quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Capítulo de "Corpo e Alma" - Soberba


   A Artur Avalach agradavam a palavra e a imagem. Não por acaso em seu quarto viam-se os livros de história, esoterismo e ficção marcados sobre a mesa e as revistas em quadrinhos e de artes empilhadas ao lado. Entediava-o a faculdade e a perspectiva de professor o desmotivava, afinal não gostava de falar em público.
  Agradava-lhe ficar em seu mundo, entre seus assombros, mais poéticos do que filosóficos, embora não fosse de compor versos e cursasse filosofia. Junto com Luiz, seu amigo de infância, compunha histórias em quadrinhos sérias e humorísticas, mais ou menos terríveis, nunca pacatas. Recentemente, recriações de temas do ocultismo e fantasias sombrias, pena que nenhuma editora tivesse aceito os seus trabalhos. Falando em trabalho, seus pais infelizmente não compreendiam sua atividade criativa e o pressionavam para que encontrasse um emprego, um estágio, no que Luiz, estudante de propaganda, até aqueles dias obtivera mais êxito, ainda que por pouco tempo em cada função: vendedor, operador de telemarketing, funcionário de banco (o que mais detestara, pelo ar de ganância à sua volta), desenhista de logotipos, professor de informática, hábil em diversos programas gráficos, enquanto Artur preferia trabalhar à mão.
   Seu único apoio vinha de Lilian, sua irmã mais velha, uma jovem extremamente sensível, também ligada às artes, fotógrafa das mais observadoras, que sempre fora apaixonada por Luiz; enviara-lhe flores, chegara a lhe dar um livro, e o presentear era típico de sua alma, decepcionando-se no íntimo por não ser correspondida, por mais que dissesse que não tinha a menor intenção de prender ninguém e que se conformava com a indiferença do rapaz e em apenas dar, sem receber. Chorava escondida e chegara a sonhar algumas vezes com a aproximação do amado enquanto estava murcha em seu leito. Outro aspecto, além do profissional, em que Luiz era muito mais bem-sucedido: exercia um considerável magnetismo sobre o sexo oposto, tendo cativado Giulia, melhor amiga de Artur, que já desejara ter com ela algo além da amizade.
  Contudo, ao contrário do amigo, era tímido e não tinha iniciativa para essas coisas. Conhecera-a antes, em uma sala de bate-papo na internet, e ficaram mutuamente encantados com os gostos em comum: os interesses em literatura, desenho, teatro, esportes, espiritualidade; os modos de pensar e agir; a postura aparentemente tranquila. Quando trocaram fotos, ele acreditara que enfim tinha encontrado sua alma gêmea (embora não cresse na estrita definição do conceito), afinal o atraía física e intelectualmente: a pele da moça não era tão clara quanto a sua, os olhos porém de azul fulgurante, os cabelos curtos tingidos de vermelho. Em contraste, o rapaz não fazia exatamente o tipo da jovem, magro e pálido apesar dos olhos e cabelos escuros (como as roupas, geralmente pretas, que gostava de usar), gótico e um tanto vampiresco sem sê-lo, mas ela tentara relevar a aparência em consideração ao que vinha de dentro, e na pior das hipóteses se tornaria sua amiga.
  Artur não costumava se abrir sobre seus escassos amores, porém naquela ocasião não se contivera e se abrira com Lilian, que ficara muito feliz pelo irmão, advertindo-o apenas para tomar cuidado com as armadilhas do coração; falava quase sempre com um tom bastante melancólico, porque, entre outros infortúnios afetivos, uma vez fora quase violentada por um ex-namorado quando decidira terminar o relacionamento, salva em cima da hora pelo irmão do rapaz.
   No primeiro encontro com Giulia, acabaram se limitando a trocar abraços, um distante do outro no cinema, os olhares de sobrolho se perdendo no escuro. Já Luiz a “conheceu” através do desenho de um elfo que o amigo lhe mostrou, interessando-se vivamente para conhecer ao vivo a autora, vasculhando e encontrando seu perfil em um site de relacionamentos, apresentando-se e elogiando seu trabalho. Não tardara, após algumas conversas que pouco tiveram de virtual, para se encontrarem pessoalmente; e mais rápido e espantoso fora para Artur saber que estavam namorando.
