segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Trecho de um capítulo de "Einherjar" - Olhos no nevoeiro



Olhos vivos. A velha Groa, uma das mais respeitadas volvas de todos os mundos, estava naquele momento em um escuro labirinto de árvores, dirigindo-se para o centro da floresta noturna.
Trazia consigo um cajado de madeira perfumada, cravejado com pedras de diferentes tipos e cores. Nestas estavam gravadas runas, ao passo que a escultura de uma cabeça de águia dominava o topo do bastão.
Não o usava para apoiar seu corpo, que apesar da idade avançada, mais de cem anos, seguia firme e ereto, suas pernas de experiência vigorosa às vezes visíveis quando sua túnica negra e esfarrapada era sacudida pelo vento, além de em razão das falhas que a veste apresentava.
As funções do cajado eram mágicas, assim como todo seu corpo estava voltado à prática da magia, cada passo que dava com os pés brancos, descalços e enrugados feito com plena consciência, absorvendo a energia da terra a recebê-los.
Seus olhos faiscavam em um verde enigmático que com frequência escurecia; seu pequeno nariz apresentava duas verrugas na ponta, uma outra, solitária, ao término do queixo; sua boca ainda contava com todos os seus dentes; o pescoço era forte, com as veias bem visíveis; e seus cabelos brancos eram longos e selvagens.
No núcleo que alcançou, estavam reunidas em volta de uma fogueira – fazia frio, apesar de não haver neve – , vestindo mantos azuis, marrons e negros em diferentes condições, com os capuzes jogados para trás, outras bruxas, todas mais jovens, das aprendizes de quinze anos à sua amiga Valga, que fora sua discípula e beirava os oitenta. No entanto, esta aparentava no máximo sessenta se comparada à maior parte das mulheres. Era a mais magra e alta, em torno de seu pescoço uma espécie de xale colorido bordado com motivos rúnicos.
Não disseram nada a princípio, apenas olharam para a maior veterana, de repente Valga liberando um poderoso canto agudo, ao qual foram se juntando as demais. As chamas deram a impressão de se agitar; um vento forte se manifestou, uma coruja foi vista em uma árvore e escutaram-se uivos de lobos e passos na grama.
Groa olhou para o alto, em direção à lua minguante meio que espremida na teia de galhos. O coro foi se extinguindo aos poucos, voz por voz abandonando a melodia, a última a da condutora da cerimônia de recepção, que então por fim se dirigiu à grande volva, os sons da natureza cessando ao mesmo tempo:
- Que bom que veio, minha mãe e mestra.- Aproximou-se e pegou as mãos da mais idosa, que tornou a abaixar a visão e a encarou nos olhos.- Nosso ritual não ficaria completo sem a sua presença.
- Sei muito bem disso. Mas vejo que desconfiou. Como pôde achar que deixaria nossa querida Gredir dar à luz sem minha bênção? Você ainda tem muito o que aprender.- O comentário rouco de Groa não impediu, contudo, que a experiente aluna sorrisse.
Gredir era uma jovem volva de cabelos loiros cacheados, que logo recebeu um beijo na testa, seguido do abraço da grande vidente, que ao que parecia nunca sorrira, pelo menos não em público.
Iriam lançar um galdr coletivo, um extraordinário encantamento que permitiria que o bebê da jovem se tornasse um herói guerreiro, caso fosse homem, ou uma bruxa de extraordinários dotes, se mulher.
Os galdrar, em especial quando feitos por várias bruxas reunidas, produziam efeitos poderosíssimos, que iam desde o que estavam pretendendo realizar a decidir o resultado de uma batalha e provocar tempestades que poderiam afundar uma frota inteira. Um galdr individual, em comparação, provocaria no máximo o afundamento de um navio e a morte ou a sobrevivência dos membros de um grupo limitado de indivíduos que tomasse parte de um combate entre exércitos. Os efeitos eram produzidos graças ao auxílio dos espíritos da natureza, que, embora nem todas as volvas os enxergassem, todas as que deixavam de ser meras aprendizes eram capazes de sentir.
Conjuravam-se as bênçãos e maldições dos deuses em ocasiões mais importantes, como as que envolviam um nascimento. No caso de uma grávida que se tornasse inimiga de uma volva, a amaldiçoada perderia o filho ou a filha que estivesse aguardando e se tornaria estéril.
