sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Morte (1)



I


Uma noite de tempestade. Mas parecia não haver ninguém para escutar o estrondo das águas e de seus ferozes acompanhantes celestiais, os relâmpagos: pois a mulher estendida no leito estava morta. Os olhos rígidos e arregalados. O braço esquerdo jogado para o lado, enquanto a mão direita se mantinha fechada sobre o peito. Na garganta, o corte vermelho. Em seus cachos loiros havia manchas de sangue, que também maculavam seu vestido branco.

Não muito longe daquele quarto, no terraço da mais elevada das torres do castelo de Suesson, sede da corte da Nêustria, estava o monarca, Quilperic. Não parecia temer os raios nem se importar com a chuva que o encharcava, em sua aparentemente absoluta solidão. Quiçá se sentisse o único capaz de permanecer ali sem se abalar?

Era como se a água desse fortes tapas em sua cabeça. Sua visão úmida estava embaçada. Talvez não quisesse mais enxergar. A visão do horror que realizara teria merecido ser a última. Depois disso, trevas. Mas ainda via. E ouvia. Não somente o trovão. O pior a voz de Fredegund:

- Não crê que seja hora de descer?

- Para ser testemunha de meu crime?- Voltou-se com nítido desamor para consigo.

- Não precisa rever o cadáver se não desejar. Basta pedir aos servos para cobri-lo.- Ela se aproximou, deixando evidente que também não se importava com as águas nem temia o martelar dos céus.

Diferentemente de Quilperic, não usava coroa. Mas seus cabelos soltos eram tão longos e dourados quanto os dele e, se tinha de levantar a cabeça para fitá-lo nos olhos, era apenas por ele ser mais alto; um detalhe meramente físico, pois ao se encararem era gritante que se encontravam no mesmo plano.

Seus anéis, além de sua gargantilha, continham pedras preciosas: presentes para a concubina preferida.

- Você não conhece o remorso, não é?

- De que ele me serviria?

- Diz-se cristã.

- Sou cristã, não tola. Até parece que o senhor nunca antes havia tirado uma vida. Vidas vêm e vão, conforme a vontade de Deus. Ele se sacrificou por nós: então possui o direito de nos levar quando desejar.

- É muito diferente ceifar as vidas dos homens no campo de batalha, onde Deus pode escolher quem merece seguir combatendo. Não se trata de um crime como ocorreu hoje, de uma covardia perpetrada pelas mãos de um homem contra uma mulher indefesa.

- Uma mulher que, depois de sete anos, não deu a seu rei e marido nenhum filho. Ela será bem recebida no Paraíso. O reino necessita de herdeiros e Nosso Senhor sabe disso.

- Como tem certeza que me dará filhos?

- Não escuta os trovões, senhor? Através deles, o céu se une à terra. Anunciam a fertilidade do solo, que é silenciosa. Da mesma maneira, gritaremos no leito até que Deus nos ouça. O ventre da mulher se entumece também na quietude.

- Não me fale em gritos!- Por um momento virou o rosto.- Ainda escuto o de Golsund

- Apesar de eu ter falado sobretudo em silêncio, o senhor ouve o que decide ouvir.

- Eu pensei que ela estivesse dormindo profundamente...- Abaixou a cabeça, sem olhar para Fredegund.- Mas de repente escancarou os olhos!- Assim como voltava a encarar a mulher que estava à sua frente.

- Isso porque sua espada hesitou, demorou a cortar.

- Sabe que não foi minha espada, e sim minha alma.

- Não importa. Está feito. Nenhuma criança nasce sem gritos.

- Está querendo dizer que a colheita humana necessita de lágrimas?

- Se não fosse assim, Nosso Senhor não teria, pendurado na cruz, oferecido sua própria carne.

- Não creio que você consiga chorar.

- Quanto a isso, não cabe ao senhor decidir.

Silenciaram.

