quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Trecho do Prólogo de "Lugubris"


Proliferavam em Lugubris as ordens de execução. Iam aparecendo feridas pela cidade cinzenta.
Por favor, poupem minha vida! Perdão! Cristo disse para perdoarmos as pessoas!”, gritava desesperado um ladrão, arrastado pelos guardas do cônsul.
Cristo nos ensinou a não sermos frouxos com a sua moral! Quem não ama e nem respeita o próximo merece pagar caro por isso. A salvação da sua alma com certeza você não pode roubar!”, e alguns dos homens em armaduras riram. Estavam levando o condenado ao patíbulo, um palco erguido em praça pública, ao redor do qual se adunava a multidão. Ao lado, outro palco, onde, sentado em sua cadeira ricamente ornamentada, estava o cônsul Girolamo Sensi. Trajava-se com uma longa túnica negra, com uma faixa branca que continha as chaves da cidade cingindo sua cintura.
Tratava-se de um homem alto e gordo, calvo, à primeira vista muito gentil e simpático; quem o conhecera na infância dizia que tinha o riso fácil e barulhento. Contudo, elegera-se firmado na severidade, conduzindo uma campanha contrária ao que denominava “afrouxamento dos costumes”. No momento, não se via nenhum rastro de sorriso em sua face.
Além do ladrão já mencionado, aguardavam suas execuções por ali um outro gatuno e um sodomita, flagrado por seu tio, que o denunciara. Os dois primeiros seriam enforcados, enquanto o terceiro teria mutilada sua área anal antes da decapitação. Seria a primeira vez que esta segunda pena seria aplicada, o que gerava grande curiosidade entre o povo.
Lugubris, cidade independente do norte da península itálica que outrora pertencera ao Sacro Império Romano-Germânico, crescera muito nos últimos anos, fundamentando sua economia no comércio e no artesanato. Suas feiras, que contaram também com o surgimento de músicos talentosos, com canções que, além das melodias agradáveis, narravam histórias instigantes, foram se expandindo e, junto com elas, a cidade-estado.
Porém não houve apenas afluência de artistas e comerciantes como passaram a chegar delinquentes de outras terras, atraídos pelo movimento e pela circulação de ouro e prata.
Roubos, assassinatos e estupros proliferaram. Nesse contexto, a população local começou a bradar contra os forasteiros, sem distinguir entre inocentes e culpados. Ocorreram linchamentos públicos, dois contra presumidos estupradores, inocentes confundidos com os reais criminosos.
Nas tavernas passou-se a comentar que era necessário um pulso forte para dirigir a cidade. O cônsul de então, Giovanni Balsamo, um homem adoentado de bigodes brancos, cumpriu seus últimos meses de mandato sendo “velho fraco” o que de mais elogioso podia escutar. Seus anos à frente do governo da cidade não desgastaram somente sua fama, tendo adquirido uma doença óssea que quase não lhe permitia andar.
O consulado, o cargo mais alto na política local, durava oito anos, a deposição só sendo possível em casos de corrupção comprovada. Lugubris era, a seu modo, uma democracia, todos os cidadãos do sexo masculino a partir dos dezesseis anos podendo votar para tomar decisões importantes e eleger o cônsul, enquanto este escolhia seus secretários.
Qualquer um podia se candidatar, desde que tivesse mais de vinte e cinco anos. E enquanto Balsamo encerrava seu ciclo, diversos candidatos surgiram, mas a maior parte desistiu no meio do caminho, até só restarem três, dos quais saiu vitorioso Girolamo Sensi.
Pautara sua campanha na promessa de enrijecimento das penas para os perturbadores da ordem. O que cumpriu: ao assumir, modificou a legislação da cidade, todas as alterações aprovadas em plebiscitos populares, prevendo diferentes penas capitais, uma para cada crime, enquanto antes havia apenas a decapitação, para casos de assassinato, realizada nas masmorras. Sensi alterou também este último detalhe: todas as execuções seriam efetuadas em público, para que servissem de exemplo. De acordo com suas palavras, “o mal não deve ser tolerado. Ao eliminarmos do mundo sua escória, prestamos um favor a Cristo, que não precisará julgar tantas almas no dia do Juízo. Uma boa parte, as mais podres, já estará no Inferno desde bem antes, graças a nós! Estou certo que seremos recompensados por isso no Reino dos Céus!”, quando discursava, era efusivo, comunicativo, todo sorrisos; no trato pessoal com quem considerava “gente de bem”, era bem-humorado e receptivo. Só quando via o mal próximo que se tornava severo e sombrio.