- Que a grande Freya, a esplendorosa filha de Skadi, ilumine os caminhos desta criança.- Groa disse ao colocar suas mãos no ventre de Gredir; um ritual individual faria da criança um homem valente ou uma mulher de notável inteligência, mas não mais do que isso.
Citar Freya já significava o princípio da evocação, e por isso as volvas deram início a um novo canto, desta vez com palavras que conjuravam a deusa, apenas a mais velha e a jovem grávida em silêncio, a primeira sem retirar suas mãos da barriga a ser abençoada, movendo-as com suavidade sobre esta, a segunda começando a sentir um estranho torpor e a fechar os olhos.
As volvas, também conhecidas como seidkonas, tinham diferentes origens e posições nas sociedades em que viviam. Havia as que se retiravam e passavam a viver como eremitas e viajantes. Em comum, eram iniciadas por suas predecessoras de acordo com o que estas viam nelas e não por questões humanas e materiais. Uma vez descoberta a alma de uma provável volva, esta passava por diversos testes e podia aceitar ou não o chamado, durante as primeiras provas ainda existindo a possibilidade de voltar atrás e desistir.
Podiam manter secretas suas práticas mágicas, expondo à sociedade apenas suas atividades mundanas. Só não era sensato que transcurassem, depois de iniciadas, suas responsabilidades para com os outros planos da existência e as demais irmãs.
No caso de Gredir e Groa, a jovem pertencia a uma família nobre do reino de Wessex, enquanto a idosa volva nascera camponesa, em um reino de pequena expressão que sequer existia mais, seu potencial descoberto em uma manhã em que estava recolhendo rosas, que haviam despontado próximas de uma gruta onde vivia uma velha decrépita. Ainda era uma menina, e estava aproveitando a primavera; ia todos os dias atrás das flores e colocava-as em sua cesta. Até que viu a bruxa: terrivelmente enrugada, os cabelos sujos e desgrenhados, cega de um olho, seminua, o corpo esquelético repleto de cicatrizes e manchas. Uma visão horrenda. Mas a menina só largou a cestinha, não conseguiu fugir. Suas pernas gelaram e não paravam de tremer. Pensou que se tratasse de uma bruxa maligna, das que seus pais faziam questão de dizer para manter distância, pois segundo eles estas se alimentavam de crianças.
No entanto, a bruxa se aproximou devagar e seu sorriso, apesar da boca suja e desdentada que emitia um hálito tremendamente desagradável, era de uma ternura e um carinho tamanhos que a garotinha perdeu todo o medo. Entregou-se por completo, sem racionalizar, à existência luminosa que existia dentro da casca pútrida. Desde aquele dia, nunca mais veria sua mestra, a grande Thorbjorg, como uma velha horrível, e sim com uma belíssima donzela. Nem sentiria o odor desagradável que os outros comentavam a seu respeito.
No presente, Groa vivia na única casa ainda habitada em um vilarejo fantasma, que, no entanto, não tinha mais sequer fantasmas, pois a volva expulsara todas as almas penadas daquela região árida, os ventos que sopravam ali sempre carregados de pó.
Recebera meses antes, pela boca de um corvo, a carta enviada por Valga, que lhe avisara que Gredir, que a velha conhecia desde criança e considerava uma neta querida, agora carregava uma semente em seu ventre. O local e o dia do encontro estavam marcados e a experiente bruxa sabia exatamente o quanto iria demorar a chegar, não partindo antes do necessário.
Volvas podiam cobrar caro por seus feitiços e previsões; porém Groa se negava a vender seu dom a um alto preço e assim prostituí-lo, apenas aceitando algumas moedas para ter o que comer e beber.
Recebia com frequência visitantes ansiosos por seus conselhos. Por isso pendurara em sua morada, após partir para o ritual de bênçãos ao bebê de Gredir, o aviso que estava em uma importante viagem e que só voltaria dentro de alguns meses.
Dirigia-se pouco a cidades grandes, pois detestava aglomerações. Só ia à mais próxima para comprar mantimentos, em seguida retornando à sua residência. Não atendia ninguém fora dela, inclusive porque já fora imantada por sua vontade e sua energia, o que potencializava os efeitos de seu trabalho.