Quando ela aparecera no alto, Quilperic vira-a embaçada; quase se desvanecia, como um espectro, cujo aspecto mais terrível era sua voz. Agora, e com a chuva tendo diminuído, apesar da frequência dos trovões ter aumentado, via-a entre clarões como a mais bela gárgula; ao passo que ela o via como era: alto; mas podia apoiar as mãos em seus ombros, enquanto mantinha os pés firmes.



II



Os principais nobres da Nêustria compareceram ao casamento de Fredegund e Quilperic, celebrado pelo bispo de Suesson. Embora naquele dia o sol brilhasse, nem todos os comentários entre os cavaleiros, na saída da igreja, eram dos mais brilhantes:

- Mal uma rainha foi enterrada, já temos outra.

- Como se algo tivesse mudado! A rainha Golsund ocupava o trono. Mas na cama do rei a frequência de Fredegund era muito maior e mais intensa.

- Nenhum de nós viu o corpo da rainha Golsund. Quando nos demos conta, já estava trancafiado na cripta, a fim de nunca serem vistas as marcas da covardia.

- A bruxa um dia será castigada por seus pecados.

Eram as vozes de quatro cavaleiros.

Oficialmente, divulgara-se que Golsund, filha caçula do rei dos godos e então rainha da Nêustria, falecera de um mal súbito. Mas era quase unânime a opinião de que o rei Quilperic se livrara de uma companheira estéril para se casar com a mulher que o cativara, a cortesã Fredegund, por instigação da qual cometera o assassinato.

Não necessariamente via-se a sombra com maus olhos; afinal se trata de uma filha da luz: o que seria do reino, e o que se falaria do vigor do rei, caso seguisse sem descendentes?

Havia contudo, em meio aos servidores da coroa da Nêustria, os que estavam também a serviço, se não de inimigos imediatos, de aliados vigilantes: era o caso de Runda, cativada pelo ouro de Brunhilde, a irmã mais velha de Golsund, que desconfiava de todos os homens, exceção feita a seu marido, Sighebert da Austrásia.

Runda estivera entre as criadas que tinham preparado o corpo de Golsund para o sepultamento. Escutara seus senhores. Sabia dos detalhes do crime. E, assim bem informada, dirigiu-se, no dia seguinte à formalização da união entre rei e concubina, ao anfiteatro da cidade, outrora palco de lutas entre gladiadores, nos novos dias centro de treinamento para os soldados de Quilperic, muitos dos quais eram mercenários.

Entre estes, havia Froila, amante de Runda.

- É necessário que você vá.- Disse a serva ao se encontrarem nos fundos da antiga arena. Após alguns beijos rápidos, ela o repelira quanto a algo mais, enquanto se ouviam os estalidos de espadas, lanças e escudos, além das flechas cravando-se na madeira.- Exponha tudo à rainha Brunhilde. A recompensa dela será generosa.

- Temo que nunca mais poderei voltar para Suesson e provar seu delicioso vinho. Falam muito do vinho de Divoduro, mas eu acho que, como o daqui, não há na verdade igual nem na Itália, nem na Hispânia, nem em outras partes da Gália.

- Lamenta pelo vinho e não por mim?

- Quer que eu me torture com mais palavras? Se é duro para um homem confessar o temor de perder uma amante, que dirá duas! E não é que você possa se queixar, já que não fui eu quem hoje rechaçou o mel do amor.

- Tudo a seu tempo. Alguém com seu sorriso não deve perder as esperanças.- Enquanto Runda se mantinha séria, Froila parecia sempre debochado.- A rainha Brunhilde e o rei Sighebert cortarão as cabeças dos demônios coroados destas terras e unificarão a Gália.

- Desde que eu possa manter ou recuperar os prazeres dos lábios, dou-me por satisfeito, ainda que reine Satanás.- Puxou um escarro com força, lançando a seguir uma cusparada.

Mãos de vento pareceram mover os cabelos ruivos de Runda, que olhou para o catarro no chão com aparente indiferença. Depois voltou a encarar Froila, cujos olhos pareciam da mesma cor, um tanto amarelados. Era ainda mais pálido do que ela e de cabelos também vermelhos. Por um momento, teve a impressão de ver na face dele os olhos da defunta Golsund.

