quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Capítulo 1 de "Intraterra" - Céu Vermelho


  “Aquele ali não é o Joshua Christiansen? Vi ele numa entrevista na televisão faz alguns dias. Se não for, é no mínimo muito parecido.”
   “Não gosto dos livros dele. Não passa de autoajuda disfarçada de aforismos pseudo-herméticos.”
   “Autoajuda? Nada a ver! Só que é preciso saber reconhecer a profundidade da poesia dos textos dele. Coisa que acho que é difícil pra alguém como você, que é materialista demais.”
   “Não é questão disso. Só vejo nos livros dele que me caíram em mãos uma série de metáforas confusas, digressões irrelevantes, e quando há uma história ela não avança.”
   “Isso do seu ponto de vista. Além de ser uma literatura elaborada, vejo nele uma postura crítica e um apelo a nos voltarmos, mesmo que só um pouco, pra dentro de nós mesmos.”, um casal discutia no restaurante da espaçonave; os olhares da moça, que defendia aquele que era um dos seus autores favoritos, estavam justamente sobre o próprio, que se achava em outra mesa, com seus dois filhos e sua esposa. Christiansen era um homem alto e magro, na faixa dos trinta e cinco anos, de cabelos ruivos e pele bem clara, olhos castanhos pequenos como seu nariz e sua boca, usava óculos, e gostava de se vestir de preto e cinza, entre calças, camisas escuras, jaquetas e sobretudo; não era de falar muito, preferia ouvir, um observador nato, simpático com seus interlocutores. Estava tomando uma taça de vinho e comendo um belo prato de macarronada, não fazendo questão de regular o apetite mesmo nos ambientes mais elegantes e passando o pão no molho que sobrava no prato, o que causava irritação em sua mulher, ainda mais quando se sujava.
   “Joshua, pelo amor de Deus! Você é uma figura pública, e vê se dá um bom exemplo pras crianças...”, falou-lhe no ouvido com a voz contida, mas a raiva nem tanto.
   “Que eu saiba não escrevo best-sellers!”, deu uma resposta bem-humorada.
   “Mesmo assim é bem conhecido, ou não teriam vindo já sete pessoas pedir autógrafos pra você.”
   “Sério que foram sete? Não contei, achei que tinham sido menos.”
   “Dá pra deixar de ser cínico?”
   “Cínico? Juro que não estou sendo! Ah não, Anna, não vamos começar outra vez...”, por mais que não quisesse admitir isso, seu casamento estava em crise, e era para ele horrível que suas brincadeiras mais inocentes e a simplicidade no seu modo de agir estivessem gerando tantos mal-entendidos. Quando haviam se conhecido e nos anos de namoro, noivado e nos primeiros do matrimônio, estavam juntos havia quase doze, Anna o definira como um cavalheiro, um príncipe, pela sua cultura e por ser carinhoso, porém não conseguia mais suportar certos desleixos do marido, que apesar de divertido e inteligente, e extasiante nos momentos íntimos, esquecera por duas vezes seguidas seu aniversário, deixava todo o serviço de casa e a labuta com as finanças e os filhos para ela e não se importava nem um mínimo com a opinião alheia. Tudo bem que era um artista, alguém diferenciado em relação à massa, só que exatamente por isso precisava cuidar de sua imagem pública. Sempre o apoiara, mesmo nos anos em que o reconhecimento não viera, pois escrevia e já havia publicado sua primeira obra quando se conheceram, contudo não podia se sacrificar tanto, afinal não era só uma dona de casa como tinha responsabilidades pesadas em seu escritório de advocacia.
   Anna era pouco mais baixa do que o esposo, cabelos pretos cacheados e grandes olhos negros, uma morena de semblante compenetrado e palavras firmes. Seus discursos tinham sempre começo, meio e fim, ao contrário das falas e textos assistemáticos de Joshua, e possuía um grande poder de persuasão, que não funcionava tão bem apenas com seu marido.
   Costumava comer pouco por estar sempre de dieta, tendo ficado só um pouco acima do peso após a segunda gravidez. Regulava muito também a alimentação das crianças, no que Joshua era contrário: “Você não precisa exagerar desse jeito. A criança não pode ser obesa, mas não tem problema se for um pouco gordinha. Eu mesmo fui cheinho e depois enxuguei! Não dá claro pra eles abusarem das frituras, mas um pouco a mais de lasanha não vai matar ninguém.”, ela não queria saber dos argumentos dele, e seguia do seu jeito. Como Joshua não era fã de discussões, preferindo estar em paz, não se opunha com veemência quando discordava e procurava com frequência o silêncio, o que a irritava ainda mais. Anna via seus argumentos se perderem ao vento, nunca o dobrava, por mais que “vencesse” algumas discussões, e quando o notava aéreo, pensando em seus livros ou em alguma outra coisa distante que ela tentava saber o que era, mas não conseguia descobrir, saía do sério: “Você prestou atenção no que eu disse ou eu estava falando com as paredes?”
