quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Trecho de "Perseu e Andrômeda"

 
O filho de Danae seguiu por caminhos sombrios, de quase que pura escuridão a não ser pela tímida luminescência emitida por algumas pedras. Seus joelhos doíam, seus pés começaram a arder, e teria feito uma parada para ao menos se sentar por alguns minutos se, entre árvores obscuras, não tivesse se deparado com o que teve certeza que era aquilo que procurava: enfim uma claridade maior, graças a uma chama azul em uma gruta localizada em uma parede escarpada de rocha escura. Debaixo deste fogo, que as aquecia e as iluminava, as três velhas, horrendamente magras, dispunham-se em um triângulo, cada qual sentada em um trono negro encravado na pedra. Acima, Péfredo, circundada por vespas. Não apresentava nenhum olho, de súbito liberando uma gargalhada com sua boca desdentada, aparentemente sem nenhuma razão. Devia estar rindo de algo que se lembrara, entre suas antigas e numerosas recordações. Abaixo à esquerda, Dino olhava para tudo à sua volta com seu único olho, degustando um prato de nata de leite; apresentava apenas um dente, mas sua língua úmida se movia com eficiência e flexibilidade. “Sua egoísta! Também quero um pouco de nata! Acha que não estou sentindo o cheiro?! Passe as coisas para cá!”, quem reclamou foi Ênio, a terceira greia, idêntica à irmã de cima, e também seria idêntica a Dino se ela não estivesse no momento com o olho e o dente que compartilhavam. A velha com a nata respondeu: “Espere um pouco, sua impaciente! Parece que hoje temos uma visita! Não se preocupe porque não estou limpando o prato, o estou preparando para oferecer o melhor ao belo jovem que veio até nós!”, e encarou Perseu com um sorriso sinuoso. Ainda parecia despreocupada, mas já dava a ele com seu olhar mais atenção do que ao restante das coisas do seu entorno; o neto de Acrísio deixara de ser somente um detalhe novo na paisagem, a ser fitado de relance.

Belo? Deixe-me ver!”, Ênio se agitou, ansiosa pelo olho com Dino.

Tenha paciência!”

Sua maldita egoísta! Há quanto tempo que não se vê um rapaz formoso por estas bandas?! E você quer tê-lo todo para si, e ainda por cima banhando o prato que oferecerá a ele com essa sua saliva imunda!”

Deixem de fazer barulho, suas inúteis! Mas se é verdade que há um forasteiro diante de nós, é preciso tomar cuidado e não comemorar!”, bradou Péfredo, sem mais qualquer rastro de riso ou sorriso, seus insetos se agitando. “Nunca os que vêm até aqui têm boas intenções. Os corajosos costumam ser guerreiros, e os guerreiros sempre são violentos e cruéis.”

Eu venho em paz.”, disse Perseu. “Nem todos os guerreiros são assim como a senhora fala.”

Que voz linda que ele tem! Uma voz magnífica! Passe-me logo esse olho, sua desgraçada!”, nova tentativa, em vão, de Ênio ter para si o olho.

Já disse para ficarem quietas!”, Péfredo parecia a mais severa das três. As duas outras acabaram silenciando. “Passe-me o olho, Dino!”

Isso não é justo!”, Dino ignorou o protesto de Ênio, mas não iria deixar de obedecer a velha das vespas, jogando seu olho para o alto. Péfredo o agarrou com precisão, colocando-o em sua fronte.

Quieta!”, tornou a recriminar a irmã abaixo, a seguir voltando-se para Perseu, enquanto Dino continuava comendo a nata: “O que você quer de nós afinal? Eu já imagino o que seja, mas prefiro ouvir da sua boca. Seja direito.”, não parecia capaz de ceder a encantos. Uma vespa se depositou sobre seu nariz.

Quero saber onde estão o alforje kibisis, o elmo da invisibilidade que um dia pertenceu a Hades e as sandálias voadoras que se parecem com as de Hermes.”, foi direto como a greia requisitara.