- O que foi? Parece que viu um fantasma.- Diante de um inesperado silêncio, o mercenário inquiriu.

- Acredita que os espíritos dos mortos possam vagar entre nós, sem lugar no Céu ou no Inferno?- Ela de repente indagou.

- Quando estão desassossegados, tenho certeza que sim.

- Espero que a rainha Golsund encontre a paz.- Abaixou a cabeça e juntou as mãos no que pareceu um gesto de prece.

- Você realmente se afeiçoou a ela.

- Respeito as verdadeiras rainhas. Ela era gentil comigo e irmã da rainha Brunhilde, que me entregou as unhas de São Martinho. Graças a ela, que não se limitou a nos ajudar com braceletes e moedas, minha mãe sarou.

- Ela morreu um ano depois.

- Mas não por causa da doença!- A resposta de Runda partiu como o rosnar de um animal acuado. Mas aceitou a mão de Froila acarinhando seus cabelos.- Você sabe que foram os malditos pagãos saxões, que com sua avidez não poupam nenhuma aldeia. O santo fez a sua parte! E isso graças à fé da rainha Brunhilde, que preserva consigo muitas relíquias!- Diante do abalo que foi tomando conta de sua amante, Froila decidiu abraçá-la e isso ela não recusou.

- Eu sei. Fique calma. Também tenho apreço pela rainha Brunhilde. Afinal, não passo fome mais pelo que ela nos dá do que pelo pagamento miserável do rei Quilperic. Só a advirto para que não venere ninguém além de Deus.

- Mas você acredita no poder dos santos!

- É claro! Os santos intercedem por nós junto a Nosso Senhor! Falo para que não tornemos quem nos ajuda, entre as pessoas que estão na Terra, nossos bezerros de ouro. Sobretudo quando, ao contrário de nós, são nobres. Para os nobres, nossas vidas contam muito pouco. Mesmo que se apiedem de nós por um momento, irão nos descartar, ainda que os bons com alguma compaixão, caso estejamos entre eles e seus propósitos.

- Não há a menor razão para ficarmos no caminho da rainha Brunhilde.

- Hoje não, mas não somos e nem queremos ser adivinhos, não é?- Segurou o rosto de Runda entre suas mãos. Ao soltá-lo, ela mantinha os olhos fixos nos seus.

- O hoje é construído pelo ontem, com nossos erros e acertos. O amanhã será erguido com base nos equívocos e êxitos do hoje.

- Exatamente por isso que não devemos tentar prever o futuro. Não somos infalíveis.

Froila descansaria naquela noite e partiria na manhã seguinte.

Levaria alguns para chegar em Divoduro, a capital de Austrásia.



III



Ao receber a notícia do assassinato de sua irmã, a rainha Brunhilde fechou o rosto, mas não chorou. Era uma mulher alta e robusta, que mantinha os cabelos loiros trançados como em seus tempos de solteira. Seu semblante irradiava um orgulho ferino.

- Há quem afirme que a dor exige o hábito das lágrimas. Mas talvez sejam somente os miseráveis nutrindo no choro um prazer perverso.- Falou talvez para seu marido Sighebert, no trono a seu lado, talvez para Froila, talvez para si mesma, talvez para ninguém. Não olhava para ninguém. Apenas para sua dor.

- Em lugar de perdermos tempo liquefazendo nossa agonia, tomaremos uma ação concreta.- Manifestou-se o rei da Austrásia.

Brunhilde sabia de que tipo de ação Sighebert falava. Conhecia-o bem. Via-o mais como dragão do que como homem; de cabelos ruivos e olhos fúlgidos, sua mente expelia fogo quando tinha uma ideia, um objetivo, e guardava com todo o cuidado seu maior tesouro: sua esposa e rainha.



*



Dez anos antes, o então príncipe da Austrásia fora à corte dos godos.

Inicialmente, deixara Divoduro para realizar aventuras, para se tornar melhor guerreiro e conhecer algo do mundo. Dissera a seu pai, Clothar:

- Quando chegar o momento de me assentar no trono, prosseguirei fielmente com o destino que Deus me reservou. Mas os dias atuais me convidam a buscar tesouros incalculáveis.