   Lilian o observara em sua frustração silenciosa, sem dizer nada a respeito. Ela também estava frustrada, com dois motivos para antipatizar com Giulia. Magra, loira e alta, sentia-se mais desengonçada do que modelo, tanto que apesar do porte fora para trás das câmeras. Parecia-se mais com o pai, de barba e cabelos claros e nariz aquilino, enquanto Artur, com seus traços mais delicados do que de costume para um homem, puxara à mãe. Com suas olheiras, tinha um aspecto de boêmio, não muito saudável, conquanto não fosse de festas à noite, sendo sim noturno, mas usando a queda do dia para escrever e desenhar. Não lhe agradava acordar cedo, ao passo que Luiz, moreno e robusto, mesmo quando varava a madrugada em alguma casa noturna acordava às seis da manhã cheio de energia.
   Se assim alguns assuntos e problemas separavam estas quatro almas, um bastava para uni-los: o interesse em algo além do palpável. Artur tinha com certa frequência sonhos premonitórios e déjà-vus, além de em várias noites ligar a televisão do quarto de repente e sua irmã sabia o porquê: estava ouvindo passos e vozes. Lilian passara por inúmeras visões quando criança e no princípio da adolescência, em sua maioria apavorantes; aterrorizara-a em especial o não poder interferir, a paralisia absoluta, mesmo que estivesse de pé; os músculos e os nervos travavam, sua garganta queimava, suas costas ardiam, não podia falar ou gritar; aconteciam quando estava só, e não eram meros pesadelos, ocorrendo na vigília, criaturas horrendas e vultos obscuros a ameaçá-la. Contara a seus pais, que a levaram a um psiquiatra; remédios e terapia não resolveram. Os incidentes assustadores só pararam após se abrir com seu irmão, o único que do seu ponto de vista não a via como louca, e que se tornou seu único confidente. Nem namorados muito menos colegas entenderiam, em tempos recentes limitando-se a “sonhos” peculiares, como um no qual uma mulher ferida, chamada Dora, pedia incessantemente por socorro. Acordou com medo e rezou. Embora religiosa, não lhe agradava ter vivências com espíritos, só gostava de comungar com Deus, e viria a saber por seu pai que ocorrera um acidente de avião e que DORA, uma amiga de sua mãe que havia tempo não visitava a família (desde antes das crianças tem nascido), morrera neste. Ao ver a foto daquela mulher que “nunca vira”, quase desmaiou ao constatar que era idêntica à do sonho. Seu pai lhe perguntou se estava se sentindo bem; a moça respondeu que era apenas uma cólica.
   Luiz, por sua vez, em sua infância costumava ver pessoas que ninguém mais enxergava, principalmente crianças. Mais tarde, teria algumas experiências extracorpóreas ou projeções astrais, como na ocasião em que se vira de fora dormindo no sofá na casa de praia de sua avó em Ilha Bela, sentindo um ar pesado à sua volta. Deu de cara em seguida com uma criatura aterrorizante, alta e de espinhos e músculos azuis, os dentes como facas mal distribuídas e sangrentas, um olho de pálpebra fechada e ferida e o outro sem pálpebra, fixo e escancarado em fúria.
   Encarando o ódio imotivado e primordial, barrou não soube como o medo, sem pânico, abordando sua própria força, valorizada e crida, para formar uma lâmina luminosa, sem punho, que desintegrou a presença funesta ao atingi-la. De volta à carne, sentiu uma surpreendente paz, trituradas muitas de suas hesitações, e anos depois outras vivências se dariam, frequentando com Artur, Giulia, Lilian e outros conhecidos, por algum tempo, grupos de pesquisa sobre projeciologia, o estudo das saídas do corpo físico.
   A namorada também já se vira com a consciência apartada do físico, relembrando adulta, ao estudar o assunto, experiências que tivera ainda criança, em um jardim misterioso que visitava sempre que dormia na casa de seus avós. Caminhava entre pedras e flores, que lhe pareciam sorrir, ao voltar à carne se lembrando perfeitamente de tudo o que vivenciara. Seus avós lhe diziam que fora apenas um sonho, porém ela já intuía que se tratava de algo mais, que por algum motivo desconhecido só ocorria naquela casa.
