sábado, 21 de dezembro de 2013

Entre cristais e mundos


Ao abrir seus olhos, Merlin, o mago, não estava mais em seu corpo físico. Despertou de frente para si mesmo preso em seu túmulo de cristal. Estaria realmente morto? Ou simplesmente com o espírito exilado de seu corpo por um tempo indeterminado? Talvez até ocorrer uma grande hecatombe, quando o maior de todos os tremores já enfrentados racharia os cristais da caverna; então, talvez depois do mar engolir a gruta, poderia voltar a caminhar entre os vivos, embora por outras e diferentes terras. Ou seu encaixe de retorno não seria rápido o bastante e seu corpo antes acabaria esmagado pelas rochas do desmoronamento, e nunca mais circularia pela Terra? Certeza apenas que ali sua carne não iria se decompor, e diante das dúvidas só lhe restava aproveitar o que tinha à disposição, e não era pouco: a vastidão do mundo espiritual, a imensidão das realidades para além da matéria; nada que fosse físico deveria realmente distraí-lo.
Contudo, ao olhar para a gruta ao redor, os cristais o cativaram como nunca: estavam com um brilho distinto das outras vezes; ainda que sem acesso aos céus, pareciam reproduzir as estrelas tanto em sua superfície como em sua profundidade. O lugar era de aparente pequenez se comparado à infinitude do universo que o mago tinha para explorar agora: mas ele também sabia perfeitamente que no pequeno se encontra o grande, e que no microcosmo se oculta o macrocosmo. É uma questão de olhar e desvelar.
Ao pensar em Nimue, a Dama do Lago, não conseguiu nem remotamente alcançá-la; sentiu-a muito distante. Talvez não quisesse ser alcançada; ou o mago não tinha no momento a permissão para chegar a ela.
Silenciou; e decidiu deixá-la em paz.
Seu pensamento então deslizou para Artur, do qual não tivera como saber mais nada durante seu adormecimento. Viu em um dos cristais o que já imaginara: a queda de Camelot e sua morte. Uma tristeza indolente apoderou-se de Merlin nessa hora, um desânimo melancólico por mais uma vez lhe ser esfregado na cara o quanto todas as coisas e projetos humanos são frágeis, mais do que transitórios, por belos e nobres que pareçam. Todo o trabalho que tivera em vão? Antes de entrar na caverna com Morgana, sua sabedoria já lhe indicava o fim de Artur. Talvez principalmente por isso fora com ela, o encanto feminino não sendo a maior das razões, tentando escapar de testemunhar diretamente a queda de seu filho espiritual. Testemunhou-a já ocorrida, à distância no tempo e no espaço, e isso talvez pudesse amenizar um pouco a sua dor.
Todavia, independentemente do lugar e das horas, a verdade era que a lembrança em seu peito do filho de Uther e Igraine batia junto com seu coração. Só não pretendia ir agora em busca de seu espírito, e nem do de Morgana. Aliás, com receio de reencontrá-los logo, terminou decidindo ficar por ali em silêncio, e tentando não enxergar mais nada pelos cristais. Se pudesse, teria fugido de si.
Entrementes, tudo naquele lugar não pararia mais de reluzir, o que foi se intensificando, até que uma extraordinária luz envolveu o mago, transitando entre todas as cores possíveis, a começar pelo branco; ao ricochetear em seus olhos astrais, foi se espalhando por todos os cristais da caverna, encontrando seu máximo fulgor ao tocar a tumba transparente em que o corpo de Merlin se achava. O próprio se percebeu cego, e na sequência se sentiu suspender no ar, indo depois para muito além do teto da gruta, passando para os céus, e então para o espaço sideral; viu passarem cometas, e planetas, e estrelas; não havia opção que não se entregar ao que havia. Em seu êxtase, compreendeu o real funcionamento do Cosmo e o quanto os homens estavam e por muito tempo estariam distantes dessa sabedoria. Todo o conhecimento humano seria por demais pobre e limitado mesmo nas teorias e observações aparentemente mais atentas e complexas que eram e seriam feitas. A Terra e o Sol, inclusive, eram muito pequeninos. Nada podia ser fixo; e os giros eram inacreditavelmente amplos.
Diante dos buracos negros e brancos e dos inúmeros portais, um espelhar dos deuses, se deu conta que existiam milhões de outros universos, afastados no tempo e no espaço. Aceitou mergulhar em um destes, não soube a que distância e em que futuro; seria mesmo no futuro? Ao se deparar com o que não era mais escuridão e estrelas, ficou um pouco assustado: não tivera medo de se perder na imensidão cósmica, mas teve medo de um estranho mundo de humanos em que estes se locomoviam em multidões e ao menos no que testemunhou não lutavam tanto fisicamente entre si, porém o combate mental e espiritual era intenso. Muitos não usavam seus pés, presos em estranhas carruagens de metal que iam à frente sem necessidade de cavalos e que liberavam fumaça. Não lhe pareceu que utilizavam magia, pois não sentiu nenhum espírito nelas.