- Não crê que, como herdeiro desta casa, já seja rico o suficiente?- Questionara o velho rei.

- Não falo de ouro, papai. Ao menos não necessariamente. Falo de nossa alma, que Deus fez semelhante a Ele, mas cujo brilho não percebemos enquanto nosso olhar não for treinado o bastante, enquanto não souber discernir melhor todas as coisas e seres que nomeamos. É preciso abater o dragão que nos tenta à acídia, que cria cavernas ao redor de nossos corações.

- Pensei ter dado a vida a um guerreiro, mas tenho diante de mim um poeta.- Era difícil distinguir quando Clothar falava com ironia e despeito de quando estava satisfeito ou conformado. Era sempre o mesmo o ar frio, sem emoções visíveis.

- Veja-me como quiser, meu pai. Nesta viagem a empreender, aprenderei a me ver.- E chegaria ao reino dos godos já com muitos feitos em seus ombros, mas sem nenhuma paixão, ainda em busca de algo que o elevasse; até avistar Brunhilde.

A princesa estava na praça central da cidade, enfrentando um homem muito alto, que manejava uma espada pesada. Ela parecia completamente à vontade com uma cota de malha e placas de metal, empunhando uma arma mais leve do que a de seu rival.

Não pôde se aproximar muito, ficando no meio da multidão, porque alguns soldados cercavam a área da luta, impedindo qualquer interferência.

Sighebert viu Brunhilde se esquivar do fendente do gigante e atravessar seu costado. O guerreiro, que estava com alguns ferimentos, ficou de joelhos, rendido. Que mulher era aquela? Sighebert tentou entender o que diziam:

- Você lutou bem.- As palavras de Brunhilde.- Por isso é digno de minha admiração. Mas não de minha confiança.- Após embainhar a espada, deu-lhe as costas e se retirou. Enquanto o povo exultava, os soldados a seguiram, constituindo sua escolta.

Sighebert enfim pôde se aproximar do homem que lutara com a guerreira. Mas antes que conseguisse lhe perguntar algo, o sujeito despencou, com o sangue escorrendo sob seu corpo.

- Agora que ele não vai falar mais nada. Ou pelo menos não por um bom tempo, se sobreviver.- Disse um velho, atraindo a atenção do príncipe herdeiro da Austrásia.

- Quem era aquela mulher?- Indagou Sighebert.

- Ah, um estrangeiro...- O velho deu uma risada rouca.

- Responda-me.- Sighebert lançou um olhar feroz e impositivo.

- Calma, não precisa me assustar, senhor! Parece ser um grande cavaleiro. Talvez até tenha coragem de enfrentá-la para conseguir sua mão.

- Não estou compreendendo.

- Aquela é Brunhilde, filha do rei. Uma princesa um tanto inconvencional. Ao contrário da irmã, que é doce e bondosa, ela gosta de ver sangue!

- Isto ainda não ficou claro.

- Ela aceitou se casar, depois de muita insistência por parte do pai. Mas apenas desposará o homem que a conquistar pela força, que a vencer em batalha. Muitos por isso desistiram de tentar tomá-la, pelo risco da derrota para uma mulher e da subsequente vergonha. Outros, corajosos, até conquistaram o respeito ao aceitarem o desafio. Mas nenhum ainda a derrotou.

- Ela então não é só bela como forte e valente.- Sighebert deixou de olhar para o velho para olhar adiante, em direção a onde Brunhilde havia ido com os soldados do rei. O sol se punha. Enquanto a multidão já se dispersara.

- Pelo visto, o senhor parece interessado. Muito cuidado.

Sighebert deixou o velho para trás. Na manhã seguinte, estava na corte do rei dos godos, oferecendo-se como pretendente e desafiante.

- Parece que Deus atendeu às minhas preces.- Comentou o soberano.- É uma honra receber o interesse do filho do rei da Austrásia!