   Em termos de gostos, os dois tinham bastante em comum. Gostavam de literatura, de espiritualidade, e durante o namoro haviam inclusive praticado yoga juntos e Joshua lhe apresentara os antigos textos de sabedoria que eram algumas de suas fontes de inspiração, como os Upanixades, a Bíblia, a filosofia de Plotino e alguns poemas e histórias zen-budistas. Com o tempo que Anna fora se interessando mais exclusivamente pela vida prática, tomada pelo direito e abandonando o aspecto espiritual, que passara a ser um interesse meramente intelectual, distante.
   Deixaram de fazer muitas coisas juntos, o que o entristeceu, mas buscou aceitar a mudança, ao mesmo tempo que, sem perceber, de forma inconsciente, foi perdendo o interesse na companheira, que vivia lhe falando de processos e causas enroscadas.
   Por estes e outros motivos, com as férias do escritório, o casal decidiu aproveitar o tempo para viajar e voltar a fazer algumas coisas junto. Pena, ele lamentou, que ela não estivesse com a cabeça tão fresca ainda.
   A nave em que se encontravam, a Canaan, um grande ônibus espacial cilíndrico que era como um hotel em seu interior, estava indo para Marte, que fora colonizado pela civilização terrestre naqueles tempos. Não se podia falar apenas em humanidade terrestre, pois após o fim da guerra entre os reptilianos do interior do planeta e os humanos, que ofereceram sua resistência, as duas espécies chegaram a uma coexistência pacífica, ao menos exteriormente, o que era visível na Canaan: os tripulantes de pele verde ou azul escamada, sem nenhum fio de pêlo ou cabelo, seus olhos lembrando os de cobras ou crocodilos, alguns exibindo suas caudas, dificilmente cumprimentavam os humanos ou eram cumprimentados por estes. O casal Christiansen era dos poucos cordiais com os reptilianos e nem sempre, devido ao mútuo preconceito, recebiam em troca o mesmo tratamento.
   Após o período da grande crise, a face da Terra, que se tornara um planeta bem mais frio, mudara de maneira drástica. Algumas terras submergiram, outras reemergiram, tanto que Voynich, o país de onde vinham e a principal potência da civilização na época, apresentava em suas metrópoles ruínas atlantes de mármore e oricalco entre os arranha-céus mais modernos.
   Prevalecia o tráfego terrestre, com carros que se moviam sobre colchões de ar, e o trânsito nas grandes cidades era bastante caótico; contudo, ao menos o transporte público era dominado pelas aeronaves, o que minimizava a turbulência urbana.
   O restaurante da Canaan, por sua vez, apresentava um ambiente de refinação esteticista e um certo esnobismo que incomodava Joshua. Quando o escritor, parecendo sem jeito com os olhares que recebia, se levantou para ir ao banheiro e, todo atrapalhado, tropeçou na toalha de mesa e deixou cair tudo no chão, Anna levou as mãos ao rosto e meneou a cabeça para os lados, desaprovando o desastre sem conseguir falar nada, ao passo que os filhos do casal riram.
   Walter e Luna adoravam seu pai, principalmente a menina, de seis anos, bastante mimada (a “pulguinha sardenta” de Joshua), e que, como a mãe vinha dizendo, estava ficando respondona. O garoto, que era mais moreno do que a irmã, tendo puxado mais a Anna nos traços, recém-completara onze anos, gostava de cantar e tinha uma boa voz, tendo chegado a participar de um programa infantil de talentos alguns meses antes e alcançado as semifinais. No momento, férias à parte, estudavam em período integral; e, enquanto Anna se interessava pelos deveres de casa e pelo rendimento escolar, Joshua os “deseducava”, incentivando as brincadeiras e as atividades criativas, estimulando o talento do filho para a música e o da filha para o desenho. A esposa não chegava a se opor nisso, afinal as crianças precisavam de momentos de diversão e distração e possuíam mesmo dons especiais, tanto que fora ela que levara Walter à televisão, só não aprovava que o tempo do lazer excedesse o do dever. Uma carreira de cantor ou de desenhista nunca seria tão segura quanto uma no direito, na medicina ou na engenharia, isso do seu ponto de vista. Precisava zelar pelo futuro do seu casalzinho, já que o casal adulto não ia assim tão bem.
