Com uma única condição: que meu filho Quildebert seja deixado em paz; que nunca mais o ameacem com sua magia imunda!
- Mesmo em sua exigência, não cessa de nos acusar.- Comentou Quilperic.
- Na verdade, a paz que ofereço é muito maior do que a que estão imaginando.- Desceu de seu cavalo. E então, para a evidente surpresa do rei e dos soldados de ambos os lados, apenas Fredegund não demonstrando qualquer abalo, retirou sua coroa e colocou-a no chão.- Entrego-lhes o reino de Austrásia e minha pessoa. Desde que me prometam que não irão machucar meu filho.
Quilperic ficou boquiaberto. Não esperava que a viúva de Sighebert fosse tão longe, e tudo por uma criança. Um herdeiro também podia ser uma fraqueza.
Por outro lado, pensou: “Herdeiro do quê? Com ela me entregando a coroa da Austrásia e os reinos sendo unificados, o que restará para seu filho herdar? Será apenas um príncipe destronado, uma criança inútil.”
Por um momento, Fredegund sentiu compaixão. Como valia a vida do filho para Brunhilde!
Mas não iria se recusar a humilhar aquele olhar altivo:
- Acorrentam-na.- Ordenou aos soldados.- E vocês também, de hoje em diante, servirão a um novo rei.- Disse à escolta da rainha que agora era prisioneira, enquanto Quilperic apanhava a coroa da Austrásia e dizia à viúva de Sighebert:
- Seu filho será poupado de todo mal.
Poucos duvidaram das palavras de Brunhilde quanto à terribilidade do rei e da rainha de Nêustria. Por que uma mulher tão feroz se submeteria daquela maneira se o diabo não estivesse rondando? O temor crescente garantiria a fidelidade.
Pelas armas, Brunhilde estava certa que de toda maneira não venceria. Talvez na prisão, pagando por cada um de seus pecados, poderia enfim contar com a ação de Deus. Aguardaria o milagre, por mais difícil que fosse ter esperanças.

*

- A senhora nunca mais pronunciou uma única palavra.- Disse um soldado austrasiano a Brunhilde, o único que ainda se referia à viúva de Sighebert como rainha e que era um dos encarregados de cuidar dela em seu cativeiro.
- O sofrimento maior não fala. É mudo.- Foi a última resposta de Brunhilde, que, a partir daquele dia, nunca mais falou, enquanto se espalhava pelo reino a notícia que Fredegund estava grávida.
Quilperic fora tomado de enorme alegria. Enfim teria um herdeiro!
Mandou que fossem realizadas festas por diferentes cidades e realizou doações às igrejas.
Em uma aldeia da Burgúndia, Froila contou a novidade a Runda, com a qual fugira após a derrota do reino da Austrásia:
- É o que ninguém mais deixa de comentar: sobre o nascimento do herdeiro das coroas unificadas de Nêustria e Austrásia.
- O herdeiro da Austrásia ainda é o jovem Quildebert.- Replicou Runda.
- Esqueça disso, mulher. O rei Sighebert está morto e a rainha Brunhilde agora é prisioneira. Não há mais nada que possa ser feito por eles e por sua dinastia. Deus quis assim.
- Deus? Pois eu acredito que foi o diabo que ceifou a vida do rei Sighebert. Não escutou que a rainha acusou o rei Quilperic e sua concubina de feitiçaria? Uma mulher valente como a rainha Brunhilde não teria se rendido se a questão se restringisse ao campo de batalha deste mundo.
- Foram sucessivas derrotas.
- Mas ela não teria razão para entregar seu próprio corpo. Dizem que ela se ofereceu como garantia para que a vida do príncipe não fosse ameaçada pelos demônios. O que creio que seja verdade, afinal não seria do feitio da rainha inventar e mandar espalhar uma mentira, depois de capturada, apenas para que seus inimigos sejam vistos pelo povo como adoradores de Satanás. Ora, você que me contou sobre aquele lugar em que supostamente os mortos se levantam.
- Acredita que Fredegund possa estar de alguma forma envolvida naquilo?
- Talvez não diretamente. Mas suas evocações e o mal em seu coração devem atrair não só os demônios com os quais lida como outros, que se espalham por seu reino e pelos reinos próximos, talvez até tomando os cadáveres. Só nos resta diante de tudo isso, Froila, orar muito.
- Inclusive para que eles não decidam invadir este reino.