Na cerimônia de bênçãos, que não deixava de ser o mais belo trabalho das volvas, havia diferentes funções: uma, entre as que cantavam, acariciava seu colar de pérolas enquanto liberava a voz; outra espalhava pela terra o pó de um saquinho que carregara em seu cinto; uma terceira jogava ao fogo pedaços de carne seca.
Quando Groa começou a cantar que toda a energia do ambiente se modificou: a voz da velha não parecia pertencer a ela, de uma potência aterradora; os lobos não apenas foram ouvidos como desta vez vistos, circundando as praticantes, que não os temiam de forma nenhuma, pelo contrário, os recebiam com júbilo.
Gredir perdeu a consciência, acolhida pelos braços da idosa, que enfim tirou suas mãos da barriga da jovem. Os que andavam na terra e na grama se revelaram, a princípio como olhos luminosos despontando na escuridão, depois claramente visíveis a quase todas, como pequenos vultos pelas que tinham a visão espiritual menos desenvolvida.
Eram tímidos coboldes. Que aos poucos foram se soltando, cantarolando e dançando. A princípio sérios, não demoraram a sorrir. Vestiam capuchos, alguns discretos, marrons e pretos, outros de cores vivas. Seus rostos eram como de velhos velhíssimos, só que em lugar de pele e carne seu material semelhante a uma casca de árvore; suas barbas, cabelos e bigodes vegetais, de folhas ou raízes. Uma parte trazia consigo pequenos cajados e varinhas. Os maiores chegavam aos joelhos das mulheres.
Groa sabia serem estes não os coboldes domésticos. Auxiliares que muitas bruxas tinham por perto para ajudá-las em suas atividades: traziam água, cortavam lenha, contribuíam para a limpeza do lar; todas ações que ela, na verdade, preferia executar sozinha, mantendo seu corpo em forma.
Aqueles, como denunciava o brilho subitamente incandescente das pérolas da volva do colar, eram os pequenos membros do cortejo de Freya, que estava para chegar. A carne seca nas chamas já fora completamente consumida.
Não teve como não se lembrar da experiência mais extraordinária que tivera em seu passado, quando despertara todo seu poder latente, poucos dias antes de sua mestra partir para o outro mundo.
Naquela oportunidade, numa época em que era loira e mais robusta, o rosto redondo e a expressão sempre compenetrada, realizara uma cerimônia de sexo ritual com Baugi, o único indivíduo do sexo masculino que fora assumido como discípulo por sua instrutora e que viria a se tornar um seidmadr.
Estes eram homens treinados pelas volvas em seu método mágico, o seidr, e que desenvolviam as mesmas habilidades destas, raros, pois só eram admitidos os que possuíam uma tremenda energia sexual, uma extraordinária virilidade. Não lhes era permitido, entretanto, que a dispersassem em pensamentos e atividades luxuriosas, em seu aprendizado desenvolvendo o controle do desejo.
O intercurso fora interrompido após uma hora sem que nenhum dos dois chegasse ao ápice. Então entregue a Groa uma poção, composta a partir de diferentes ervas, de coloração escura, e muito amarga. Produzia diversos efeitos espirituais, aumentados, segundo se dizia, pela atividade sexual sacralizada. Não deveria ser ingerida por não-iniciadas e não-iniciados, correndo-se o risco da loucura.
Não demorou para a volva, esparramada nua na grama de uma planície, seu corpo mais quente do que nunca, velada por seu companheiro e por sua mestra, que ficaram por perto durante seu êxtase, começar sua viagem ao olhar para o céu de lua cheia.
Naquele tempo era apaixonada por Baugi, que tinha sua mesma altura, porém o considerava muito mais elegante ao andar e falar, mais magro, os cabelos loiros volumosos e revoltos, a barba bem-feita, os olhos um par de astros azuis; esqueceu-se até mesmo dele quando seu espírito migrou para o alto. Subiu com seu Fylgia, seu corpo astral, graças ao qual poderia enxergar uma realidade inacessível para a esmagadora maioria dos mortais.