  Num feriado, Luiz procurou seu amigo, após algumas semanas em que pouco haviam se visto, para lhe falar sobre uma nova pesquisa que vinha fazendo nas poucas horas vagas que lhe sobravam, desculpando-se ao mesmo tempo pela correria devida ao trabalho.
- Goécia. Já ouviu falar?
- Não é um sistema de evocação de demônios?
- Isso é o que os cristãos sempre disseram, pra desvalorizar os deuses pagãos. Na verdade, é a evocação de deuses antigos, que alguns alegam que não são existências objetivas, e sim forças sombrias e poderosas do subconsciente, que precisam ser domadas, subjugadas, pra se alcançar a iluminação. Não se chega ao Céu sem conhecer o Inferno, já ouviu esse ditado? É impossível ser humano, íntegro, sem compreender o animalesco, ou o brutal.
-  Isso faz algum sentido.
-  Faz todo o sentido! E sabe no que estou pensando?
- Não vai me dizer que quer fazer um ritual baseado nesse sistema...Sempre ouvi falar que esse tipo de magia é perigoso.
- Se a gente quer se aprimorar espiritualmente, evoluir, precisa vencer o medo. Sidarta teria virado Buda se tivesse recuado diante de Mara e Kama? Fora que não acredito que vá aparecer nada, pra ser sincero. Mas fiquei muito curioso e, se acontecer, podemos pedir alguma coisa ao espírito que se manifestar.
- Isso é loucura. Fazer um pacto?
- Não é um pacto. Vamos chamar e comandar, dirigir. O mago é a autoridade suprema no ritual goético, não o deus ou demônio.
- Vou ser bem sincero: essas coisas me fascinam, mas acho muito perigoso.
- Não acho que alguma coisa vá aparecer, como te disse. Mas se aparecer é só lucro. Só alegria.
- Se não acredita, por que tentar?
- Se não foi alucinação de quem escreveu, vai acontecer alguma coisa; se for mesmo uma ciência, como dizem os textos!
- Mas se são criações do inconsciente, não são alucinações? Nesse caso, como meros delírios seriam capazes de conceder a realização de desejos?
- Podem ser formas de pensamento cristalizadas no inconsciente coletivo, arquétipos da violência e do caos, que uma vez vencidos abrem caminho pro indivíduo se tornar mais confiante, íntegro, e com isso mais forte, resistente, pronto pra vencer qualquer obstáculo. O homem pensa que é a entidade que age, mas é ele mesmo que se tornou alguém superior, um ser de vontade firme, um mago.
   Artur ficou pensativo. Ao contar a respeito para Lilian, a irmã opinou:
- Que sejam deuses, não são Deus. Os deuses antigos eram cruéis, não adianta romantizar o paganismo. Mesmo no Judaísmo, Javé era cruel. Deus, se não vai além das religiões, não é Deus.
- E o que seriam os seres da Goécia?
- Não sei. Demônios ou sombras criadas pelos seres humanos, talvez.
- Tudo bem, mas acho que temos que vencer o medo, que vencer os deuses, ou demônios, seja lá o que forem, se quisermos evoluir espiritualmente.
- Não vejo assim. Pra mim pelo menos, a oração e a simplicidade são muito mais eficientes.
- Você tem muito medo.
- E você não?
- A diferença é que quero encarar o medo.
- Você é orgulhoso. Não admite que possa existir algo fora do seu controle. Por favor, Artur...Não brinque com o medo.- Como o irmão não ouviu seus apelos, decidiu ir com ele, apesar do pavor que sentia, participar do ritual goético. Pretendia protegê-lo. Por mais medrosa que fosse, se considerava um pouco mais forte do que o caçula, embora ambos fossem, na sua visão, frágeis demais; fiava-se no coração de Artur, não na mente borbulhante e orgulhosa do rapaz. Luiz teria que proteger a ambos, e nele não sabia se confiava, porém em caso de desespero se jogaria em seus braços e pediria que salvasse a ela e ao maninho. Quiçá, demonstrando alguma coragem, ao participar do ritual, por fim o moço se interessasse por sua pessoa, e roubá-lo de Giulia lhe traria um sabor que jamais experimentara mas que sabia que seria formidável.