*

Uma noite de tempestade. Os trovões soavam como os golpes de um enorme chicote. E a dor que Fredegund sentia era tremenda, mas tinha que fazer força, como lhe diziam as parteiras. A criança não parecia querer sair. Talvez estivesse com medo da tempestade, como uma parteira chegou a comentar baixo com outra.
Fredegund escutou e sentiu raiva. Mas sua dor era forte demais para que lhe permitisse discutir com alguma daqueles mulheres.
Só parou de gritar quando a criança saiu. Estava aliviada por estar viva. Só que ficou preocupada com o silêncio. Não havia nenhum choro. Nem seu marido ou as parteiras diziam uma única palavra. Ouviu-se uma chicotada do céu.
O bebê estava apodrecido nos braços de Quilperic, que a seguir, enojado, passou o pequeno e repugnante cadáver para uma das parteiras.
- Era um garoto.- Esta falou.
- E que importância isso tem?- Indagou Quilperic.
- Meu bebê...- Fredegund estendeu as mãos para tê-lo em seus braços, ainda que estivesse morto.
- Não. Você não vai tocar nessa coisa imunda.- Impôs o rei.
- É o nosso filho...
- Não é, não era, nem nunca será. É um dejeto desprezível.- E se voltou para as parteiras.- Saiam e enterrem essa coisa longe daqui.
- Não pode fazer isso, meu senhor.
- Se você tocar nesse cadáver, daqui por diante apenas teremos cadáveres.
- Mas por que diz isso?- Inquiriu, visivelmente triste e inconformada, enquanto as parteiras já haviam saído.
- Porque a morte apenas traz morte, e não deveria se mesclar à vida.- Retirou-se tempestivamente, deixando-a sozinha e desolada.
Fredegund não se lembrava de já ter sofrido tamanha dor. O sofrimento em sua alma agora se comparava à dor física do parto. Pela primeira vez em muito tempo desde que se tornara adulta, sentia-se fraca e vulnerável. Estaria começando a sofrer as decorrências da ira de Deus por ter violado as leis da vida? Consequentemente, cairia em desgraça com o marido, que no entanto estava muito mais assustado do que aparentava? Quilperic chegou a pensar que, mesmo que se livrasse de Fredegund, já apresentava a marca do diabo em seu espírito. Talvez valesse mais a pena, a queda da alma inevitável, continuar lutando e se contorcendo com a mulher, prolongando seus dias no mundo o máximo possível, porque depois a danação eterna o aguardava.
À noite, Fredegund sonhou que o draugr desenterrava o cadáver de seu bebê para devorar suas partes. Com toda a gula.
Ao acordar, apavorada, teve certeza que isso estava realmente acontecendo ou que acontecera ou aconteceria.
E podia sentir em seu próprio ventre a dor de dentes afiados, fincando-se para estraçalhar.

