sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Espectros do amanhã (1)



I

De repente, as pessoas somem. Quando eu era adolescente, às vezes pensava que alguém não existe enquanto não o vejo. Talvez não estivesse tão errado assim. Pelo menos com relação à morte. Uma hora a pessoa está ali, conversando com você. De uma hora pra outra, não tem mais como ouvir a voz dela. Nem ela a sua. Existe uma barreira invisível e intransponível. Atrás da qual talvez não exista nada. Só um interminável abismo. Isso é muito frustrante. A ignorância é pura frustração.
Me lembro da minha avó. Viva. Fazendo arroz doce pra mim. Poucos dias depois, depois de uma briga imbecil com a empregada, ela vai pro hospital. E não volta mais. Não adiantou nada rezar. Tudo bem que ela tinha noventa e dois anos! Como diz um amigo meu, estava fazendo hora extra nesse mundo. Mas e se não existir outro mundo? Não ter certeza de nada, nem se existe, nem se não existe, pra mim é o pior. Às vezes prefiro acreditar que não existe. Vai que o Inferno é de verdade. Mas tem horas que penso que seria muito vazio e sem sentido se tudo acabasse do nada, no nada. O universo funcionando por conta própria, sem nenhum significado, sem direcionamento, não é uma coisa que me convence. Seria mais fácil simplesmente não existir nada.
Muito mais fácil!”, eram os pensamentos de Filipe Sadowa enquanto voltava para casa no ônibus. Eram seis da tarde. Costumava ler no caminho quando conseguia sentar. Mas naquele dia estava com dor de cabeça. E isso, somado ao calor e à lotação, só podia introduzir em sua mente os mais disparatados pensamentos. Cansara-se de observar quantas pessoas subiam, enquanto nenhuma descia. Melhor se dedicar a reflexões e frustrações.
Não gostava do próprio trabalho. A pequena livraria onde trabalhava era extremamente desorganizada. Chegavam livros às pencas, o triplo do que era vendido. Com a lentidão das devoluções e o pequeno número de funcionários, o acúmulo impedia estantes bondosamente ordenadas. Havia pilhas de livros nos cantos. Arrumara o estoque um ano antes, mas estava tudo revirado outra vez. Dez novos exemplares de uma obra que vendera apenas um exemplar. Quando um cliente requeria um livro, muitas vezes era um pesadelo conseguir encontrá-lo. Diziam que era vendedor, mas carregava e montava caixas, fazia limpeza e empurrava estantes. O pior? A falta de ar condicionado. Os ventiladores não davam conta.
Arrogante ou explorado? Talvez um pouco de cada coisa.
Um dia, sonhara ser escritor. Mas os seus originais haviam sido recusados. Noutro dia, relegou-os a uma gaveta, de onde não haviam mais saído. E provavelmente nunca mais sairiam de lá. “Porcarias!”, concluíra. Não acreditava mais nos que diziam que tinha talento. Era melhor se focar no que podia dar um retorno. Quando estivesse aposentado, quem sabe poderia retomar a escrita.
Mas será que vou estar vivo até lá? O governo só deixa um homem se aposentar quando ele está no fim da picada, acabado pra tudo mesmo...”, talvez estivesse exagerando; mas o pessimismo o contagiara sobretudo depois que começara a trabalhar na livraria. Era algo completamente diferente do que fora sua expectativa. Mas era sempre assim.
A realidade é sempre pior do que a gente pensa que pode ser. Se algo está ruim, a tendência é piorar.”, ao chegar em casa, abandonou-se à cama. Dormir era como morrer. Sonhar seria como o que há depois da morte? Ou só haveria o sono sem sonhos?
Às vezes, Filipe ficava apavorado. Era a perspectiva da realidade de ser um boneco oco.