- A honra por enquanto será toda dele, por poder lutar contra a filha do maior de todos os reis.- Brunhilde, no trono menor à sua esquerda, interveio.

- Não deveria falar assim, irmã.- Também Golsund, no trono menor à direita, se manifestou.- Vejo diante de nós um homem que é fogo e flor.

Brunhilde o encarou. Sentiu que nele havia espírito. Um sopro quente percorreu suas veias e alcançou sua cabeça. Porém disse:

- Só saberemos se você está certa depois que ele me derrotar e plantar sua semente.- E com os olhos da princesa guerreira fixos nos seus, Sighebert não recuou.

Desta vez, o duelo se deu com a presença do rei. No combate anterior, sequer comparecera porque não vira chances no desafiante. Agora era diferente: e Sighebert demonstrou isso partindo com seu machado o escudo de madeira de Brunhilde.

Ela já demonstrara ser uma esquivadora hábil na luta anterior. E ele sabia que se a matasse também estaria morto. Por isso, tomou uma corajosa decisão, largou seu machado e ficou sem armas, enquanto ela mantinha sua espada. A multidão ao redor soltou exclamações surpresas e admiradas. O velho que falara anteriormente com Sighebert soltou um riso engasgado. O rei pareceu ficar apreensivo.

- Você enlouqueceu?- Questionou a guerreira.

- Estou mais são do que jamais estive.- Replicou o príncipe.

- Apenas entrará em meu jardim a semente que tiver certeza que não dará origem a frutos venenosos.

- Pareço-lhe venenoso?

- A loucura também é um veneno.- Avançou, lançando diversos golpes, mas Sighebert evitou todos e, em um momento em que ela baixou a guarda, agarrou-lhe o braço.

Brunhilde lutou. Mas ele torceu seu braço, até que ela soltou a espada.

Apanhou então a arma primeiro, golpeando-a com uma cotovelada. Logo Brunhilde estava com sua própria espada em seu pescoço.

- Agora acho que posso confiar no senhor.- Ela disse após alguns instantes de silêncio. E sorriu. Era sua maneira de se render.

- Minha filha agora tem um esposo!- O rei dos godos se levantou de seu assento e houve uma grande festa. Um banquete foi realizado, com comida distribuída para ricos e pobres.



IV



O rei Quilperic recebeu a declaração de guerra de Sighebert. Fredegund, a seu lado, escutou atentamente as palavras do mensageiro:

- Ele o declara autor da morte da defunta rainha Golsund, irmã de sua rainha Brunhilde. Afirma que tais atos nefandos não podem ser permitidos em terras cristãs, que chegou momento de dar fim aos bárbaros costumes pagãos.

- Certamente foi a serpente goda que o instigou a pegar em armas contra nós, irmãos e irmãs de estirpe franca.- Opinou Fredegund.

- Com que provas ele se julga no direito de me acusar do crime de ter tirado a vida de minha própria esposa?- Inquiriu Quilperic.

- O rei Sighebert afirma que é evidente que a eliminou por não ter lhe dado filhos e para se unir à sua...- Olhou para Fredegund com certo receio, mas falou:- Repugnante concubina. Palavras dele. Diz que é claro que um homem que estivesse sofrendo pela perda de sua mulher não voltaria a se casar novamente.

- Será possível que, sendo um rei, não leve em conta que um soberano necessite de herdeiros, que não há tempo a perder? Um rei não pode permanecer por um longo período em castidade se não tiver filhos.

- Como acabei de lhe dizer, tanto o rei Sighebert leva isso em conta que o acusa de matar motivado também pela falta de filhos. Apenas repito o que me foi transmitido, senhor.- Respondeu o mensageiro, enquanto Fredegund, que lhe despertava temor, parecia pensativa, mas calma.

Quando ficou a sós com o rei, em seus aposentos, expôs sua desconfiança:

- Acredito, meu senhor, que tenhamos algum espião ou espiã entre nós. Ou alguns.

- Por que acha isso?- Indagou Quilperic.