VIII

Quilperic decidira mover guerra à Burgúndia. Ao que parecia, a indignação pela perda do filho o levara à tentativa de descarregar sua ira em uma nova campanha militar. Alguns de seus soldados, à noite no acampamento, comentavam entre si:
- A bruxa foi punida por seus pecados e agora nós que devemos arriscar nossas vidas.
- Tente encarar as coisas de outra forma. Obteremos um grande butim.
- Sou um guerreiro e minha vida é empunhar minhas armas. Por outro lado, se morrer hoje ou amanhã, morrerei frustrado. Queria garantir alguns dias mais com a minha esposa, pois me casei há pouco mais de duas semanas.
- Você terá ainda muito tempo para a sua mulher, e não só verá seus filhos como seus netos.
- Obrigado pelas palavras, companheiro. Só espero que os pecados da bruxa não afetem todas as mulheres do reino.
Ao amanhecer que se deu uma grande batalha, logo cedo o alvoroço no acampamento pela aproximação das tropas da Burgúndia, lideradas por sei rei, Guntram. Froila agora estava a seu serviço e, durante o combate, sem precisar se preocupar com o orgulho de Guntram, que não era como Sighebert, avançou ao encontro de Quilperic.
Só que antes que rei e mercenário cruzassem suas armas, o sol se pôs em segundos. Em um brusco eclipse, a escuridão tomou conta de tudo ao redor. E a sombra de um cavaleiro se moveu nas trevas, semeando morte e destruição de ambos os lados.
Froila, próximo de Quilperic, teve sua cabeça arrancada por uma mão apodrecida, enquanto a outra, empunhando a espada, atravessou o peito do rei de Nêustria e Austrásia, que em seus últimos instantes viu à sua frente a imagem de Sighebert, com o pescoço despedaçado. Sustentava sua cabeça apenas porque se tratava de um espectro.
- Ah, Fredegund...- Foi a última fala que desejou e conseguiu pronunciar, afogando-se na tristeza, no desespero e na raiva por um arrependimento confuso.
Apavorado, o rei Guntram ordenou a retirada, que ocorreu em desordem enquanto o sol retornava timidamente e uma chuva forte começava a desabar. O cavaleiro-sombra desapareceu antes de sua imagem se tornar nítida, mas fora visto por muitos. Os soldados de Quilperic ou bateram em debandada ou permaneceram estáticos, perplexos, o que à noite comentara sobre sua esposa voltando a falar com o companheiro:
- É melhor partirmos com quem nos é querido para muito longe. O diabo tomou conta destas terras.

*

Runda estava orando de joelhos, com as mãos em seu peito. Orava por si, pela derrota de Quilperic e para que Froila regressasse são e salvo. Temeu, à noite, pelas insistentes batidas em sua porta. Se fosse seu companheiro, já teria se anunciado. Foi quando, para sua surpresa, ouviu:
- Runda, abra essa porta! Sou eu, Froila!
- Deus atendeu minhas preces!- Ela rapidamente se levantou e correu para abrir.
Contudo, não havia ninguém. Resolveu sair, cautelosamente, e olhar para os lados.
- Se estiver brincando comigo, querendo me assustar, pare com isso. Eu não suporto brincadeiras de mau gosto.- Resolveu falar.
Tinha certeza que escutara a voz de Froila. Não podia ter sido sua imaginação. Nem outra pessoa.
Na beira do inconformismo, demorou a avistar o enorme lobo cinzento que se movia nas sombras. Quando o viu e gritou, era tarde demais para fugir de suas presas: a fera saltou, derrubou-a e fincou-as em sua garganta, rasgando-a e devorando sua vida.

*

Fredegund não podia acreditar que Quilperic estava morto e da maneira como fora, em um eclipse, vítima da ação de um cavaleiro das sombras, conforme lhe fora relatado. Sabia perfeitamente quem era o cavaleiro. As palavras do necromante do norte não lhe saíam mais da mente: “Saiba também que a morte, uma vez convocada, não pode ser extirpada.”
Ela própria fora a causa tanto do triunfo de Quilperic como de sua ruína. Atrairia a morte para todos ao seu redor? Talvez até para si, após um curto período de glória? Nunca mais seu ventre abrigaria uma nova vida?
Agora era a rainha solitária. Contra a qual, embora fosse mulher, todos a viam despida de seu sexo, com o ventre amaldiçoado: temiam-na. Apenas discerniam a possibilidade de orar para que Deus a destruísse, sem coragem para empunhar contra ela uma espada ou um punhal.
Ainda sou obedecida porque creem que todos os demônios do Inferno me rodeiam. Ou que eu mesma seja um demônio. Talvez não estejam inteiramente equivocados.”, refletiu, enquanto mandara aprisionar, embora não ferir, o jovem Quildebert, que para ela estava longe de representar uma ameaça. Talvez precisasse conservar algo que lhe lembrasse que era humana. Quebrar sua palavra e tirar a vida de uma criança, após perder seu bebê conseguindo se imaginar melhor no lugar de Brunhilde, seria confirmar sobretudo para si uma natureza demoníaca.
Quando veio mais uma noite, com a lua e as trevas, enquanto se perguntava se não fora o que desejara desde o início, tornar-se uma verdadeira rainha, sem ninguém para atrapalhá-la ao lado, sentiu alguém às suas costas. Estava diante da janela e ficou quase petrificada. Quando conseguiu se voltar, escutou a voz:
- Tudo foi feito conforme a sua vontade.- Era Godomar, o draugr.
- Eu não lhe ordenei que matasse meu marido.- Teve coragem para retrucar.
- O que a senhora precisou me pedir? Eu leio o coração da rainha.
- O medo não deveria fazer parte de minha alma. Mas você a está destruindo; está fazendo com que apodreça.
- Pelo contrário: estou lhe dando a verdadeira vida, assim como a senhora devolveu a minha.
- Começo a me arrepender.
- Isso não é verdade. Sem mim, teria sido repudiada por seu marido desprezível, que teria morrido de qualquer forma, porém pela espada de Sighebert. Eu lhe dei tudo, rainha.
- Está me tirando tudo. Inclusive estou certa que arrancou de mim o meu filho!
- Senhora, não seja injusta. Eu apenas removi todos os que estavam em seu caminho. Inclusive traidores e inimigos dos quais se esqueceu, ou que desconhece. Depois de me dar a oportunidade para me vingar de Sighebert, era o mínimo que eu poderia fazer para expressar minha gratidão.
- O meu filho não estava em meu caminho! Maldito seja!- Aproximou-se como para golpear o draugr, certa de que ele não lhe faria mal, mas ele desapareceu.
Fredegund sentiu-se prensada por um torpor furioso. Refletiu que precisava procurar novamente pelo necromante do norte.