No início, muitos acreditaram que as novas leis, rígidas demais, não seriam realmente cumpridas. Afinal, nenhum cônsul costumava cumprir todas as suas promessas. Mas o tempo comprovou que os céticos estavam errados, que Sensi era diferente dos outros.
As primeiras execuções foram de condenados que estavam na sombria prisão da cidade, que foi sendo esvaziada.
Passados alguns meses, Lugubris vivia um clima de terror: mais soldados foram colocados nos muros, os portões só sendo abertos para a entrada, sob rigorosa vigilância, enquanto houvesse sol, dos estrangeiros, que aos poucos foram deixando de aparecer. Quanto à saída, estava vetada: ninguém mais tinha permissão de deixar a cidade enquanto, palavras do novo cônsul, esta não se tornasse “a primeira ilha do Reino dos Céus”, ou seja, até que parassem de ocorrer crimes e atentados à moral. Uma atmosfera de tenso denuncismo começou a pairar, havendo gente que se aproveitou para delatar seus desafetos na esperança que indícios de alguma real transgressão acabassem sendo encontrados enquanto eram investigados, ou então criando falsos indícios. Isso afora os sinceros partidários de Sensi, que acreditavam que aquele homem era um enviado de Deus, destinado a trazer para Lugubris a Palavra e Vontade do Criador.
A convicção do cônsul se devia a um encontro sobrenatural que tivera quando ainda sequer pensava em se candidatar, mais preocupado com qual prostituta passaria a noite e em encher a pança com a comida de sua taverna. Na época, tinha de ficar atento para não causar prejuízos a si mesmo.
Girolamo, chegou a hora de abandonar a vida mundana! Não vê o que se tornou? Se não abraçar a fé enquanto estiver vivo, só o que o espera após a morte é o Inferno!”, despertara de repente, ao que parecia em seu próprio sonho, atordoado pela voz trovejante de um luminoso arcanjo.
Apesar da luz a envolvê-lo, foi o terror que predominou, esta logo se transformando parcialmente em fogo, em chamas vermelhas e furiosas, onde se viam despontando faces de demônios, que riam de sua vindoura desgraça. Parecia que não viam a hora de cravar suas garras e seus dentes em sua carne macia e de roer seus ossos e arrancar seus olhos para empaná-los na areia. No entanto, quando um tentou atacar, o anjo o deteve: “Afaste-se, criatura imunda, pois ainda há esperança para este filho de Deus! Ele pode ser redimido, Deus ainda pode aceitá-lo em seu rebanho, bastando que renegue sua vida ímpia.”, o arcanjo se voltou com olhos de fogo na direção do aterrorizado sujeito, que não parava de tremer, e gemia, algumas lágrimas tendo escorrido de seus olhos. Não demorou para se dar conta que não estava mais dormindo, que se encontrava em seu quarto, em sua casa, de diferente apenas a luz do enviado do Senhor, que clareava tudo. As chamas infernais se dissiparam antes que percebesse. Seus pés doíam como se pregos tivessem sido cravado neles.
És o santo arcanjo Miguel?”, chegou a perguntar ao mensageiro e guerreiro celeste.
Não, não sou Miguel. Você é muito pequeno para receber Miguel. Não importa meu nome e quem sou. O que importa é o que você deve fazer para salvar a si mesmo e à sua cidade. Deus tem um plano para você.”
Para mim?? Sou apenas um taverneiro...”
Cristo não disse que é aos simples que pertence o Reino dos Céus? Assim será! Lugubris será redimida por um homem que antes vivia do pecado e nele se movia; por um ignorante, que pouco leu das Escrituras; por um fraco, que nunca empunhou uma espada.”
Se é assim...O que devo fazer, meu senhor?”, juntou as mãos, ficando de joelhos.
Você deve se candidatar a cônsul.”
Eu? Mas não tenho a menor chance!”, gaguejou. “Nunca discursei em público e não sei administrar uma cidade!”