   Giulia não tinha medo, certa de que iria triunfar sobre a sombra, e começava a se imaginar com uma sabedoria comparável à de Salomão. Na casa de seus avós, ela e o namorado encontraram os irmãos. Os idosos haviam viajado. A residência era antiga e ampla o bastante, com um espaçoso porão. Tinham emprestado uma das chaves à neta porque esta lhes falara que queria dar uma festa, só não sabia onde, afinal o apartamento dos pais era pequeno. Sua divertida vovó, que cedia com facilidade aos seus caprichos, entregou-lhe a chave, só lhe recomendando juízo...O que iria fazer falta.
   Como não fariam uso de luz elétrica no ritual, haviam trazido velas. Com giz, traçaram um grande círculo mágico no centro do qual se postaram, dentro deste os nomes e símbolos recomendados pelo livro, um tau central composto por dez quadrados como o desenho maior. Dispuseram nove das dez velas em volta do círculo, desenhando um pentagrama debaixo de cada. Pendurado ao fundo, um espelho de boa qualidade, que Luiz encomendara. No caso da entidade aparecer, Artur iria pedir dinheiro, não importava como viesse (ou quase isso: não queria prejudicar ninguém; poderia por exemplo ganhar na loteria), para se dedicar apenas à atividade criativa; Giulia, que cursava direito, queria conhecimento; Luiz visão espiritual; e Lilian, já que estava lá, sorte no amor, mas, dependendo do que sentisse da criatura, não pediria nada. A noite estava quente naquele sábado.
   Como mestre do ritual, Luiz faria a oração de abertura, que ele próprio criara, louvando seu Deus interno, soberano sobre os seres e ideias exteriores. Decidiram evocar, de comum acordo, após exporem seus desejos (Lilian com considerável encabulamento e sob o riso interiorizado de Giulia, mas se sentiu impelida a dizer a verdade, a despeito da raiva de se expor para a rival), o rei Paimon, um espírito dos mais completos na amplitude de suas atividades, que com seu séquito, segundo dizia a edição que tinham em mãos, seria capaz de realizar de alguma forma as vontades de todos. Os rapazes e Giulia acreditavam ter estudado o bastante sobre os espíritos nos últimos dias.
   “Que todos os pensamentos negativos se dispersem. Que tudo ocorra de maneira perfeita, de acordo com a amplitude da minha vontade. Se houver hesitação nos meus irmãos, que não haja em mim e a minha postura faça a diferença.”, Luiz pronunciava mentalmente para si mesmo. Sentia-se seguro, convicto do sucesso da operação; sua namorada estava ansiosa; e Artur continha as próprias e alheias expectativas.
- Nossa...As velas originais eram feitas da gordura humana de uma criança estrangulada, ou de um inimigo.- Um amigo comentara com o outro durante o estudo.
- Relaxa. Os magos de hoje dizem que isso não é necessário. O que vale realmente é a intenção do magista.
- As velas são as torres à beira do abismo...
- Torres iluminadas, porque se houvesse só escuridão continuaríamos andando e cairíamos.- Luiz salientara, Artur meneara a cabeça em concordância, enquanto Lilian fora trazer um lanche para os dois e acabara parada à beira da porta, escutando a conversa. Os dias passariam e o horror da jovem não diminuiria; todavia, não se ausentou na hora fatídica.
   O triângulo de manifestação foi traçado fora do círculo, a oeste, e neste colocado o selo de Paimon, desenhado pelo mestre do ritual em papel virgem. Seria guardado num local próprio e seguro para o caso de se realizar uma nova evocação. O rapaz já visualizava uma gaveta em seu quarto cuja chave guardaria a sete chaves.