*

De volta à mesma floresta, a rainha não precisou aguardar muito para que ele se manifestasse:
- O que a traz de volta, rainha?
- Creio que o senhor saiba perfeitamente.- Ela replicou.
- A senhora também se recorda perfeitamente do que eu lhe disse: a senhora convocou a morte...
- Eu quero dar um fim à ação do draugr.
- Temo lhe dizer que não há mais retorno, a não ser que se una à morte, de uma maneira ou de outra.
- Não quero saber de enigmas e sim de ação concreta.
- Não se trata de um enigma. Procure a verdade em sua alma.
- Uma alma que já não existe, que foi arrancada de mim, pútrida, junto com meu filho.
- A rainha se deixou impressionar pelos odores fétidos.
- Creio que o draugr seria destruído se eu desse um fim à minha vida.- A neblina passava por seu rosto, parecendo torná-lo mais e mais vago e evanescente.- Mas essa não é uma solução que eu considero, pois já não tenho alma. A única coisa que me resta é este corpo.
- Então faça o melhor uso dele, assim como Godomar está fazendo!
- Não sou um draugr.
- É muito mais do que isso: é uma rainha!- E a névoa encobriu o necromante, fazendo-o desaparecer, por último se esvaindo seu sorriso terrível.
Para Fredegund, o mundo pareceu perder toda a luz, em definitivo.
Quando olhou para trás, sentindo novamente a presença, ali estava Godomar.
Seu companheiro solitário.