Primeiramente, uma flor multicolorida encobriu a lua, abrindo-se nas trevas. Aos poucos, as pétalas foram mostrando nervuras, que uma vez que rasgaram os limites aos quais estavam restritas se transformaram em galhos. A flor revelou ser na verdade uma árvore, que era por si um universo: Yggdrasil. A volva projetara-se abruptamente para fora deste, a árvore que compreendia nove mundos dominando uma ilha suspensa na escuridão informe de Ginnungagap, o abismo primordial sem fundo.
Acima de Yggdrasil, uma nuvem de luz, que gerara os sóis e as luas dos diferentes mundos e que continuava a dar vida a estrelas que depois se afastavam; fazia às vezes cair chuva e orvalho e, ora sobrevoando seus arredores, ora pousando na copa, na qual se inseria o jardim de Idun, havia um imenso animal místico, uma águia de penas flamíferas e olhos e bico dourados, que se alimentava da claridade. Pouco abaixo, Asgard, o mundo dos deuses, terra natal dos aesires, com seus dois sóis.
Naquela terra de maravilhas celestiais, a visão da volva encontrou primeiro o Vingolf. Tratava-se de um palácio reservado às reuniões das divindades femininas, postado sobre uma montanha de ventos em constante movimento. Mantinha-se ali, sem solidez onde se firmar, por meio do poder misterioso da magia divina. Parecia feito de um vidro forte, sua coloração não estática, mudando diariamente, conquanto em tons de harmonia. Uma música sublime pairava por seus salões, não havendo um trono central. As deusas se reuniam em diferentes assentos vítreos.
Naquele momento estavam por lá Frija, Skadi e Sif. A primeira, esposa de Odin e rainha dos deuses, dera com o marido continuidade à família divina dos aesires, ao passo que Skadi e Njord haviam sido os primeiros deuses vanires.
Alta e majestosa, de cabelos loiros lisos que percorriam quase a totalidade da extensão de suas costas, trajada com um longo vestido branco e com penas de falcão e gavião respectivamente à esquerda e à direita de seu diadema, em cujo centro estava esculpida a imagem de uma roda, a consorte do grande rei de Asgard trazia em sua cintura um molho de chaves, empregadas em sua refinada magia. Tinha também um palácio particular no mundo dos deuses, o Fensalir, que ficava no centro de um pântano de aparência hostil, semioculto no núcleo de uma gigantesca flor semelhante a um lótus. Por fora, estava coberto de lodo e vegetação pantanosa, enquanto que por dentro surpreendia em cada detalhe, com cachoeiras internas que pareciam ser de ouro líquido e taças de ouro que podiam ser retiradas de dentro dos caldeirões de hidromel, bastando se pensar nelas para usá-las, além de assentos flutuantes sobre águas cristalinas onde cada mergulho dado proporcionava um êxtase distinto.
Frija com frequência tinha visões do futuro, mas, ao contrário de outras videntes, humanas e divinas, preferia manter seu silêncio a relatar o que via, represando sua angústia e seu medo, como na ocasião em que vislumbrara seu marido gravemente ferido em uma batalha futura contra Fenrir, o lobo demoníaco. Carregava uma tênue esperança que suas premonições negativas não fossem se confirmar se não falasse sobre elas, como se travar o verbo pudesse bloquear também os acontecimentos, porém até então só lhe restava se surpreender com considerável temor a cada vez que o que parecia matéria de sonho se tornava fato. Era uma deusa reservada e seu esposo aprendera a respeitar este seu modo de ser.
Embora não revelasse o conteúdo de suas visões, a única com a qual se abria sobre seus receios e aflições relacionadas era Fulla, uma de suas três filhas que cuidavam do Fensalir; as outras duas eram Hlin e Gna.
Tinha tanta confiança em Fulla que lhe permitia ser a guardiã de suas chaves mágicas quando não podia levá-las consigo, mantendo-as em uma caixa de madeira de freixo.
Fulla era, por sua vez, uma deusa de trejeitos contidos e rosto cheio. Usava uma tiara dourada que às vezes se confundia com seus cabelos e não podia ser subestimada em batalha, especialista na magia do canto e da voz. Para a mãe cantava somente para acalmá-la e ajudá-la a dormir, proporcionando-lhe sonhos tranquilos. Tivera um envolvimento com Freyr no passado, restando para ambos uma calorosa amizade e uma numerosa prole.
