sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Espectros do amanhã (2)



VI

Clara estava indo se encontrar com Ísis. Era sábado e a campanha estava terminada. Ao menos naquele final de semana, não iria querer saber de moda. Queria sossego, conversar sobre assuntos amenos, saber sobre os novos seriados, a respeito dos quais sua amiga estava sempre antenada, e quem sabe terminariam até numa festa do pijama.
Desceu a escada rolante. As pessoas em volta pareciam apressadas como sempre. Afinal era São Paulo. Mas ao chegar diante dos trilhos e parar, o trem veio vindo com uma estranha lentidão. Demorou a perceber que não era um problema da máquina. Tudo ao seu redor havia ficado lento. As vozes arrastadas, assim como o som do trem. Este não parecia disposto a parar. Mas sua lentidão era extrema. Um mundo em câmera lenta, até que houve uma súbita aceleração: nessa hora, ao contrário, após um guincho violento, o trem pareceu se transformar em pura luz. Ofuscante.
Clara sentiu uma fortíssima pontada na cabeça. Temeu que fosse desmaiar. Desviou seus olhos do trem. Fechou-os. Ao reabri-los, a claridade excessiva parecia ter se dissipado. Porém o mundo ao seu redor dava a impressão de não ser mais o mesmo. Era como se fosse e não fosse o metrô de São Paulo: muitas pichações e sujeira.
Veio a tontura e teria desmaiado não fosse pelos braços de um rapaz.
- Está tudo bem com você?- Ouviu a pergunta dele antes de ver seu rosto.
Quando ergueu a cabeça, e os dois se olharam nos olhos, pareceram estranhamente familiares um ao outro. Por quê?
- Filipe!- De repente ela se lembrou; recordou-se do irmão em seus sonhos: era ele!
- A gente se conhece?- O rapaz, enrubescendo diante da bela moça que tinha em seus braços, tardou a responder. E com uma pergunta.
- Não acredito...Eu só posso estar ficando louca!- Cogitou estar nos braços de algum desconhecido que tivesse a aparência do falecido irmão. Mas depois pensou melhor: tinha, além de seu rosto, sua voz e seu cheiro; seu cérebro seria capaz de produzir uma alucinação tão perfeita fora de um sonho?
- Calma, moça...- Filipe estava um tanto assustado, até que finalmente a reconheceu: a jovem dos seus sonhos; do jogo de tênis e do atropelamento.
Curvou-se. Tentou segurá-la. Mas por mais esforço que fizesse, foi impossível. Tudo rodopiou. As formas se desfizeram. Caiu de joelhos. Sua cabeça ardia. Quando voltou a enxergar algo definível, ela desaparecera e uma pequena multidão de curiosos formara-se em seu entorno:
- Está tudo bem, rapaz?- Inquiriu um homem de meia-idade.
- Não sei. Acho que sim. Apesar de não saber o que aconteceu comigo.
- Vi você esperando o trem. De repente se agachou e quase caiu. Você se sentiu mal?- Indagou uma senhora.
- A moça que estava aqui, que foi parar nos meus braços...
- Moça? Nos seus braços? Não tinha nenhuma garota perto de você.
- Ele é um noia!- De repente bradou um rapaz de gorro.- Vocês ainda não se tocaram? Está viajando porque deve ter se drogado muito!
- Não, eu nunca usei droga nenhuma da minha vida!- Filipe tentou se explicar, enquanto se levantava, diante de olhares que iam se tornando hostis.- Juro que vi uma moça passar mal e acudi ela, foi antes de eu sentir alguma coisa esquisita!
- Perdão, meu rapaz.- Voltou a falar o homem de meia-idade.- Mas você não acudiu ninguém.
Filipe ficou perplexo. Ao passo que Clara perdera os sentidos. Só iria despertar no hospital, com uma enfermeira a seu lado.
- Mas onde é que eu vim parar?- Perguntou. Estava com enxaqueca.
- A senhorita passou mal no metrô. Aglomerações às vezes podem produzir efeitos desagradáveis em pessoas sensíveis.- Respondeu a enfermeira.- Menos mal que alguém ligou para o serviço de emergência e a senhorita pôde ser acudida.
- Quem foi que ligou? Um rapaz?