- Os argumentos de Sighebert são fracos e mesmo assim ele o acusa. Entre nossos servos, que sabem do ocorrido, deve haver um traidor.

- Chama de ocorrido? Foi verdadeiramente um crime. Sighebert está certo, sabe da verdade e isso me angustia. A guerra me deixa receoso, pois Deus poderá punir minha luxúria por meio dela.

- Como pode o senhor falar dessa maneira em lugar de pensar em como poderíamos identificar o traidor ou traidora, ou de já começar a organizar os soldados? A guerra é inevitável, senhor. E tenha em mente, ao invés de se encher de receios, de temer o castigo divino, que ela demonstrará seu valor e sua coragem, fortalecerá sua semente para que venham à luz grandes herdeiros! Seus feitos serão lembrados, pois a Fortuna sorri para os fortes, não para os que estão sob correntes.

- Em nenhum momento chegou a sentir compaixão por Golsund? Ou pela dor que Brunhilde deve estar sentindo? Afora que eu, Sighebert e sua esposa, uma mulher de rara coragem, lutamos diversas batalhas lado a lado. Juntos, derrotamos os saxões e os burgúndios em mais de uma oportunidade.

- Apiede-se de quem quiser, mas não censure a minha audácia.

- Tanta audácia, tanto furor, não deveriam caber a uma mulher.

- Cabem à mulher que o elevará, e a toda a sua estirpe, a alturas nunca antes vistas.

- Às vezes você me assusta.- Quilperic se afastou, sentando-se na cama.

- Não tema àquela que sempre o defenderá, pois carregará em seu ventre sua ilustre descendência. O senhor elogiou sua antiga cunhada, disse que ela é brava, e eu sei dos feitos dela no campo de batalha. Espanta-me então que se assuste com sua atual esposa, que é igualmente corajosa, embora não empunhe espada. Tema a mulher que empunhará espada contra o senhor, que inclusive envenenará a lâmina.- Sentou-se próxima do marido e pôs-se a massagear seus ombros.- Posso não ser capaz de lutar a seu lado no campo de batalha, mas posso ser sua sombra e seu solo.

- Talvez você tenha razão. E por isso eu a ame: por ser uma mulher como nenhuma outra, capaz de desejar, com o coração ardente, o que costuma causar a outras calafrios de pavor.- Tocou uma das mãos de Fredegund, que então parou de massagear.

- Acredito que Brunhilde também seja uma mulher distinta. Mas agora ela é sua inimiga. Nossa inimiga portanto.

- Lamento isso, mas é a verdade.

Fredegund sentiu que fora mais uma batalha da qual saíra vitoriosa.



*



Quilperic averiguou que entre seus soldados havia um desertor: Froila.

- Alguém pode simplesmente ter oferecido um melhor pagamento, assim são os mercenários. Mas também é possível que seja ele o traidor.- Expôs a Fredegund, que replicou:

- Certamente não sozinho. Nenhum dos mercenários teria como saber que Golsund morreu por suas mãos. E a palavra de um mercenário qualquer vale pouco ou nada.

- Ele deve estar mancomunado com um de nossos criados.

- Ou ser amante de uma das criadas, o que considero ainda mais provável.

- Nesse caso, o problema seria saber qual delas.

- Talvez não seja tão difícil. Interrogue os outros mercenários e tente descobrir se esse tal Froila tinha alguma amante.

- Essa gente dificilmente fala sem que lhe seja entregue algo.

- Se exigirem algo ou derem a entender isso, não ceda, a informação pode até ser falsa. Evite os oportunistas, senhor. De todo modo, mesmo que seja importante descobrir a traidora ou traidor, podemos vencer a guerra sem chegar a ela ou ele, à amante ou amigo, bastando cautela e audácia. Cautela no castelo; audácia em combate.