   Estavam os quatro trajados com robes pretos, vestes que foram consagradas por suas intenções antes de vesti-las: cada um realizara sua oração direcionada, a de Artur a mais serena, embora alguns pensamentos impróprios por vezes o atrapalhassem feito fagulhas ofensivas; Luiz mais silenciara a mente, com poucas palavras, e procurara canalizar firmeza e verdade; Lilian pedira que Deus e os anjos os amparassem e abençoassem suas roupas, para que fossem como escudos em volta de seus corpos, que ninguém se ferisse, repetindo em sua mente que mesmo para Giulia não desejava nada de ruim, esta tocando com a mão direita o pentagrama metálico em seu pescoço, enquanto seu namorado usava um hexagrama, ao qual vinha dando quiçá menos atenção do que deveria. Segurava um bastão, que seria sua alavanca mágica, auxiliando-o no movimento das energias, e colocou próximo do triângulo o incensário, que deveria ficar ativo durante toda a operação.
   Segundo sua descrição, Paimon era caracterizado não só por uma ampla sabedoria, conhecedor de artes e ciências ocultas e mundanas, como descobria qualquer coisa que estivesse escondida, esquecida ou soterrada, tanto no plano físico como no mental e no astral. Poderia ensinar Luiz a abrir sua visão espiritual, ou no mínimo permitir que lhe caíssem em mãos livros que o ajudassem a encontrar um treinamento adequado; Giulia também esperava achar obras raras e valiosas na sabedoria que guardavam, perdidas nos fundos dos sebos e bibliotecas, ou até em lugares inusitados; para Artur, algum tesouro inesperado, ou que sua arte começasse a lhe dar os frutos materiais latentes, afora lhe proporcionar uma posição de honra; para Lilian, talvez descobrisse em uma pessoa de seu ambiente de convívio social, até então mantida oculta pelo destino, seu verdadeiro amor.
   Feita a oração de abertura, os participantes posicionados dentro do círculo, o mestre do ritual mentalizou uma luz branca envolvendo os nove pentagramas, que estes brilhassem com intensidade, e enquanto tocava a testa, depois o peito, em seguida os ombros e por fim entrelaçando os dedos sobre o tórax, pronunciou:
- Ateh Malkuth ve-Geburah ve-Gedulah Le Olahm, Amen.- Repetindo em português:- A ti o Reino, o Poder e a Glória para sempre, amém!- Na sequência se voltando, na ordem, para o oriente, o sul, o ocidente e o norte, em cada direção mentalizando um nome divino. Feito isso, estendeu os braços, mentalizando-se em forma de cruz, e falou:- Diante de mim, Rafael. Atrás de mim, Gabriel. À minha direita, Miguel. À minha esquerda, Uriel. Ao meu redor ardem os pentagramas.- As velas eram pretas e azuis escuras, conforme mencionado no grimório as cores que seriam as mais adequadas para a evocação; e o incenso devia ser de olíbano, próprio para um espírito da categoria dos reis, com o qual deveriam proceder com todo o tato, não havendo perigos se agissem da forma correta. Teve início o chamado:- A Ti invoco, ó Não-Nascido. Tu, que criaste a Terra e os Céus. Tu, que criaste a Noite e o Dia. Tu, que criaste as Trevas e a Luz. Tu, que és a Verdade na Matéria. Tu, que és a Verdade em Movimento. Tu, que distingues entre o Justo e o Injusto. Tu, que fizeste a Fêmea e o Macho. Tu, que produziste as Sementes e o Fruto. Tu, que formaste os Homens para amarem uns aos outros. Tua voz hoje é a minha. A mim Tu confiaste teus Mistérios. E a mim concedes o poder de evocar um dos teus mais antigos filhos.- Traçou no ar movendo a mão esquerda e com a imaginação ativa um pentagrama equilibrante e mantrou Eheieh. Logo depois, mentalizando uma outra estrela de cinco pontas, pronunciou IHVH em voz alta e firme, continuando:- Ouça-me, criador de todas as coisas, e faça todos os espíritos submissos a Mim, de maneira tal que todo Espírito do Firmamento e do Éter, sobre a Terra e sob a Terra, na Terra seca e na Água, no Ar Rodopiante e no Fogo Crepitante, e todo Encantamento e Flagelo da Divindade, possam obedecer a Mim.- Caminhou rumo ao sul, Lilian se sentindo gelada e paralisada, pensando: “Ele estudou mesmo cada passo do ritual...”, ao passo que, após mantrar Eheieh mais uma vez, o rapaz traçou um pentagrama de chamas em sua mente e pronunciou Elohim com toda a energia de sua garganta, tomando impulso para dizer:- Invoco a Ti, o Terrível e Invisível Deus, que habitas no Lugar Vazio do Espírito!- E mais algumas palavras, gestos e visualizações se seguiram e repetiu com poucas variações o cerimonial nas outras direções, o pentagrama da água ao oeste, da terra ao norte e do ar ao leste. Ao voltar ao centro, de braços abertos, chegou ao cume tão esperado, sentindo-se ele próprio um deus:- Minha vontade é soberana agora, imbuído que estou do poder da Divindade, minha alma à imagem e semelhança do Criador, para chamar e submeter a quem desejo. Eu sou o Espírito Não-Nascido! Sou a Verdade! Sou o que relampeia e troveja! Eu sou Ele, de quem derrama a Vida da Terra! Eu sou Ele, cuja boca sempre flameja! Eu sou Ele, o Gerador e Manifestador da Luz! Eu sou Ele, a Graça dos Mundos!