II

- Evita fazer esse tipo de cara. Está muito canastrona! Ser sensual não é ser canastrona!- O fotógrafo reclamou da expressão do rosto de Clara Sadowa.
A verdade era que ela não estava nada inspirada. Acordara com cólicas e enxaqueca. Um dia daqueles. Mas tinha que trabalhar. Ainda mais porque precisava se destacar na campanha. Não estava garantida na próxima.
A hora do almoço proporcionou um certo alívio. Não porque estivesse com fome. Mas podia beber um suco e tentar espairecer a cabeça. Pena que as suas colegas não queriam deixar:
- Sabe o Luiz? Ontem ele me olhou de um jeito...- Estava farta de conversas sobre festas e rapazes.
Andressa notou-a um tanto apática. Clara não simpatizava com ela, pois a outra, embora fosse bonita, tinha um olhar de auto-desgaste. Parecia um tanto invejosa. Talvez pelos cinco centímetros a mais de Clara, que não invejava seus grandes olhos azuis.
- O que você tem hoje? Parece tão longe!- Observou a colega.
- Não estou me sentindo bem.- Clara preferiu não entrar em detalhes.
- Se é assim, por que veio trabalhar?- “Até parece que ela se importa comigo.”, refletiu Clara. “Mas ela quer é me ver no olho da rua.”
- Estamos no meio da campanha. Não ia deixar o Ricardo na mão.- Referia-se ao seu empresário.
- Acho bom você dar uma passadinha no médico.- Interveio Laura, outra modelo da agência.- Não custa.
- Não é nada pra médico. Não é nada de mais. Eu vou melhorar.
- Isso é TPM!- Exclamou Camila, uma terceira colega.- Quando chegar em casa, toma um chá, ou um remédio, e deita! Aí vai melhorar!
- Você anda deprimida?- Inquiriu Laura.
- Não. Nem um pouco.- Respondeu Clara.
- Pensei que pudesse ser algum sintoma físico de depressão, por você estar mal consigo mesma. Sei lá, eu não sou médica, mas você é a única aqui que, não sei por que, nunca entra no Hades.
- Eu não acho que faça sentido.- Eis um assunto que enervava Clara.
- Se você usasse, ia perceber como ajuda! E muito! Eu acesso até do celular, converso horas com o Paulo.- Seu ex-namorado.
- O Paulo faleceu há cinco anos...- Um detalhe muito importante, do tipo que os usuários do Hades pareciam sempre se esquecer.
Era mais do que uma rede social. Pouco depois de nascer, logo que o indivíduo era registrado, o Estado armazenava as informações contidas no cérebro da criança em uma realidade virtual.
À medida que a pessoa ia vivendo, a cada vez que usava a internet, as informações eram atualizadas em um arquivo que permanecia inativo. Os computadores agora estavam programados para colher e enviar à rede tudo sobre um indivíduo. Podiam entrar em contato com seu sistema nervoso e com seu cérebro tanto por meio do contato dos dedos com o teclado como através das ordens vocais e mentais que as máquinas mais avançadas estavam capacitadas para receber.
Quando o homem ou mulher morria, o governo dava a seus entes queridos a chave virtual para abrir seu arquivo. Dessa maneira, amigos e parentes podiam continuar a se relacionar com quem partira, como se a pessoa estivesse viva. Bastava ter à mão um telefone, que permitia conversas de voz e troca de mensagens, ou um computador. Por meio deste, com o emprego de um capacete especialmente programado, passava-se à realidade virtual. Lá, era possível ver e tocar, interagir das mais variadas maneiras, com os falecidos. Este era o Hades.
A propaganda do governo sustentava que se tratava de uma vitória sobre a morte. Que ninguém mais precisava sofrer pelo falecimento de uma pessoa amada.