Aliás, quase ninguém na multidão parecia possuir espírito: a magia estava morta; eram como autômatos de carne e ossos que balançavam feito formigas em um globo de vidro que aparentava solidez, mas que a qualquer instante poderia rachar, e as águas superiores cairiam em um impiedoso dilúvio.
A primeira cidade que viu foi sob um sol de verão, opacado pela fumaceira, mas nem por isso menos cruel; seus feixes desciam com ira, como que muito aborrecidos após vararem a poluição à força, castigando a pele dos pedestres feito um ácido expansivo nem tão visível com as cabeças baixas, mas do qual era impossível se desviar.
Passou a seguir para outra, chuvosa e tristonha, já com a noite estabelecida. Nesta, foi vagando entre diferentes janelas, presenciando diferentes cenas, pouco se detendo, entre brigas corriqueiras de casais, avós adoentadas, mães saudosas, pais entristecidos, filhos depressivos ou rebeldes. Só parou ao reconhecer, isolado em meio a estas pessoas, um solitário, que já não devia mais ter mãe e pai e muito menos avó, e nem tivera filhos. Não se tratava porém de um solitário qualquer; nunca confundiria aquele rosto com outro: era Artur, com sua barba e seus cabelos ruivos, por mais que os trajes fossem bem diferentes, adaptados ao novo lugar e à nova época. Usava uma calça social marrom e uma camisa branca, que acabara de ser manchada por respingos do gole de uísque, a garrafa quase vazia na mesa ao lado da qual estava sentado, o copo desproporcionalmente grande recém-esvaziado, sem gelo. Apenas um de seus pés estava revestido por um sapato, o outro descalço. Logo Artur pareceu se enfadar com o solilóquio do calçado e, após lhe lançar um olhar caído, de olheiras ardidas, retirou-o e lançou-o para perto do outro. Ficaram jogados num canto da sala. Eram sapatos de marca, apesar dos maus tratos sofridos.
Este outro Artur, que deixou Merlin perplexo, parecia dividido entre a tristeza, a raiva e o tédio; evidente que se tratava de um fracassado, que não demorou para esvaziar de vez a garrafa de uísque puro malte, no caso um single malt de qualidade, um habilidoso solista. Pelo chão, alguns charutos apagados; e no ambiente a música que tocava era um velho jazz, o volume moderado.
Uma vez não havendo mais bebida na mesa, foi buscar outra em sua adega caseira. Para sua amarga surpresa (o que na verdade não deveria ser tão surpreendente, levando-se em conta o quanto vinha bebendo todos os dias), não havia mais nenhuma.
Nessa hora a fúria prevaleceu na disputa interna, e após alguns instantes em que permaneceu com esta contida, seu corpo ainda não expressando o que em sua mente já explodia, sua respiração tensa e curta, seus olhos vermelhos, disparou em direção à mesa, pegou a garrafa vazia e jogou-a contra a parede. Em seguida, foi até o aparelho de som e o retirou da tomada, indo ao chão, as mãos esparramadas sobre o piso do apartamento, entre lágrimas abafadas.
Mas o que é isso que estou vendo? Não pode ser real. Esse rosto é o de Artur, mas não pode ser ele. Devo estar projetando o rosto dele neste homem.”, pouco depois a porta se abriu, e quem despontou, para a segunda surpresa do mago, era Guinevere, que estava em trajes mínimos, vulgares, acompanhada por um homem...Lancelot, de paletó, camisa e gravata.
- É sempre assim, como eu tinha te contado. Agora você está vendo que não exagerei: ele bebe demais, e depois fica aí caído, desabado no chão. Te avisei que não precisava ficar com medo. É só um bebum inofensivo!- Disse ela ao amante, cuja expressão exalava um ar de indelével sarcasmo. A essa altura, apesar dos olhos entreabertos, Artur quase que não enxergava mais nada, sua consciência diluída pelo álcool. No dia seguinte, o que estava “vendo” não passaria da sensação de um sonho vago. Como toda sua vida naquela realidade vinha sendo: um devaneio nebuloso e disperso, acompanhado por uma constante dor de cabeça.
- Mas que decadência! Alguém que pretendia ser primeiro-ministro, reduzido a uma condição tão deplorável!- Foram as primeiras palavras do Lancelot.
- E eu, que iria ser esposa do primeiro-ministro? Apesar que grande coisa...- A expressão de Guinevere era de um desprezo debochado e amarrado.
- Seja bem sincera comigo: você prefere mesmo a vida de garota da noite, não prefere?
- Me dá mais lucro do que quando era mulher de um frouxo aspirante a político.
- Uma das coisas que mais gosto em você é esse seu jeito, que não deixa passar uma! Achei muito incrível quando disse que ia me trazer na sua casa! Fiquei um pouco receoso, mas mais do que isso achei muito excitante, me imaginei transando com você e o seu maridinho vendo tudo. Meu receio era que ele fosse mais bravo do que você dizia.