Como fala! E eu ainda sou a única que não o vi!”, num movimento amplo e brusco, Ênio lançou às cegas um tapa em Dino e a acertou, fazendo com que o prato de nata caísse e afundasse na lama abaixo.

Desgraçada! Fez isso de propósito!”

Claro que foi de propósito!”

Já chega! Basta! Será possível que não ouvem o que eu digo?! Basta, eu disse basta! Quantas vezes vou precisar repetir?!”, Péfredo esbravejou, a vespa que estava em seu nariz se juntou novamente às demais no ar e as duas emudeceram, controlando seus impulsos; ainda não respondera a Perseu, mas não tirara o olho do rapaz, assim como ele não tirara os seus dela. O jovem entreviu um ar de raiva e desprezo, a velha levando mais alguns segundos para tornar a falar: “Acha que vamos lhe revelar alguma coisa? Vá embora daqui! Não nos perturbe! Por mais forte e valente que seja, ou não teria chegado a nós, não há nada que possa nos convencer a lhe desvelar o paradeiro desses objetos.”

Imagino que pense que em mãos erradas possam causar grandes desgraças. Mas eu não pretendo fazer mal a ninguém.”, disse o filho de Danae.

Um guerreiro diz que não quer fazer mal a ninguém?? Ora essa! Por que não me vem com outra piada?! Por que vocês vivem se esquecendo que armas matam? Não são brinquedos! Podem ser bonitas, interessantes, verdadeiras obras de arte! Mas matam!”

Sei disso perfeitamente.”

Então por que vem com esse discurso, seu hipócrita? Você quer matar!”

Para ajudar os que sofrem, é inevitável lutar contra quem causa males e dor.”

Esse é o velho discurso que todos os assassinos sempre usaram, usam e usarão! Acha que sou idiota?”

Posso lhe contar minha história. Atena e Hermes, inclusive, estão a meu favor.”

Não quero saber da sua história, e muito menos sobre Atena e Hermes! Eu desprezo os deuses do Olimpo! Surpreso por ouvir isso? Assustado?? Pois essa é a minha verdade!”, e as vespas da encarquilhada entidade se lançaram contra Perseu; o herói se protegeu com o escudo que lhe fora dado por Atena e atacou com sua foice adamantina, com a qual foi cortando os insetos voadores; sua velocidade e sua precisão não só impressionaram como assustaram Péfredo: “Mas quem é esse rapaz?? Nunca ninguém fez isso antes...Os homens que tentaram lidar com as minhas vespas sempre foram massacrados, e ou tiveram que fugir ou morreram, seu sangue jorrando devido às violentas ferroadas!”, aquelas não eram vespas comuns, o que tornou a façanha de Perseu, após todas estarem mortas, ainda mais impressionante. O filho de Danae desde cedo se revelara ágil e rápido nos movimentos marciais; mas parecia claro que depois do contato com Hermes e Atena, do primeiro contato direito com o divino que estava em seu sangue, suas virtudes de luta haviam aumentado consideravelmente, como um filhote de leão que se tornara uma fera adulta.

O que há, Péfredo?! Por que esse silêncio?”, indagou Dino.

Não estou ouvindo mais as suas vespas! Elas atacaram o tal rapaz, ou não?”, indagou Ênio. “De repente não escutei mais nada, e sei que surda pelo menos não estou!”

QUIETAS!”, Péfredo voltou a esbravejar depois de um silêncio tenso, em que encarara Perseu de frente, o filho de Zeus desta vez efetivamente aparentando ser o que era, de seus olhos por um instante a greia acreditando ter visto saírem chispas elétricas.

Agora não vou ficar mais quieta.”, Dino protestou. “Eu que digo: chega! Estou farta de você querer mandar em nós duas. Já me bastou perder a minha nata!”

Vocês não entendem?? Estamos com um inimigo terrivelmente perigoso diante de nós!”

Se ele é tão terrível assim, eu quero vê-lo!”, Ênio insistia.