Clara, que já perdera seus pais, estava entre a minoria que considerava o Hades uma completa artificialidade. Teoricamente, todos sabiam que o que estava não passava de um conjunto de informações, cuja derradeira atualização era a última vez que a pessoa utilizara a internet. Não era a pessoa. Mas poucos adotavam uma postura crítica.
Quando se tratava de crianças que morriam prematuramente, desde que previamente registradas, o sistema simulava seu crescimento e desenvolvimento. Isso parecia satisfazer os pais, que podiam inclusive testemunhar uma carreira brilhante para os filhos precocemente perdidos.
Havia cientistas que defendiam que qualquer ser humano não era distinto de um indivíduo no Hades. Todos seriam apenas informações. O corpo físico não passaria de uma máscara. Cientificamente, não fazia portanto diferença conversar com alguém vivo fora do Hades e com alguém morto dentro do programa, que proporcionava todas as sensações físicas e emocionais satisfatórias para o usuário.
Clara não se interessava pelo Hades também porque não podia lhe permitir um encontro com seu irmão. De seus pais, já se despedira. Mas se pudesse se encontrar com ele, se sentiria realmente tentada a usar o programa. Não era o caso, pois Filipe Sadowa morrera ao nascer. Sequer tivera tempo de ser registrado pelo Estado. Portanto, não existia no Hades.
Filipe morrera cerca de um ano antes de Clara nascer. Ela queria ter tido um irmão mais velho. E eventualmente sonhava com ele: os dois, como crianças, brincavam em um jardim; como adolescentes, dançavam juntos; como adultos, ele a acompanhava no trabalho e aplaudia seu sucesso. Eram sonhos muitos reais. Mas apenas sonhos, que relatava à sua melhor amiga, Ísis:
- Ontem mesmo, sonhei que estava jogando tênis com o Filipe. Nossa...E faz tanto tempo que eu não jogo tênis!
- Eu não sei se você vai ficar brava comigo. Mas acho que eu tenho que falar.- Estavam jantando juntas. Ísis era o oposto de Clara: baixinha, cheia de sardas e com absoluta aversão pelo mundo da moda. Mas se conheciam desde crianças e a amizade nunca esmorecera.
- O que é?
- Não é saudável essa sua obsessão por um irmão que nem nasceu. Se pelo menos você pudesse acessar ele no Hades, tudo bem. Mas nem isso!
- Não me fala do Hades. Você sabe que eu odeio esse programa.
- Hoje você passou mal o dia todo. Não acha que possa ter alguma coisa a ver?
- Não tem nada a ver.
- Eu fico preocupada. Não quero que você entre em uma depressão ferrada.
- Parece que todo mundo acha que estou ou que vou ficar deprimida!
- Mas talvez você esteja mesmo! Não sai, não paquera, é só trabalho e pensamentos nesse irmão que nunca existiu!
- Não fala assim. Porque o Filipe existiu. Ele chegou a nascer! E eu acredito que ele ainda exista, em algum lugar. Não no Hades, é claro! Não é porque a pessoa não foi registrada nesse maldito programa que ela simplesmente é apagada!
- A morte sempre apagou tudo.
- Mas você está querendo dizer que agora mudou, por causa do Hades? Eu te digo uma coisa: pra mim a morte nunca apagou nada. Tem que existir outra vida. Eu sei que existe. E não tem nada a ver com o Hades.
- Tudo bem então. Pode ficar com o seu irmãozinho natimorto.- Era difícil as duas discutirem, mas esta foi uma das ocasiões em que aconteceu.
Clara, quando estava com raiva, costumava bufar e sentia a tentação de pegar um cigarro. Mas parara de fumar desde o final da adolescência. Se começasse a fumar, dizia a si mesma que não poderia condenar mais ninguém pelo vício no Hades.
O que mais a repugnava era ela própria estar registrada no programa. De onde não poderia apagar suas informações, a não ser que pagasse uma multa tão pesada que a deixaria sem casa e sem comida.