- Felizmente pra você ele é bem manso, mas infelizmente ele não vai ver nada. Ele mal está vendo a gente! Imagina se vai levantar daí pra ir pro quarto, e ficar de pé pra olhar pra cama. Você está pedindo demais.
- Caramba! Você é mesmo uma vadia muito cara de pau! Nunca seria esposa de um primeiro ministro!- E agarrou-a pela cintura, trazendo-a para bem perto de si; o encontro dos olhos produziu a fricção necessária para a fogueira.
- Mas bem que você adora!- E beijaram-se, na sequência ele erguendo-a e levando-a em seus braços até a cama do quarto do casal. Deixaram a porta aberta. De qualquer forma, Artur não iria, e adormeceu do jeito que estava, despencado, sonhando com uma praia. Nesta, espalhados pelas areias, milhares de galos mortos. Uma onda vinha, se ergueu, caiu e passou, mas não levou os corpos dos animais.
Merlin, como que escutando um grito em seu coração, decidiu que, se aquele era realmente Artur, iria ajudá-lo; mesmo que fosse outra vida, outra realidade, outro universo, outro tempo, iria intervir, ser seu guia, lhe dar seus conselhos, seu apoio mesmo quando silencioso e arrancá-lo de qualquer lama em que se encontrasse. Não iria permitir que seu espírito despencasse de vez no Abismo.
Contudo, ao atravessar o vidro da janela, entrar no apartamento e tentar se aproximar, naquele mundo apenas um fantasma, um espectro, que não seria visto por Artur mesmo que ele estivesse desperto, o mago foi atacado: uma forte vertigem o atingiu, demorando a enxergar uma sombra de dentes afiados que o envolvera e que o agredia.
Não iria se deixar intimidar pelas trevas: concentrou-se, focou-se em sua magia, e uma luz ofuscante jorrou de sua testa. O inimigo foi desintegrado; no entanto, quando a claridade se foi, o mundo que Merlin testemunhara já se dissipara. Estava de volta às estrelas. E para seu desespero não havia como voltar ao universo que recém-visitara, ao menos não sem uma árdua procura, centenas de vórtices diferentes se abrindo no espaço. Não iria desistir?
É inútil.”, acabou sendo sua reflexão. “Se existem milhares de universos, talvez infinitos, devem existir inúmeros Artures, ainda que não em todos. Não posso salvá-los. Não pude salvar nem o primeiro que conheci, que criei, que instruí. Mas e se o fracassado que testemunhei também tiver sido criado e instruído por mim? Por um outro eu? Quantos Merlins devem existir espalhados pelo Cosmo? Quiçá eu deva ir em busca de meus outros eus. Ou isso só me conduziria à loucura, devendo me focar no que sei que sou, um outro eu sendo na verdade quase que um completo outro, só havendo em comum a aparência, como maçãs cujo exterior é idêntico, mas cada polpa possuindo um sabor peculiar? No fim, ainda que venham da mesma macieira, e sejam todas maçãs, são diferentes umas das outras...”, o outro Merlin que formara aquele outro Artur: seu pai, um astucioso empresário, que o convencera que tinha futuro na política, projetando no filho único a realização que não lograra; se não pudera ser primeiro-ministro, seu filho seria! E estaria ao seu lado, dirigindo o país, conduzindo os rumos da economia. Salvariam a nação quando ela mais precisasse, nos tempos de crise e recessão, de cortes de gastos e miséria anunciada, conduzindo-a a uma nova era de prosperidade. Se recorrer à guerra fosse preciso, recorreriam...
Contudo, após a morte repentina do pai, o filho perdera o rumo, dilapidando seu patrimônio; a liberdade o conduzira à perdição, sua esposa se dirigindo para outro precipício, que não deixava de representar uma terrível queda.
Merlin acabou tendo o pensamento interrompido pela passagem do que lhe pareceu um relâmpago; era outra coisa: uma espaçonave incrivelmente rápida, cuja matéria se desmancharia, e talvez fosse se tornar algo de fato como um relâmpago, se sua velocidade aumentasse mais um pouco. A princípio o mentor do rei Artur não conseguira ter uma noção do que era, aos poucos vindo-lhe à mente as informações de que se tratava de um veículo tripulado, como um navio que sulca os mares: a maior diferença residia por onde a nau viajava. E os seres em seu interior não eram humanos, e nem de qualquer espécie que Merlin conhecia.
Bilhões de trilhões de criaturas; o universo é incrível! Ou melhor, os universos, que vão muito além de qualquer crença, de qualquer concepção!”, e olhou mais detidamente para um vórtice que percebeu que abruptamente crescera, e que após o olhar do mago continuou crescendo, até absorvê-lo: no rodopio, o homem se transformou em energia, e assim rumou para outro mundo, para uma nova realidade, onde rei e mago teriam outras participações.


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