Hlin, que nunca engravidara, apresentava cabelos ruivos que lembravam mais rosas do que chamas. De semblante delicado e personalidade serena e compassiva, de dentro do Fensalir escutava os lamentos e as tristezas dos homens, aos quais enviava com sua intenção bons sonhos e pensamentos de esperança para apaziguar seus corações. Contudo, na guerra devia ser respeitada e até mesmo temida, hábil o bastante com sua lança para perfurar até os pensamentos dos que eram mais fracos do que ela e enlouquecê-los.
Gna, de cabelos esmeraldinos, gostava de andar pelos arredores do Fensalir com seu cavalo dourado Hófvarpnir, que como Sleipnir possuía oito patas e podia andar sobre o ar e as águas, só não podendo entrar em Niflheim. Um pouco menos veloz do que o corcel de Odin, tinha pavor de espectros e névoas frias. Gna já apostara corrida equestre com seu pai por diversas vezes e sempre perdera, embora por uma pequena diferença. Às vezes era encarregada por Frija de cumprir certas missões externas, deixando o palácio.
Quanto a Skadi, apesar de ser a matriarca dos vanires, não aparentava menos juventude do que suas filhas, com um corpo de caçadora e uma face de inefáveis encantos. Os olhos eram da coloração de um céu ensolarado; os cabelos loiros longos lisos na frente e enrolados atrás. Passava a maior parte do seu tempo nas montanhas de Asgard e Vanaheim, o mundo original dos vanires, onde se dedicava à caça, manuseando sua lança e seu arco, no qual se materializavam flechas do material que desejava. Contudo, nenhum animal permanecia morto quando atingido por suas armas. Revivia segundos depois, mais forte e sadio. E a deusa o abençoava a seguir. Sua prática servia como um treinamento para os confrontos contra gigantes e demônios.
Ao contrário do que certos homens acreditavam, não possuía nenhum parentesco com os jotnar, lendas sendo criadas a respeito por já ter cultivado boas relações com um ou outro, como Aegir e Tjazi. No entanto, esta última especificamente fora rompida após o gigante elaborar uma trapaça com Loki para obter Idun, pela qual se apaixonara. Disso decorrera um distanciamento da deusa quanto a todos os jotnar.
Quando contemplava o céu, Skadi às vezes se entregava de tal forma que se percebia como se fosse o próprio, sentindo em si as nuvens e os pássaros; não por acaso Ondurdis, “donzela dos céus”, era um de seus epítetos.
Tinha uma postura altiva e um semblante tranquilo e confiante, de sorrisos seguros. Seus passos eram os de alguém que sabia sempre onde queria chegar. E suas roupas, embora fossem geralmente trajes de caçadora, possuíam diversos ornamentos e aspectos sofisticados, ao passo que Sif, a esposa de Thor e irmã de Freya, parecia mais introspectiva, às vezes melancólica, e se vestia com simplicidade, conquanto seus cabelos de tranças douradas e seu cinto de ouro repleto de pedras preciosas reluzissem de tal forma, não só para os olhos, como para o espírito, que era impossível para quem os visse cogitar que alguém que não fosse uma grande deusa pudesse possuí-los.
Quando desejava, Sif podia fazer brotar, à sua passagem, uma farta vegetação em campos desertos; na neve, conseguia fazer surgir as flores mais delicadas e que duravam por um longo tempo. Ao fazer amor com Thor, era frequente raios de prosperidade raramente visíveis aos homens descerem até Midgard e contribuírem para acelerar o amadurecimento dos grãos e intensificar a fartura das colheitas. Se uma família estivesse em desavença quando caísse em suas terras um desses raios de amor, as discussões chegariam a um fim, os desentendimentos seriam solucionados e os irmãos ou pai e filho chegariam ao abraço, marido e mulher reencontrando em seu leito sua paz.
Já nos dias em que Sif chorava, o que costumava acontecer por preocupação ou saudades de Thor, caía em Ljosalfheim uma chuva dourada, que os elfos da luz agradeciam porque as árvores começavam a dar frutos maiores e mais saborosos.
No trato pessoal, a esposa de Thor era talvez a mais meiga e amável das deusas Em suas passagens por Midgard, por vezes tomava a forma de uma humilde camponesa e admirava junto com os agricultores as centáureas azuis e violetas que fazia surgir nos trigais sem que eles percebessem; e afora isso era excelente cozinheira, seu pão o melhor de todos os mundos.