   “Que papelão hoje! Às vezes não acredito como você pode ser tão atrapalhado. Você é culto, educado, trata bem todo tipo de pessoa, mas como mete os pés pelas mãos! Precisaria ser menos disperso. Hora de pensar nos seus livros é hora de pensar nos seus livros, hora do jantar é hora do jantar. Você que medita tanto, não consegue ficar atento?”, discutiram quando foram para seus aposentos no ônibus espacial, um apartamento amplo, onde seu quarto, com direito a uma cama ampla e confortável, repleta de almofadas, um ambiente perfumado com suavidade, estava bem separado do das crianças.
   “O trabalho criativo é diferente de qualquer outra coisa. Me vêm uma cena, uma ideia, um personagem, e não consigo sossegar enquanto não coloco tudo no papel. Tem horas que penso que é como uma doença, ou uma maldição. Não tem como conter, e nisso fico aéreo, pensando no momento em que vou poder trabalhar, e angustiado pelo medo de perder o que pensei.”
   “Não vá me dizer que trouxe o seu computador!”
   “Bem que pensei em trazer escondido, mas, com medo de levar uma surra, trouxe só um caderno...”
   “Você não toma jeito mesmo!”, terminaram rindo da situação e se entendendo no calor dos corpos; ela não conseguia conter a paixão que conservava pelo marido, que conhecia os segredos e caminhos de seu prazer como ninguém, e Joshua resolveu pedir desculpas ao final do ato, após um período de silêncio, olhares e carícias:
   “Sei que ando um tanto negligente, afinal um casamento não é só sexo e interesses em comum, é saber ouvir e dividir problemas, é deixar um pouco de lado o que é nossa diversão individual, que no meu caso é a escrita, pra compartilhar do mundo do outro. Por isso estou pedindo desculpas pelos últimos tempos, e acho que essa viagem vai nos fazer muito bem.”
   “Não se preocupe, meu querido. Também tenho sido imatura, pentelha, exigente demais, criticado você em excesso, cobrado em horas que não devia; mulher é assim mesmo, meio dodói! Mas você é o único homem que me cativou, nunca senti nada parecido antes de te conhecer. Você não toca só o meu corpo, toca diretamente o meu coração. É que fico com medo de você perder o interesse em mim, por isso toda a cobrança. Sobre você ser atrapalhado, mil vezes um homem que tem bom humor do que esses advogados sérios e sisudos com quem convivo no trabalho.”
   “Falhei muito com você, e isso deve ter passado a impressão de falta de interesse.”, ele estava se sentindo um pouco culpado. “Mas acho que é natural em todos os relacionamentos um período de crise. A nossa está um pouco longa, mas vai passar.”
   “Quando um relacionamento sai de uma crise, fica mais forte, e tenho certeza que será assim com a gente. Se você perdeu um pouco do interesse em mim, mesmo que seja pouco, e que não admita, não adianta fazer essa cara, vou lutar pra recuperar isso. Vamos voltar a fazer atividades juntos. O erro mais grave da maioria dos casais está em deixar de namorar, de se curtir.”
   “Vamos determinar a partir de hoje uma virada para o nosso relacionamento. Não vale a pena deixar pra amanhã.”, seria um período de reconstrução.
   Contudo, quando a Canaan acabara de chegar em Marte, e se aproximava do espaçoporto de Arash, uma das principais cidades-estado do planeta, de maior população e economia, outras duas naves, menores, mas sem tripulação, que eram na verdade duas bombas voadoras, de formato oval, surgiram de forma imprevista e atingiram em cheio o luxuoso ônibus espacial. Não haveria nenhum motivo para atingi-lo, um veículo que se limitava a transportar civis de um planeta para o outro. Só que a explosão ocorreu e foi violenta, o fogo desta de um vermelho brilhante e ofensivo similar ao que o céu de Marte, em seu crepúsculo, apresentava naquele momento. Os destroços caíram sobre os habitantes apavorados da cidade, que além dos edifícios altos e do rubor dominante apresentava belas áreas verdes, algumas das árvores elevadas infelizmente atingidas pelos pedaços incandescentes da Canaan. Qual o destino da família Christiansen? Ante um desastre daquela amplitude, nenhum sobrevivente seria a resposta mais lógica. Joshua, Anna e as crianças deviam estar dormindo no momento do terrível impacto, entre sonhos de formas e vozes confusas.

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