- Não. Era uma voz de mulher.
- Então não foi ele...- E Clara se perguntou se o que vira fora real. Contudo, fora muito mais do que um simples sonho nítido. Não estivera dormindo. Desmaiara durante a experiência, não antes dela.
De todo modo, antes de buscar respostas para suas indagações, tinha que ligar para Ísis e dizer onde estava. Justificar-se por não ter ido à sua casa. Pediu pelo celular, que estava na bolsa. Quando olhou, o número da amiga estava lá. Tinha ligado quatro vezes. Eram nove da noite.
- Mas o que aconteceu?! Fiquei preocupada! Você nunca foi de dar bolo!- Foram as primeiras palavras de Ísis ao atender. Quando ouviu de Clara que a amiga estava no hospital, não quis escutar muito mais. Insistiu pelo endereço e foi correndo até lá.
- Parece que não foi nada grave.- Disse Clara à amiga depois que ela chegou.- Fizeram alguns exames e por enquanto não deu nada. Acho que amanhã recebo alta.
- Então deve ter sido só estresse, alguma besteira. Você precisa de umas férias agora!
- Não sei se foi só estresse.
- Xiii...Dessa cara sua eu não gosto.
- Eu não sei se devia contar pra você. Mas vou contar. Afinal você é minha melhor amiga.
- Estava querendo me esconder alguma coisa?
- É porque acho que você não vai acreditar.- Então narrou o que ocorrera no metrô. Toda a experiência com Filipe. Além da conversa com Noele, dos Irmãos de Saklas, Após escutar, silenciosa e respeitosamente, Ísis mexeu nos óculos, como sempre fazia antes de dizer algo importante, e perguntou o seguinte:
- Você não está levando a sério essa história dos tais Irmãos, né?
- Eu não sei de mais nada. E se o nosso mundo for mesmo uma simulação, com o Filipe vivo no mundo real? E se por um instante eu consegui cruzar a barreira que separa os dois mundos?! Apesar que ele não parecia ter a aparência de um escravo...Mas quantas aparências diferentes pode ter um escravo? Depende do que ele é obrigado a fazer.
- Chega, Clara! Pára de dizer essas coisas. Isso tudo é paranoia e fanatismo religioso!
- Está me chamando de paranoica?
- Não é isso! É que você anda muito cansada, sozinha, triste. Uma vítima fácil pra que essa gente introduza minhocas na sua cabeça! Uma coisa que não duvido é que eles consigam injetar crenças ou até visões nas pessoas suscetíveis através de mensagens subliminares! Você tem que tomar muito cuidado!
- Você acredita em mensagens subliminares de seitas espalhadas por aí e não acredita que possa existir um outro mundo? Houve uma época em que a ciência admitia a existência de universos paralelos! Por que isso nunca mais foi estudado? Aposto que por causa do Hades!
- Se você usasse o Hades, não se sentiria tão sozinha e vazia.
- A pessoa que eu quero ao meu lado não está lá! Aliás: ninguém está lá.
- Ah, acho que não dá pra conversar com você agora. Vou ficar aqui sem falar nada, só te fazendo companhia.
- Você precisa abrir os olhos pra realidade, Ísis.
- A realidade é o seu irmão vivo em um mundo paralelo, satisfazendo o seu desejo de estar com ele? É a mesma coisa que acreditar no Purgatório ou no diabo esperando a gente no Inferno.
- Eu não disse que a realidade é o meu irmão vivo em outro mundo. Mas gostaria que você pelo menos pensasse na possibilidade. Ou vai querer me internar como louca?
- Nunca faria isso. Só fico preocupada com você.
Clara estava irritada. Nem tentou disfarçar a irritação pelo resto da noite. Não conversaram mais, até que a modelo adormeceu.
Ísis se perguntou se não acreditava em mundos paralelos porque simplesmente não queria que existissem. Outra Ísis? Era individualista. Ao contrário de Clara, sentia-se bem sem irmãos ou irmãs. Quanto mais pensar na possibilidade de alguém que fosse mais do que um clone ou uma gêmea. Isso a deixava arrepiada.