III

No domingo, por telefone, Vinícius convidou Filipe para sair. O segundo cogitou recusar, mas ficou com dó do amigo. Acabaram por se encontrar. Como Vinícius era vegetariano, foram a um restaurante adequado. Notou sobre o amigo:
- Você está pálido, cara! E antes não tinha essas olheiras. Anda dormindo direito?
- Pra falar a verdade, eu tenho chegado e desabado.- Respondeu Filipe.- Não que eu goste disso. Queria me distrair um pouco, aproveitar a vida, mas não dá. O trabalho me esgota. E esse calor também atrapalha bastante.
- Você precisa dar um jeito, trabalhar demais também faz mal.
- O que eu posso fazer? Tenho que pagar as contas e esse foi o único trabalho que encontrei. Tenho medo de largar e ficar que nem ano passado. Eu queria trabalhar e só ouvia que queriam alguém com mais experiência. Porra! Como é que alguém vai ganhar experiência se não tem chances? Isso que tem muita gente com experiência que é péssimo profissional. Experiência em fazer bobagem, isso sim.
- Não tiro totalmente a sua razão. Mas não vá virar subserviente ao seu chefe por isso. Ele não pode abusar, tudo tem limite.
- O gerente nem é o maior culpado. Também é explorado. Minha vontade era dar um soco na cara do dono, isso sim. O problema é que se eu fizer isso ele me manda embora, vou ter que responder processo e ele coloca outro desesperado no lugar pra ser explorado do mesmo jeito. Parece um ciclo sem saída.
- Eu diria que é como o samsara. O conceito hindu de que ficamos presos no mundo, reencarnando, enquanto não evoluirmos espiritualmente.
- Eu queria muito ter tempo pra evoluir. Mas as contas não deixam.
- Pelo menos tem tido um sono tranquilo, caído que nem uma pedra mesmo?
- Como eu te disse, eu desabo. Mas às vezes tenho uns sonhos.
- Que tipo de sonho?
- A maioria sem muito sentido. Mas ontem tive um até agradável. Eu estava jogando tênis com uma garota bem bonita. Isso que eu nunca joguei tênis na vida!
- Sério? Acho que você anda precisando de uma namorada...
- E como vou conhecer uma?
- Saindo, rapaz.
- Na balada? Sem condições. Faz três anos que nem beijo e elas beijam dez por noite. Não rola.
- Você é seletivo demais. E vai ser mesmo difícil arrumar alguém com essa vida de monge tibetano.
- Queria ter um tempinho pra entoar alguns mantras...
- E a sua mãe, ela está bem?
- Daquele jeito, pressão alta, dores...Preciso visitar ela com mais frequência. Depois que o meu pai e a minha avó morreram, ela anda muito sozinha.
- Nem pra ver a sua mãe você tem saído? Vai virar uma barata humana desse jeito.
- Saio pra trabalhar.
- Barata também bate ponto. No esgoto.
- Pára de encher. Não estou aqui com você hoje?
- Mas eu senti pelo telefone que você não estava lá muito a fim. Precisei meio que empurrar.
- Você fez bem em insistir. E está sendo legal. Porque no fundo, e nem tão no fundo assim até, sei que você tem razão. Se eu não saio, não vejo ninguém fora do trabalho, a vida acaba perdendo o sentido. Pra que trabalhar e pagar as contas se o Estado não te devolve nada? Melhor virar um eremita na selva. Às vezes penso assim. Mas também não me sinto preparado pra uma renúncia completa. A coragem não é o problema. É a falta de fé. Às vezes acredito num sentido maior, às vezes perco a crença e a esperança. Mas paro pra pensar o seguinte: será que o ser humano foi criado pra acordar às seis da manhã, ficar oito horas ou mais numa merda de serviço que odeia e depois voltar pra casa sem ter energia pra nada, completamente sugado?
- Claro que não. A sociedade criada pelo ser humano que força essa rotina.
- Pois é! E a gente fica preso nela. É realmente um samsara. E se tudo só existe por um acaso cósmico, se o Big Bang foi só um peidaço, sem nenhum propósito, menos ainda a gente devia se curvar a isso. O certo seria aproveitar a vida ao máximo! Se não existe significado, por que perder tempo com o que não dá nenhuma satisfação?
- É o pensamento coletivo que a gente não pode ficar de fora da sociedade, que exige que por uma gota de prazer e felicidade a gente precisa ingerir uma garrafa de óleo de rícino.
- Não existe totalitarismo maior do que o totalitarismo sutil, que se entranha dentro da gente. A ditadura da infelicidade. Que joga a teia dos desejos e prende a gente nela. Com os desejos, é claro, do lado de fora. É fácil condenar Hitler, Mao ou Stalin. Difícil é ter o coração livre, a mente sem amarras, as mãos desacorrentadas.
- Por que não volta a escrever?
- Eu não tenho talento.
- Tem que acreditar em si mesmo!
- Quando eu acreditei, o que isso trouxe de bom pra mim? Só frustração. Era a teia dos desejos. Não vou deixar que ela me pegue de novo.
- Não pode ficar assim desmotivado.
- Acho que só vou voltar a me motivar em relação a alguma coisa se um sentido maior se escancarar pra mim. Pequenas sincronicidades, coincidências, sugestões...Isso não adianta. Quero é escancarar a porta do Céu.
- E se só der pra fazer isso depois de morrer?
- Até lá já vai ser tarde demais pra mim. Eu gostaria das certezas agora. Não sei se estou sendo mimado.
- Só um pouco.- Vinícius esboçou um sorriso.
- Se não existe nenhuma grande verdade, até que tudo parece mais fácil. Mas só parece. Cheguei a essa conclusão. Porque uma realidade frustrante, sem nenhuma perspectiva maior, é uma coisa difícil de encarar.
Vinícius queria ter pena de Filipe. Mas não podia. Tanto por respeito a ele como porque muitos dos questionamentos dele também eram os seus. A diferença residia talvez na maior intensidade do amigo.
À noite, Filipe baixou alguns filmes da internet. Mas dormiu antes de terminar o primeiro.