Não conteste os desígnios de Deus. Você irá vencer e tudo sairá bem, bastando que haja de acordo com o que lhe for ordenado. Estarei ao seu lado, não se preocupe. Bastará que se comporte de acordo com as leis de Deus, fazendo da vontade Dele sua ação na Terra.”, de fato, o anjo passaria a se manifestar sempre que Sensi necessitasse, aparecendo sem que precisasse ser chamado, logicamente sem ser percebido por mais ninguém, ou fazendo com que sua voz fosse ouvida por seu protegido, ou, o que parecia ainda mais incrível, e o que foi mais utilizado no começo, movendo a boca e o corpo de Girolamo de acordo com sua intenção, possuindo-o temporariamente sem que o homem perdesse a consciência, sentindo-se apenas como que paralisado, com sua alma imóvel deslocada ao lado de seu próprio invólucro carnal.
Toda a lei divina que o novo cônsul conhecia tinha como fonte aquele mensageiro, que na fatídica noite, antes de desaparecer entre fagulhas de ouro, prometera-lhe: “Limitando-se a obedecer, será abençoado: terá glória e riquezas; sua fama ultrapassará os muros de Lugubris, que se tornará um modelo a ser admirado e seguido por todos; será o início do Reino de Deus na Terra, e seu mérito nisso será reconhecido, pois quando chegar o fim dos dias, que está próximo, haverá poucas almas malignas restando, o que tornará a última batalha mais fácil para as hostes celestiais.”, e Sensi não pouparia de sua reforma sequer as prostitutas que outrora o tinham feito tão feliz, incendiando os bordéis e condenando-as à mutilação genital antes da morte. Para que não gritassem injúrias contra seu nome, suas línguas eram previamente cortadas ou seus lábios amarrados.
Eu só roubei porque tenho fome! Minha família está na miséria! Há quase duas semanas que minha esposa e meus filhos só têm lentilhas para se alimentar! Eles ainda são crianças...”, um dos ladrões cujo destino era a morte, já com as mãos presas, tentou em vão uma última súplica de desespero. Nos olhos do povo, predominava o medo, hipnótico feito um gato sinuoso; todavia, discerniam-se baços olhares curiosos e semblantes de excitação, mesclados ou não ao temor.
Cale essa boca suja! Como podemos saber se o que diz é verdade?”, indagou o homem em armadura a seu lado.
Posso levá-los até a minha casa! Posso provar que sou um pai de família!”
Um verdeiro pai de família não comete esse tipo de pecado. Verdadeiros pais de família são tementes às leis de Deus.”
Por favor, senhor cônsul! Tenha compaixão da minha família!”, no auge do terror, voltou-se para o dirigente da cidade. “Deixe-me voltar para casa! Minha mulher poderá lhe explicar tudo, lhe esclarecer a verdade!”, Sensi mostrou-se totalmente indiferente; o larápio acabou levando do soldado um forte golpe no rosto e foi ao chão.
Desde quando nosso justo e amado cônsul teria tempo para ir até a sua casa miserável? Sabemos que só quer tentar fugir. Não vai nos enganar tão facilmente.”
Por favor...”
Lamúrias não vão adiantar. Pode se arrastar às lágrimas à vontade. Caso o que esteja dizendo seja verdade, o que ninguém aqui acredita, Deus talvez perdoe sua alma e lhe conceda uma passagem pelo Purgatório. Que sua família ore por sua alma! Já que seu corpo não lhe pertence mais desde que praticou o pecado. Deveria ter pensado duas vezes antes de se apoderar do que pertence ao seu próximo.”
Eu nunca tinha furtado antes! Foi a primeira vez...E prometo que nunca mais farei isso! Mesmo que morra pela fome!”
É o que todos dizem.”, e o primeiro ladrão foi executado.
Já o sodomita, após a violência imposta, humilhado, sentia uma dor tão grande, tanto física como espiritual, que não era capaz de dizer ou fazer mais nada. Simplesmente permanecia imóvel, de olhos arregalados, quase tão rígido quanto o cadáver do enforcado que pendia.
O carrasco se aproximou, espancando o larápio que sobrara antes de levá-lo à forca, silenciando seus últimos apelos. O soldado deixou o palco. O derradeiro olhar vermelho e marcado do gatuno não comoveu em nada Girolamo Sensi, que pouco depois estaria em seus aposentos deliciando-se com um faisão. O cônsul era um crocodilo preguiçoso e pesado, mas ainda assim violento (...)

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