VII

Passaram-se alguns dias após a estranha experiência no metrô. Clara não comentou mais nada a respeito com Ísis. Porém seu coração seguia inquieto. Se não fora apenas uma alucinação, se existia de fato um mundo em que Filipe continuava vivo, queria descobrir um meio para entrar em contato com ele. Seria possível? Ou passar de um universo ao outro seria um evento curto e casual, sem que fosse possível repeti-lo ou reproduzi-lo?
Mesmo que a versão dos Irmãos de Saklas fosse fantasia ou exagero religioso, isso não queria dizer que estava abolida a possibilidade de existirem outros mundos. Quiçá o problema residisse nas interpretações deles de experiências como a que ela tivera!
E se os procurasse e relatasse o que ocorrera? Talvez fosse melhor não dizer nada. Mas e se, entre os Irmãos de Saklas, conseguisse chegar ao mundo onde Filipe respirava, caminhava e falava? Não podia ser mera obsessão. Ao reviver em sua mente o toque do irmão, sua voz, seu cheiro, era tudo muito mais intenso do que nos sonhos. E, por alguns momentos, sentiu como se ele nunca tivesse morrido, como se tivesse crescido ao seu lado. Então se perguntou: se Filipe estava vivo nesse outro universo, também haveria uma outra versão sua? Primeiro pensou que não, ou ele a teria reconhecido. Mas depois que refletiu que a outra Clara podia ser muito diferente. Uma possibilidade menor, mas cogitável, que a entristeceu: tendo já uma irmã, ele nunca a reconheceria como tal? Desejou, o que lhe pareceu horrível, sua própria morte no outro mundo. Se esse outro mundo existisse mesmo...
Desde aquele acontecimento, não sonhara mais com Filipe. Era como se o subconsciente já tivesse detectado que os sonhos não seriam mais suficientes. Foi então que lhe veio um pensamento que, a princípio, lhe soou dos mais estranhos: por que não buscar no Hades uma resposta?
Iria tentar algo que ninguém, pelo que já ouvira, fora capaz de fazer: ficar sozinha também no Hades. Suportar uma segunda solidão. Em silêncio.
Sabia que, quando alguém entrava no Hades, automaticamente o programa dava a opção dos encontros e conversas com todos os amigos e parentes registrados. Podia chamar um ou todos os falecidos de uma única vez. Ou melhor, suas representações, seu hologramas. Mas não iria chamar ninguém; não iria clamar por nada.
Talvez, por trás de toda a tolice, houvesse um segredo maior. Ao observar o vazio real e inerente, uma outra energia poderia se mover. De sua imobilidade, de sua concentração, adquiriria forças para retirar o véu. E por trás dele, sobre o abismo, o virtual deixaria de ser virtual e conduziria a um outro real.
Loucura? Especulação? Iria tentar. Buscaria se aquietar. Só em último caso cederia ao apelo dos Irmãos de Saklas. Antes solitária do que sectária.

VIII

- Cara, que doideira.- Foi o comentário de Vinícius depois que Filipe contou sobre sua experiência no metrô, numa tarde de domingo.
- Eu tinha que falar com alguém. Aquela garota não sai mais da minha cabeça. Apesar de não ter mais sonhado com ela.
- Você falou com a pessoa certa. Brincadeiras à parte, seu problema não é questão de psiquiatra, acho eu, e nem de falta de namorada. Tem alguma coisa acontecendo de estranho e diferente.
- O que você acha que pode ter sido?
- Talvez uma pessoa que morreu e não notou. A sua sensibilidade está se abrindo e você, sem perceber, começou a interagir com espíritos.
- Ela era bem palpável. Não parecia um fantasma.
- Pras pessoas com sensibilidade espiritual, um espírito parece uma pessoa real. Quer dizer, morta ou viva, ela é real. Quis dizer material.
- Eu não sei. Queria ter uma explicação.
- Tenta meditar, relaxar um pouco.
- Nesses dias eu até tentei. Mas não dá pra me tranquilizar. O assunto volta na minha cabeça e fica martelando. Acho que a angústia maior é a possibilidade de no futuro morrer sem uma resposta pro que aconteceu.
- A humanidade sempre conviveu mais com perguntas do que com respostas.
- Será por isso que é tão difícil ser humano?
Não esperava que, na volta para casa, ao atravessar a rua, sua distração entre pensamentos avulsos fosse fatal. Veio um carro em alta velocidade, talvez conduzido por um motorista embriagado, e Filipe foi atingido em cheio.