IV

Fora inevitável o surgimento de seitas religiosas relacionadas à questão do Hades, favoráveis ou contrárias. Clara estava lendo a respeito em uma revista de grande circulação.
Um dos grupos afirmava a ocorrência de uma transubstanciação no mundo virtual. Ao morrerem, Deus agora permitia que os espíritos se transferissem automaticamente para o Hades. Portanto, os que interagiam com amigos e parentes não eram hologramas, mas os verdadeiros espíritos dos falecidos. Deus e a tecnologia estavam em harmonia. O Senhor desejara, desde o início da humanidade, o progresso, que aproximaria as pessoas Dele.
Uma segunda seita era o extremo oposto. Embora concordasse que as almas registadas tivessem sido verdadeiramente transferidas para o Hades, considerava-o como um prolongamento do Inferno. A começar por sua denominação pagã. Segundo esses devotos, os espíritos aprisionados no Hades não poderiam ir para o Céu, vivendo em um estado de sonambulismo, até que Cristo viesse resgatá-los. No dia do Juízo Final. O próprio diabo inspirara a criação do Hades.
Clara não acreditava em nenhum dos pontos de vista. Mas simpatizava mais com o segundo. Desconfiava que o primeiro fosse até patrocinado pelos criadores do Hades. Se a segunda facção estava certa, dava graças a Deus por seu irmão não ter sido registrado e por ela não se sentir portanto tentada a acessar o programa, o que prolongaria o estado de suspensão dele. Que estivesse no Céu. No mais elevado dos planos espirituais. Vindo visitá-la em seus sonhos.
Na manhã seguinte, mais disposta do que nos últimos dias, estava a caminho do trabalho, um tanto apressada e distraída. Estava atrasada alguns minutos. Mas foi detida, no susto, por uma garota que surgiu à sua frente:
- Perdão, senhorita. Não tive a intenção de assustá-la.- Apesar da linguagem polida, parecia ser mais jovem do que Clara. Não devia ter mais do que dezoito anos, ruiva, de olhos claros; uma menina que se fosse mais alta poderia até ser sua colega na agência.
- Não foi nada...Mas me desculpe, é que estou com pressa.- Clara recolheu sua pasta, que tinha caído, e tomou um novo fôlego antes de responder.
- Eu entendo. Até porque já fui como você. Não encare isso como uma ofensa: costumamos ser vítimas do mundo de hoje, apressado, superficial, em que achamos que estamos livres para fazer de tudo! Mas na verdade não existe liberdade. O Hades é prova disso.
- O Hades?- Clara mexeu no cabelo. Já se dera conta que aquela moça era alguma espécie de missionária. Cogitara livrar-se dela o mais rapidamente possível. Mas a menção ao programa de simulação dos mortos fez com que se detivesse.
- Você costuma acessá-lo?
- Não. Nunca entrei.
- Faz muito bem! Que bom conhecer alguém como você! Eu sou integrante da Ordem dos Irmãos de Saklas.- Estendeu a mão.
- É a sua religião?- Aceitou polidamente o aperto de mão. Notou que algumas pessoas em volta passavam e olhavam com curiosidade.
- É uma religião no sentido que nos religa a Deus. Mas é mais do que isso: é a verdade.
- Sei.