E enquanto seu senhor e sua senhora discutiam, Runda sabia que sua situação era bastante perigosa; mas não se via fugindo: tinha de orar pela vitória de Brunhilde e Sighebert, pois não era um soldado como Froila, que sozinho podia se defender pelo mundo; era uma mulher simples, que só sabia servir, que se escapasse seria logo pega pelos homens de Quilperic. E não fugira com Froila porque, cautelosa, estava ciente da possibilidade, não desejada, de vitória da Nêustria, demorada e brutal a sentença de morte para criados e criadas traidores: após os cabelos arrancados e a água fervida sobre a cabeça, sessões de tortura que culminavam em uma humilhante decapitação pública.

Afora que, apesar de seu envolvimento com Froila, sabia que ele era um mercenário e que não se tratava de um homem de elevada sensibilidade; quiçá enjoasse dela ou se interessasse mais por outra. Então quem a defenderia? Abandonada, seria a mais fácil das presas.

- Talvez você não possa sempre me proteger.- Dissera a Froila, que, realista e convencido da instabilidade do futuro, não a contestara.



*



Quilperic não chegou a interrogar os mercenários e também seus soldados e cavaleiros sobre Froila, pois antes que iniciasse foi avisado sobre um ataque das forças da Austrásia a um vilarejo próximo.

Quando chegou ao local, encontrou as casas em pedaços, algumas apenas o que restara dos incêndios provocados pelos homens de Sighebert.

- Eu não esperava que ele fosse agir tão rapidamente e de forma tão baixa, aterrorizando aldeões.

Mas poucas mortes haviam ocorrido. Apenas dos que tinham tentado resistir, basicamente os integrantes da pequena guarnição de Quilperic. O grosso da população só fora expulso de suas residências, algumas crianças sendo levadas junto com pertences e mantimentos.

O mesmo se repetiu, nos dias seguintes, em outras aldeias. E todas as vezes que as forças do rei de Nêustria chegavam, era tarde demais.

Quando Quilperic voltou a Suesson e expôs o que vinha ocorrendo à sua esposa, Fredegund desvendou os planos de Sighebert:

- Ele não é um tolo. Não deseja semear a barbárie, e sim a insatisfação com o senhor. Não iniciou a guerra para derramar qualquer sangue, mas seu sangue. Nosso sangue. Sabe que o povo ficará descontente e assustado. Temendo por seus filhos. E o senhor terá de gastar recursos do reino para que não fiquemos com uma multidão de desabrigados, famintos e indignados.

- Tenho de admitir que é uma estratégia engenhosa. Diante disso, só me resta uma escolha: preciso também passar à ofensiva.- Replicou Quilperic.- Não posso ficar aqui perseguindo Sighebert enquanto ele dizima meu reino. Se eu também o atacar, ele terá de voltar para se defender.

- Talvez as forças que estejam causando essa destruição em nossas terras sejam menores do que imaginamos, movendo-se com agilidade. O que dizem os aldeões?

- A maioria que se trata de um enorme exército. Inclusive os membros sobreviventes das guarnições.

- Não creia nisso tão facilmente. Os soldados derrotados podem estar tentando justificar sua derrota. E os aldeões muitas vezes são exagerados. O medo tende a fazer parecer o inimigo maior do que realmente é.

- Acredita então que nem Sighebert e nem Brunhild estejam pessoalmente liderando essas tropas?

- Tenho quase certeza disso, senhor.

Quilperic ficou pensativo. Mas não podia simplesmente ficar como um caçador que persegue uma fera, que enquanto escapa deixa desgraças e corpos como rastros. Decidiu marchar para a Austrásia.

Fredegund não estava equivocada: Sighebert e Brunhild não haviam saído de Divoduro. Tinham enviado apenas pequenos grupos de forças a cavalo e infantaria, que antes de atacar observavam as aldeias e logo procuravam agir com rapidez e eficiência, avançando de forma maciça e assim dando uma impressão de maior número.

No caminho para o reino inimigo, Quilperic percorreu o seu encontrando a terra arrasada. Começou a sentir ódio de Sighebert:

- Como gostaria de acorrentar esse malfeitor às mais altas rochas escarpadas, envolvendo seu corpo com indestrutíveis cadeias de aço!- Comentou com um de seus cavaleiros; mas estava bem ciente que não seria nada fácil capturá-lo.

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