IX

Clara acessou o Hades. Sem criar ao redor nenhum cenário. Nenhuma réplica do presente ou do passado, que o programa poderia reproduzir ao ler seu cérebro. E, como planejado, não chamou por ninguém. Ignorou a insistência de vozes que a chamavam, incitando-a a tomar decisões.
Na imobilidade, sentada no vazio, uma estranha nuvem começou a tomar forma. Despontou, confusamente a princípio, depois com nitidez, um homem alto, engravatado, que nunca vira em sua vida.
- Está indo longe, não é, garota?- Questionou-a.
- Quem é você?
- Sou Irmin Saklas, o criador deste programa.
- O criador? Bem que eu imaginei que alguma coisa fosse acontecer.- Clara não se intimidou, enquanto ficava de pé.- Mas isso me soa falso. Esse sobrenome...
- Tem razão. Os Irmãos de Saklas, não é? Eles também são criação minha.
- Como assim?- Desta vez, a jovem franziu o cenho.- Os Irmãos de Saklas têm ojeriza ao Hades!
- Não sou favorável a sistemas totalitários. Criei os Irmãos de Saklas como uma voz de discordância. Ainda que muito pequena, quase insignificante.
- Como pode dizer que é contrário a sistemas totalitários se a voz discordante do seu sistema é também criação sua?
- Porque apesar do meu empurrão inicial, eles adquiriram vida própria. Sua filosofia cresceu. Apesar de seus membros continuarem sendo poucos.- De repente, uma dor de cabeça e um enjoo fortes atacaram Clara.- Você não parece bem...Se lembra dessas sensações ruins, não se lembra?
- O que você faz, afinal?!- Perguntou enquanto tentava resistir ao mal-estar.
- Com os irmãos de Saklas, utilizo nanomáquinas. Elas entram em seus cérebros e induzem falsas experiências. Não se preocupe, pois não há um outro mundo em que bebês retirados deste são escravos. Mas existem sim outros mundos. Outros universos.
- Isso eu queria ouvir. Espero que não seja uma alucinação ou loucura completa. Você não está usando nanomáquinas em mim também?
- Não foi necessário. Quando você entrou no programa, obtive todas as informações necessárias a seu respeito. Inclusive que é uma opositora natural do Hades.
- Como soube que eu entrei?
- Fui avisado pelo sistema.
- Mas por que estou me sentindo mal?
- Porque você é uma resistência ao sistema não gerada por mim. A pulga que está onde não deveria estar. O sistema está querendo expulsá-la.
- Mas eu já senti isso fora daqui!
- Eu sei. Não prestou atenção no que eu perguntei antes? O Hades já está se espalhando, neste mundo, para além do virtual. Logo programa e matéria, sutil e grosseiro, ideias e coisas, serão uma coisa só. O sistema será perfeito. Talvez, então, na verdade não existirá mais matéria. E a morte finalmente será completamente derrotada. Os vivos, transplantados para a lógica do programa, serão códigos eternos. Tudo perfeitamente harmônico. O sonho dos alquimistas concretizado.
- O que você vai fazer comigo, agora que sei de tudo? Me matar?
- Claro que não. Não sou um assassino. Acabei de dizer que vou sepultar a morte!
- Mas você é totalitário, brinca com as vidas e as consciências das pessoas. Vai me deixar com amnésia?
- No futuro, vou criar outros pequenos grupos de discordância. Posso criar até terroristas e uma seita suicida. Perturbações controladas, pertencentes à ordem. Previstas. Previsíveis. Mas com você farei algo diferente: sou muito melhor do que imagina.
- Você já deve saber sobre o meu irmão...
- Sim. Vou enviá-la até ele. O contato que você teve com outro universo foi devido à sua incompatibilidade com o sistema. Ele está querendo se livrar de você, que não tem mais lugar neste mundo. Mas não pode te matar. Isso iria contra a programação do Hades. Mas o vírus precisa ser extirpado e não basta uma quarentena.
- Como conseguiu essa tecnologia?
- Esse é o meu segredo. O nosso segredo.- Então a voz unitária se tornou múltipla. Clara estranhou.- Surpresa? Na verdade, eu sou muitos. Muitos são eu.
- Irmin Saklas...Eu nunca tinha ouvido falar desse nome.
- É um código como outros. Porque sou muitos executivos e programadores espalhados ao redor do mundo. E esses executivos e programadores são eu.
- Afinal você é uma pessoa que finge ser muitas ou muitas pessoas querendo se passar por uma pra mim?
- Você não é tão importante, embora seja incômoda. Pense o que preferir. Mas o que posso lhe dizer é que uma só mente não seria capaz de criar e expandir o Hades. Ao mesmo tempo que muitas mentes não seriam capazes de estabilizar o Hades sem gerar desordem.
- Não me diga que está querendo absorver em si vivos e mortos, o conhecimento de todos...Talvez uma pequena equipe que depois se fundiu em um único cérebro! Um super-cérebro. Cada vez mais sedento de inteligência...