- Porque o mundo inteiro virou uma ilusão. É louvável não entrar no Hades, mas a simulação não se limita a ele, se estendeu a todas as coisas. Encontrar a Deus, cujo nome é Saklas, é a única forma de escapar da armadilha do Demônio. Pode parecer chocante o que vou dizer: mas não existem mais países. O que existe é um governo mundial de satanistas. E tudo o que vemos é um imenso holograma palpável. São Paulo nem existe mais. E o pior: o Hades serve a propósitos maiores. Bebês dados como mortos na simulação mundial são na verdade utilizados como escravos no mundo real.- Clara estava quase desistindo de ouvi-la quando esta última frase não só entrou como ficou ecoando em seus ouvidos.
- Por acaso você tem alguma prova disso que está dizendo?
- Se vier para a fé verdadeira, se resolver me acompanhar, comprovará que é verdade! Nós, irmãs e irmãos de Saklas, temos experiências reais!- E de repente uma dor de cabeça e um forte enjoo atacaram Clara.- Você está se sentindo bem?- A jovem mostrou preocupação e se aproximou.
- Está tudo bem. Agora eu não posso ir. Mas me dá um contato do seu grupo. Você tem?
- Claro! Ah, e o meu nome é Noele.- Estendeu um cartão que pegou de sua bolsa.
- A gente se fala outra hora então, Noele. Por enquanto, mesmo que tudo seja uma ilusão, preciso trabalhar pra comer!- Deixou escapar um sorriso breve e enfastiado. Afastou-se rapidamente e não escutou a despedida da moça.
Em alguns minutos estava melhor. Mas horas depois, enquanto voltava para casa, o mal-estar retornou, ainda que mais sutil, e junto com ele a frase de Noele sobre os bebês.
Parece absurdo, mas...E se for verdade? E se o meu irmão estiver vivo, escravizado em um outro mundo? Não, é maluquice demais! Mas e se por trás de todo o palavrório religioso existir um fundo real de manipulação e mentira? Eu não duvido de nada dos políticos desse nosso mundo...”, refletiu, e pensou em ligar para Ísis. Mas depois raciocinou que não poderia falar com a amiga sobre o que a atormentava. Ísis iria insistir para que tirasse férias para não ficar louca. “Mas sei lá...E se eu for mesmo a louca e todo esse pessoal que usa o Hades estiver com a razão? E se a sanidade for se conformar com a finitude e com o que é superficial? Estou ficando cansada!”

V

Filipe teve um sonho. A cidade brilhava mais do que de costume. Eram as luzes de neon da noite.
Prestou, no entanto, mais atenção aos ventos. Estavam repletos de poeira. Alguns grãos entraram em seus olhos. Eram opacos e ásperos. Também imiscuíam-se às rodas dos carros.
Reparou em um em altíssima velocidade. O incômodo se dissipou. Sua visão se tornou repentinamente muito mais nítida e focada. Apenas uma roda passou a dominar sua percepção. Um incrível giro. Até que houve um atropelamento.
O sangue girou nas rodas. Tornou-se um rodamoinho vermelho. As luzes se apagaram. A cidade envelhecia sem mostrar temor.
Quando se deu conta, a vítima era alguém que conhecia. Ou talvez não: a moça com a qual jogara tênis também por sonho. E então acordou, com o rosto ensanguentado dela em mente. Teve a impressão que o sangue também escorria pelo seu. De relance, viu a si próprio atropelado.
Não que acreditasse em presságios, mas naquele dia iria tomar muito cuidado ao atravessar a rua.
 

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