Está bem, sua velha ranzinza curiosa! Tome o que quer! Vou jogar este maldito olho para você!”, Péfredo retirou o olho de sua fronte. Nisso já não enxergava mais, porém conhecia perfeitamente a localização da irmã. Pretendia atingir diretamente a fronte da outra, e teria acertado o encaixe se Perseu, muito atento, não tivesse previsto seu movimento. O rapaz disparou e, saltando com os ventos (talvez com o auxilio de Hermes), agarrou o olho no ar, caindo a seguir no lodo; porém não soltou o órgão.

Maldita, mil vezes maldita seja você!”, passaram-se alguns instantes e Ênio insultou a irmã.

O que foi agora?? Não está vendo, sua ranhenta?! Por que me amaldiçoa!”

Você me enganou, não jogou o olho!”

Claro que joguei!”

Mentira sua! Bruxa mentirosa!

Não...”, foi só então que Péfredo se deu conta do que devia ter ocorrido...

Agora não adianta ficar negando as coisas! Você é uma falsa!”

Não é nada disso, sua tonta...”, e antes que a outra objetasse novamente, soltou: “O estrangeiro pegou nosso olho!”

Como é?? Não, isso é mentira sua para não nos ceder mais o olho!”

Não seja idiota! É a mais pura verdade! Não teria nenhum motivo para mentir agora! Também não estou enxergando nada!”

Além de sem nata, sem olho agora??”, inquiriu Dino.

Ela está dizendo a verdade, e falando sério.”, por fim Perseu impôs sua voz. “Peguei o olho de vocês.”

Desgraçado...Maldito seja, ainda que belo!”, esbravejou Ênio.

Não tenho o menor interesse em ficar com este olho.”, que era frio, úmido e provocava uma certa aflição no rapaz. “Contudo, só irei devolvê-lo se me falarem onde poderei encontrar os três objetos que procuro.”

Esse foi um golpe muito baixo!”, protestou Péfredo.

Não tive escolha. Tentei jogar limpo, mas vocês não quiseram colaborar. Agora ou colaboram, ou este olho será cortado ao meio pela foice que me foi dada por Hermes.”, como primeira resposta, as três greias se debateram, gritaram, grasnaram, nenhuma palavra inteligível sendo pronunciada, e a um certo ponto pareceu que Dino iria se desmanchar em nata, enquanto Péfredo dava a impressão de estar tendo uma convulsão e Ênio esteve próxima de despencar de seu assento. Eram como garças disformes, depenadas, sem asas. Ênio acabou se sentindo forçada a responder: “Está certo, eu vou dizer!”

Não faça isso!”, Péfredo não encontrava alternativa, mas resistia a dizer o que era preciso, seu corpo se acalmando aos poucos.

Estamos acabadas!”, Dino gemia; apesar da tristeza sentida, nenhuma lágrima era possível sem o olho.

Digam de uma vez o que preciso saber.”, Perseu foi firme e seco.

Nada está acabado e vou fazer o que é necessário que seja feito! Se isso causar sofrimento aos homens, o problema não é nosso! Como se chama, rapaz?”, Ênio perguntou.

Sou Perseu, filho de Danae.”

Danae é seu pai?”

Não, é minha mãe.”

E você não tem pai?”

Nunca o conheci.”

Me deixa cada vez mais curiosa...Depois que lhe contar o que precisa saber, jogue o olho para mim porque quero vê-lo!”

Ênio, sua pérfida! Só quer satisfazer sua curiosidade!”, protestou Péfredo.

Calada!”, a que estava acima que silenciou desta vez; e então tornou a falar com o herói: “Siga à nossa esquerda. Ainda terá uma boa caminhada pela frente, mas se não desistir irá chegar ao Estige. Lá, os três artefatos que mencionou são guardados pelas ninfas do rio.”

Muito obrigado.”, Perseu atirou o olho e, sentindo que este se aproximava, Ênio o segurou firme, para na sequência colocá-lo em sua fronte. Contudo, quando fez isso, para sua frustração, o neto de Acrísio já havia desaparecido.

Não acredito! Isso não é justo!”

O que foi? Por acaso ele já foi embora?”, Péfredo indagou com malícia. “Realmente ele é rápido. Será filho de Hermes?”

Desgraçada...Filha de mãe velha...Isso foi praga sua!”

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