- Você é esperta. Mas, antes que me pergunte, não quero ser Deus. Não num sentido pessoal. Quero ser Brahman e Atman. Brahman é Irmin Saklas. Atman são as pessoas. Todos em mim. Eu em todos.
- Não entendo muito de filosofia hindu, apesar de já ter ouvido esses termos. Mas o que dá pra eu dizer é que a pregação dos Irmãos de Saklas tem sim um fundo de verdade. Você, ou vocês, seja lá o que for, está transformando o mundo inteiro numa simulação.
- Não exatamente. Os universos, pelo menos os que conheço, estão embasados em programas, em determinados códigos específicos. Desvendei o código deste em que estamos. Feito isso, interferi nele. Mas os países ainda existem, São Paulo também, e vão continuar existindo. Com a diferença que nada mais vai perecer. Um universo sem tempo, e portanto sem caos. O tempo provoca a entropia. Com o fim do tempo, nada precisará degenerar. Vamos poder viajar pelo espaço com o pensamento, apenas. Não mais espaço-tempo. E sim espaço-pensamento. Nada de buracos negros.
- E nada de liberdade.
- Pense: sem precisar de combustíveis e tecnologias inimagináveis de naves, o homem vai poder dominar e conhecer um universo inteiro. A maior tecnologia está na informação. Na resolução dos enigmas cósmicos. Numa atividade que podemos realizar sentados. Somos realmente magníficos! Não existimos à imagem e semelhança do Criador porque não existe um criador, mas o universo inteiro será moldado à nossa imagem e semelhança.
- À sua imagem e semelhança.
- Não tente me corrigir e me criticar. Você terá a realização do seu egoísmo. Graças a mim. Graças a nós.
- Se só desvendou o código do universo em que estamos, como pode me mandar para outro?
- O sistema vai abrir um portal. Para isso, não é necessário desvendar o código do outro universo. Basta saber que ele existe. É uma mera transferência! Não preciso saber sobre os móveis da casa do vizinho para arrombar a porta dele.
- Eu já nem sei se faz sentido pensar no Filipe agora! A minha amiga Ísis vive neste mundo. Não posso permitir que manipule as vidas de todos.
- No mundo real não há heroínas. E, se Deus existisse, ele seria o maior dos manipuladores.
- Se não há Deus, por que há tantos universos? Por que não apenas uma aglomerado caótico?
- Não se deu conta ainda, depois de tudo o que expliquei, que eu que vim trazer a ordem, eliminando o caos? Não há meramente caos nos universos. Mas ele predomina. A inteligência é um acaso.
- Se há mais caos do que inteligência e a inteligência é alguma espécie de acidente, como pode desvendar o código de um universo, com todas as suas leis?
- O caos também abriga em si um código. No caso, uma sequência aleatória, por acaso interrompida por ruídos lógicos. Estes são os focos de inteligência. O meu trabalho é tornar a sequência precisa. Primeiro fazendo predominar a inteligência; até o ponto em que só haverá inteligência. E então ordem. Quando isso ocorre, a morte é impossível por ser a desordem codificada nos corpos. Uma inteligência perfeita jamais degenera.
- Mas quando o virtual e o real se fundirem, os mortos do Hades vão passar a participar do mundo dos vivos, do mundo real?
- Eles já são entes perfeitos, que não degeneram. Por que deveriam ficar apartados? Como disse, não haverá mais diferença entre sutil e grosseiro. As pessoas ficarão felizes com o retorno efetivo de seus entes queridos!
- Não, isso será falso. Tudo isso é doentio!
- Seja como for, é real.
- Você é virtual.
- Não. Sou real. Apesar que tudo é uma questão de momento e de uma série de informações.
- De repente, tudo o que você me disse não faz mais o menor sentido. Acho que está tentando é me enganar e me enlouquecer.
- Você pode pensar que o seu irmão é só um sonho, que o que está vivendo aqui é um sonho, um delírio, uma alucinação. Você pode estar na cama de um hospital sob efeito de drogas. Mas tudo pode ser real também. Como pode não ser. Pense o que preferir. A escolha é sua. Você é livre.
Ao contrário de todas as pessoas que vivem neste mundo, se o que ele diz é a verdade...”, refletiu Clara, a seguir questionando:
- Não tem interesse em tomar todos os universos?
- Não, não sou um megalomaníaco, embora esteja me julgando assim. Um bom lar, sem sofrimento, ordenado, para mim é o suficiente. Você terá liberdade para ser infeliz com o seu irmão. Eu ficarei aqui, não interferirei com o seu novo mundo. Apesar que, se eu fosse você, lamentaria por isso.
Clara já não sentia mais nenhuma náusea. E, com o sorriso de Irmin Saklas se extinguindo junto com sua aparição, ela retornou ao mundo concreto. Parecia ter faltado energia. Estava tudo escuro. Não só seu capacete como o computador desligara.
Na escuridão, ao retirar o capacete e levantar a cabeça, que veio a luz.