IX

À luz do dia, Fredegund decidiu expor todo o horror para fora de si: mandara espancar Brunhilde e que fosse colocada sobre um asno, com a população atirando-lhe pedras e tudo o que tivesse de apodrecido em mãos. E a rainha destronada da Austrásia aceitava seu tormento em silêncio.
Antes que este se iniciasse, Fredegund fora a ela e encarara seu fogo ainda aceso. Não demonstrara temor, mas mesmo assim a viúva de Sighebert discernira algo. Nada dissera, mas começara com um riso tênue e depois gargalhara diante de sua inimiga, que decidira por isso prolongar e acentuar seu sofrimento. Fredegund disse a si mesma: “Ela é a culpada de tudo. Se não fosse por ela, por suas ambições, por ter invadido nosso reino, eu não teria evocado o maldito draugr e meu filho e meu marido ainda estarim vivos!”, parecia ter convenientemente se esquecido do assassinato de Golsund.
Brunhilde deveria sobreviver por três dias. E no final do terceiro, após a humilhação pública, exposta como a culpada pelos sofrimentos da gente de Nêustria, para a qual, nas palavras de Fredegund para o povo, a justa punição fora adiada por tempo demais, foi amarrada a um grande e musculoso cavalo, o maior de todo o reino. “Agora será impossível permanecer resignada. Grite!”, foi o pensamento de Fredegund assim que a rival começou a ser arrastada.
Mas Brunhilde seguiu muda, como se tivessem arrancado sua língua; com o fogo em seus olhos se apagando, foi puxada pela antiga estrada romana, onde foi deixando sangue e pele, depois seus ossos se quebrando.
Apesar de toda a dor, de todo o inferno antecipado na Terra para sua inimiga, Fredegund foi tomada por grande frustração ao ver, já à noite, depois que o vermelho do sol se dissipara, o cadáver destroçado. Chegou a se ajoelhar diante deste e clamar:
- Por que você continua em silêncio? Por que não grita? Por que não ergue a voz para me insultar?- Quase não havia mais pele no belo rosto de outrora. E Fredegund, cheia de ódio, arrancou um dos olhos e espremeu-o entre seus dedos. Os soldados ao redor pareciam assustados. Receberam, quando a rainha se reergueu, a seguinte ordem:- Não deem a ela um enterro cristão. Era na verdade uma pagã. Queimem seu corpo e dispersem suas cinzas. Refletindo: “Até o final, a desgraçada não abriu mão de seu orgulho.”
- Sim, senhora.- Acataram os homens, naquela mesma noite Fredegund tendo a impressão de despertar em um pesadelo: fora arrancada de sua solidão pela presença agora tão bem conhecida.
Godomar a despia; e o draugr logo tocava suas coxas e seus seios, com um aterrorizante hálito de morte.
Mesmo assim, o que de início dera a Fredegund vontade de gritar entorpeceu seus lábios e sua língua. O horror já fora posto todo para fora. Não havia mais o que deixar escapar por uma manifestação estrídula.
Fechou seus lábios com os do draugr. E viu a seguir em seu quarto, enquanto ele a penetrava com seu membro fétido, dois espectros: um era o de Brunhilde, parcialmente sem pele, com metade do crânio exposto; o outro, a seu lado, um pequeno, que segurava a cabeça, sem expressão, sob o braço esquerdo, era o príncipe Quildebert.
- Não havia mais necessidade de deixar vivo o garoto.- Disse Godomar.- Eu o decapitei.
- Eu já sei.- Replicou Fredegund, envolta pelo que eram agora para ela fragrâncias de morte, sem mais se perguntar se era humana.