  Um fio de medo acabara de roçar na pele de Artur, que tratou de suprimi-lo; Giulia engolia a saliva e procurava se concentrar em repetir mentalmente as palavras do companheiro, admitindo a si mesma que Luiz, ao mesmo tempo que a fascinava cada vez mais, começava a assustá-la no transe em que entrava; calafrios percorriam Lilian.
- Que Labal e Abalim abram espaço para ti. Ouça-me, ó espírito, grande rei Paimon! Apareça diante deste Círculo. Venha em paz e em forma visível, diante de mim no Triângulo da Arte.- Repetiu a evocação por três vezes, os quatro vendo uma espécie de fumaça azul acinzentada se formar ao redor, que não era a do incenso. Nesta um rosto se insinuava.- Eu o saúdo, grande Paimon, rei em Nome d'Aquele que criou o céu, a terra, o inferno e tudo o que neles está contido e subordinado Àquele Nome. Pela mesma Potência que o chamei à manifestação, peço-lhe para permanecer amável e afavelmente diante deste circulo e dentro desse triângulo, afinal fui eu que lhe dei ocasião para que manifeste sua presença neste plano. Não parta sem que eu autorize e sem que meus desejos e os de meus irmãos estejam verdadeiramente satisfeitos, sem ardis.- Inclinou-se respeitosamente, porém a face não ficou mais clara; talvez tivesse se precipitado, saudando-o antes da hora. Não enxergou, ao contrário da irmã de seu amigo, uma névoa fosca, de exalação fétida, que se espalhou pelo astral do lugar a partir do semi-rosto. Sinais de mau augúrio: o incenso parou de queimar e com a batida de um vento frio duas velas se apagaram. Luiz buscou não se perturbar, mas uma vertigem repentina o derrubou. Giulia acudiu, o círculo entrando de forma muito rápida em um brusco desequilíbrio interno, e o mestre do ritual sentiu isso, percebendo como se o ambiente todo entortasse e seu corpo se contorcesse, cada parte dobrada indo numa direção oposta; por isso pediu, com Artur apreensivo e Lilian imóvel pelo medo:- Não saiam das suas posições! Eu estou bem!- Empurrou a namorada, que nisso ficou aborrecida, e apenas uma vela restou com o vento seguinte. No escuro quase absoluto, Lilian foi dominada pelo pavor, se mexeu e saiu tateando para fora do círculo. Ouviram-se uma risada gutural e barulhos rápidos de passos.
- Eu quero sair daqui! Quero sair daqui!- Artur pensou em segurar a irmã, que começou a gritar, mas não teve forças para sair do círculo. Luiz não conseguia mais falar nem se mover, ardia de raiva, se pudesse espancaria a jovem, enquanto as costas de Giulia, pressionadas por um peso invisível, iam se dobrando. O ritual estava acabado, abrindo espaço para o caos que estivera à espreita: uma criatura que não era Paimon tomou forma nas sombras; e iria castigar severamente os despreparados e imprudentes jovens, deixando se desenhar em seus lábios escamosos e cinzentos, com larvas repugnantes passando pelas partes feridas e podres, um sorriso grotesco.