X

Quando Clara voltou a si, estava sob um forte sol de domingo. Esforçou-se para confrontar a ofuscância, pois precisava ver com clareza o que havia à frente. Pelas vozes e pela sirene e buzinas, o tumulto de um acidente. Estavam todos de costas quando se aproximou, saindo do que lhe pareceu um beco. Um médico dizia:
- Ele está morto. Não há o que fazer.
Até então, nenhum reflexo para a moça. Que no entanto, ao se desvencilhar de alguns ombros e olhar para o cadáver, atraída para a catástrofe, reconheceu o rosto do irmão.
- Não...- Levou as mãos à boca, atraindo os olhares dos que estavam perto, e foi se aproximando do médico e do rapaz caído. A ambulância estava parada.- Não!- De repente gritou e começou a chorar.
- Calma! Por acaso você é parente dele? Esposa? Namorada?- Aproximou-se uma enfermeira.
- É meu irmão!
- Ah, eu sinto muito.
- Não! Você não sente! Você não sabe!- Empurrou a enfermeira e se ajoelhou diante do corpo de Filipe. Começou a fazer uma massagem cardíaca e uma respiração boca a boca.- Acorda! Acorda, Filipe!
- Moça, sabemos que é muito triste.- O médico também se abaixou e apoiou uma mão em seu ombro.- Mas ele está morto.
- Ele me enganou...O desgraçado me enganou!
A partir daquele ponto, Clara não sabia mais o que ver, ouvir ou pensar. Viu a si mesma no leito de um hospital, pairando sobre seu próprio corpo, em coma, dada como sem esperanças pelo mesmo médico do acidente de Filipe:
- Infelizmente, o câncer tomou todo o cérebro dela.
Irmin Saklas talvez não a tivesse transferido para outro universo. E sim criado um falso universo, uma simulação como o Hades, onde a aprisionara. Seu verdadeiro eu estaria em uma cama hospitalar, punido por ter desafiado o programa. Talvez Saklas não fosse o criador de nada: somente um dispositivo de segurança do programa.
Ou então realmente fora transferida e só não estava querendo admitir a verdade: e que Irmin Saklas soubesse que Filipe iria morrer; por isso a enviara, para lhe causar uma dor maior do que a própria morte, um sofrimento inconteste.
Percebeu-se depois numa maca. Estava em um hospital e falavam ao seu redor. Mas só entendeu uma frase do que diziam:
- Ela desmaiou!
Porém não se lembrava de ter perdido a consciência. Apenas se dissolvera. E as paredes e vozes ao seu redor também se dissolviam.
Questionou-se se toda sua experiência com Filipe, desde o início, não fora efeito da propagação do sistema; se não existia um outro universo, apenas o Hades se apoderando da consciência alheia, seja por meio dos mortos, seja invadindo as mentes dos vivos que ainda se acreditavam à parte dele.
Filipe fora tão real...
Mas talvez toda sua vida não passasse de um sonho. E se fosse uma doente terminal, dona de uma mente criativa, tendo alucinações com sonhos e memórias falsas, tendo se esquecido de sua personalidade e de seu passado?
Tudo perdia o sentido. Tudo era absurdo.
Lembrou-se de Saklas discorrendo sobre a ausência de um Criador para o universo. Sobre a ausência de Deus. E sua terrível onipresença que começava a se espalhar.
A maca parou. E na mesa ao lado havia um bisturi. Clara não teve mais dúvidas.
Para solucionar seus questionamentos, só havia uma solução plausível, caso Saklas estivesse errado ou tivesse mentido: apressou seus dedos frios e, ao ouvir o grito de um dos espectros ao seu redor, disse não ser uma boneca oca e cortou a própria garganta.
Não queria desaparecer.
 

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