X

Fredegund coroou um morto. Godomar era o novo rei de Nêustria e Austrásia. Um odor de cemitério se espalhara não só pelo castelo como por toda a cidade de Suesson, que os padres começaram a abandonar. A rainha era agora a “amante do demônio”. Muitos diziam que o próprio diabo, com a aparência de um guerreiro-cadáver, agora governava o reino. Por mais que Fredegund negasse, afirmando que Godomar era filho de um anjo do Senhor, que traria uma nova prosperidade.
Não foi o que se viu, com as colheitas secando, os animais morrendo, as pessoas aterrorizadas; e a perspectiva de uma nova guerra: O velho rei dos godos, pai de Golsund e Brunhilde, estava marchando para Suesson, a fim de consumar sua vingança pelos assassinatos das filhas, do neto e de seu honrado genro.
- Enfrentaremos alguém que realizou um pacto com Satanás, que se deita com ele e se senta no trono a seu lado.- Discursara aos seus soldados.- Mas não devemos temer a amante do demônio! Temos um aliado muito mais poderoso do que o dela!- Ergueu, sobre seus cabelos brancos, a cruz.
Muitas cruzes haviam caído das igrejas de Suesson após a partida dos padres. E foram deixadas despencadas por Fredegund. O bispo realizara uma última tentativa, corajosamente abordando-a diante do draugr, embora sem dirigir a palavra e o olhar a ele:
- Senhora, eu celebrei seu casamento! Sua verdadeira união, sagrada aos olhos de Deus! Como pode agora fornicar com um membro do Inferno e entregar-lhe o reino? Dizem inclusive que foi por sua feitiçaria que nosso rei não se encontra mais entre nós. Que seu assassino foi o demônio que agora se senta ao seu lado, com o qual a senhora divide o leito!
- Tem espionado minhas intimidades, Excelência?
- Mas é claro que não! Apenas é evidente!- Tremia ao imaginar o maléfico sorriso do draugr.- Só não quero crer que a senhora tenha planejado a morte do rei Quilperic. Que tenha sido um acidente, porque a senhora, em seu erro, não conseguiu mais conter o demônio. Talvez esteja ao seu lado inclusive porque a força! Quero acreditar nisso. Saiba, minha rainha, que não precisa temê-lo! Arrependa-se de seus pecados, de sua feitiçaria, e os anjos do Senhor irão descer e salvá-la, destruindo o demônio e restituindo-a à comunhão dos fiéis de Deus! Apenas expresse todo o seu arrependimento, declare firmemente que deseja quebrar as correntes do Inferno. Há ainda esperança! Lembre-se do filho pródigo!
- Há uma guerra se aproximando. E, mesmo que o senhor não acredite, tenho a meu lado um verdadeiro guerreiro, filho das hostes armadas do Céu. Será impossível vencer os godos se eu abandonar o auxílio que Deus me enviou e que Vossa Excelência Reverendíssima acredita que provenha de Lúcifer.
- Cesse com as mentiras e o medo, senhora. Renegue o Inferno, cuja ajuda buscou para vencer o rei Sighebert, e aceite a derrota que já deveria ter vindo! Aceite sua redenção com a coroa do martírio! Perceba de uma vez por todas que a sua luta, a nossa luta, não é contra a carne e o sangue, mas contra os príncipes das trevas e as hostes espirituais da maldade! Não se curve a elas!
- Por que a derrota deveria ter vindo, Excelência? Não crê no livre-arbítrio? Eu ergo o meu destino. Não formule para mim os seus desejos.
- A senhora arruinou seu destino.
- Vossa Excelência não deveria me julgar, se é um verdadeiro cristão.
- A senhora tanto construiu para si ruínas que perdeu seu único filho.
- Acredita mesmo nisso?- Acariciou seu ventre.- Saiba que estou esperando outro.- Resposta que chocou o bispo de Suesson. Não foi necessária nenhuma intervenção de Godomar, o rei-cadáver, para que o alto prelado se retirasse, com uma aparência desolada.
Era verdade: Fredegund estava grávida e em pouco tempo começou a exibir sua barriga crescida.
Que espécie de filho poderia dar à luz? Como seria o fruto de uma semente da morte? O que estava ocorrendo fazia sentido? Poderia algo sem vida gerar vida? Seria assim tão tênue a fronteira entre os vivos e os mortos?

*

Ao invés de um choro humano, um grunhido feroz e distorcido: pertencia à criatura disforme, de garras e dentes afiados, que deixou o ventre de Fredegund, rasgando-a enquanto ela gritava. Todo o sangue se espalhou.
Godomar esmagou a criatura em toda sua ira, para tentar salvar a esposa.
Mas logo estavam ambos inertes. Vidrados os olhos de Fredegund, que em seus últimos momentos pensara em evocar o nome de Cristo; por fim, no entanto, desistira.
O draugr não podia chorar. Porém tudo ao seu redor ficou mais gélido.

*

Quando o rei dos godos chegou em Suesson, encontrou uma cidade vazia. Havia névoa e frio. Além de casas desabitadas. Mais nada. Nenhum sinal de Fredegund ou de seu consorte demoníaco. Apenas sangue por todo o castelo.
- Terá o diabo levado a rainha amaldiçoada ao Inferno antes de nossa chegada?- Um dos cavaleiros godos perguntou a seu rei.
- Há quem diga que os pactos com o Inferno proporcionam grandes realizações.- Respondeu o soberano.- Estas são terríveis, porém muito breves. Logo chega o momento do demônio cobrar a dívida do devedor. E ele é bastante severo nesse aspecto.
Não houve quem ali visse Godomar se movendo mais veloz do que o vento, chegando à floresta onde o necromante o aguardava.
Com seu rosto encoberto pelas trevas, o draugr tinha em seus braços o corpo de Fredegund.
- Não é lícito aos mortais evitar as desgraças que o destino lhes reserva.- Disse então, com um sorriso cruel, o evocador da morte...

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