   A terra tremeu e as madeiras do assoalho rangeram e foram se soltando; do teto periclitante, que parecia prestes a desabar, caía serragem.
- Paimon! Você tem que me obedecer!- Luiz bradou, embora tremesse, enquanto Giulia desmaiava e Lilian intensificava seus gritos e seus olhos ficavam brancos, Artur estático mas o único calmo, até demais, estranha e terrivelmente calmo, de uma forma absurda para si mesmo, sem medo na iminência do encerramento de seus dias.
- Por acaso está me vendo montado em algum dromedário? Devia ter estudado mais, garoto! Não sou Paimon. Isso que dá brincar de mago...Vai pagar pela sua insolência, por me tratar como se fosse algum verme qualquer do seu esterco. Vocês são meus agora! O meu nome é Ginnungagap.- Replicou o demônio, apenas a asquerosa boca em movimento claramente visível nas trevas, seu corpo alto e pesado um contorno sombrio.- Sou um dos grandes senhores do Abismo, que será o novo lar dos seus pequenos espíritos.
   “Por que deu errado desse jeito?!”, o mestre do ritual se questionou, um vento forte se espalhando e derrubando o que restava do arranjo mágico. Ficaram na completa escuridão e no frio absoluto. Artur, sua irmã e seus amigos não viram nem sentiram a casa desabar, suas consciências transportadas antes a um lugar não-lugar distinto. Em um espaço azul rebrilhante, abria-se uma voragem branca, de velocidade tremenda e movimento sem descanso; o vórtice possuía um ponto escuro em seu fundo, que com rapidez foi crescendo e arrastando consigo um pó como de carvão, uma sujeira que cresceu gradativamente, até dar origem a um denso buraco negro.
   Berrando sem cessar, Lilian foi a primeira a ser tragada, os ecos de seu desespero persistindo por um tempo indeterminado.
   Estraçalhada, apenas a cabeça e os braços inteiros na alma que sangrava, a face porém repleta de bulbos e ferimentos, o coração rasgado ardendo e rodopiando ao seu redor, ainda assim sem parar de bater, Giulia parecia adormecida, os olhos fechados em uma paradoxal expressão de serenidade, o sono talvez a única possibilidade para fugir de sua desgraça; despencou no báratro antes de seu namorado, que mostrava um rosto desesperado de veias arregaladas, com olhos que não podiam se fechar, balbuciando freneticamente pedidos de perdão, implorando pela intervenção divina, que não ocorreu.
   Artur tentou tocar sua mão e puxá-lo, o que teoricamente seria inútil, nada além de uma nobre demonstração de amizade, afinal só iriam conseguir cair de mãos dadas no Abismo, não havia salvação aparente; todavia, conquanto o jovem não estivesse consciente disso, seu Íntimo, além do passado, do presente e do futuro, sabia não ser o evidente seu destino, tanto que um outro magnetismo o puxou ao lado da voragem, distanciando-o o suficiente para se salvar da atração desta. A alegria por se safar não durou porque viu o grande amigo desaparecer no pavor giratório, clamando então por seus pais e o nome de seu irmão menor, um pequenino de dez anos pelo qual nutria verdadeira idolatria, ajudando-o nos estudos e brincando juntos, o que não só o divertia como o relaxava da forma mais profunda. Nisso, agredido pela revolta e pela tristeza enquanto se compadecia do desespero de Luiz, Artur mergulhou em outro pesadelo, entre águas glaciais que continham serpentes venenosas e monstros marinhos de braços repletos de garras. “Nada disso pode ser verdade! Vou acordar. Nós vamos acordar! Deus, perdoe-nos! Perdão, meu Deus! Estávamos loucos, não sabíamos o que fazíamos, foi uma brincadeira tola e imprudente, é verdade, mas não tínhamos más intenções!”, agora sim sentia medo, suas orações no entanto parecendo estéreis, o que existia à sua volta uma realidade, ainda que além do mundo físico. Uma perdição de torres cheias de agulhas. Aberrações de gargantas afiadas, plantadas na terra, impossibilitavam o silêncio.

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