Como guerreira, ainda que detestasse a guerra, lutando apenas para se defender ou defender quem amava ou fosse vítima de injustiças que testemunhasse, não deixava nada a dever à sua mãe ou à sua irmã.
Descia para os andares inferiores de Yggdrasil pela ponte que os conectava a Asgard, Bifrost, que se assemelhava a um imenso arco-íris, formada por feixes luminosos e por uma rica pedraria. Em destaque a seu término, já na entrada do reino divino, Himinbjorg, o castelo de Heimdall, o guardião de Asgard, no qual este deus vivia junto com seus guerreiros. Tratava-se de uma construção negra e sombria se vista de frente e branca e rutilante atrás, diferenciando-se consideravelmente do resto da ponte. Possuía nove torres pontiagudas e por suas muralhas espalhavam-se arqueiros vigilantes.
Logo abaixo de Asgard que estava Vanaheim. O mundo onde os vanires haviam surgido, as duas famílias divinas unindo-se em tempos remotos ao término da única grande guerra que os colocara contra os aesires. Desde então, a paz estabelecida, os vanires frequentavam Asgard, embora sem deixarem de governar e visitar Vanaheim, que primava por suas terras de extraordinária fertilidade, com árvores de folhas azuis que mesclavam suas copas ao céu e fontes suspensas que jorravam sem cessar, produzindo rios salpicados de cristais verdes que davam mais vida a seu solo.
Sob Vanaheim que estavam Ljosalfheim, o reino dos elfos da luz, regido por Freyr, e Svartalfheim, o reino dos elfos negros. Muitas vezes considerados erroneamente um só mundo, denominado Alfheim. Mas as diferenças eram evidentes percorrendo-se as terras de um e de outro, o primeiro caracterizado por florestas incrivelmente luminosas, enquanto que as do segundo eram nebulosas e sombrias. Em comum, apenas o fato que as montanhas dos dois domínios transmitiam uma intensa aura de mistério e costumavam ocupar as áreas fronteiriças.
Estavam ambos acima de Midgard, a terra do meio, o mundo dos homens, seu firmamento, por estranho e paradoxal que parecesse, sustentado por quatro anões gigantescos.
O mais acessível dos andares, Midgard era eventualmente visitado por seres de outros planos, ligado a Asgard por uma das ramificações de Bifrost, que porém somente os dotados de capacidades mágicas poderiam ver e percorrer. Aos mundos élficos e a Vanaheim, conectava-se por portais no céu. A Jotunheim descendo-se pelo Deserto da Morte Branca. E a Nidavellir, Muspelheim e Niflheim através de passagens localizadas nas profundezas, em grutas subterrâneas. Contudo, os deuses cuidavam de proteger os homens e os demais habitantes de Midgard de invasões dos planos inferiores. Poucos gigantes e demônios conseguiam ascender e ameaçar as civilizações humanas.
Nidavellir era a terra dos anões. Um mundo obscuro de cavernas, onde não havia vegetação, portanto bastante inóspito para seres humanos e a maior parte das outras criaturas. Ainda assim, havia anões que podiam passar de sete séculos, o que evidenciava sua extraordinária resistência.
Não fazia fronteira com Jotunheim, o mundo dos gigantes da neve e do gelo; e descendo-se mais que se via o andar dividido – de forma muito mais rígida do que ocorria no plano élfico – entre Muspelheim, ou Muspell, terra de lava e chamas eternas, lar dos gigantes do fogo, e Niflheim, gélido mundo de névoas e trevas perpétuas, a morada dos mortos decaídos e de diversos demônios, governado pela temível Hel. Abrangia, portanto, Helheim, sua camada mais profunda e terrível.
Niflheim estava separado de seu vizinho por nuvens geladas que matavam no ato os seres hostis à rainha Hel que tentassem atravessá-las e entrar no mundo sombrio, congelando-os de dentro para fora.
A senhora do submundo não tinha o menor interesse em tentar a conquista de Muspell; inclusive temia aquele mundo quente demais, povoado por gigantes estranhos, de natureza distinta da dos jotnar, que lhe eram mais afins.
A base da Árvore, por fim, era maior do que qualquer um dos mundos, em parte envolvida pelos domínios do sábio Mimir, em parte pelo jardim de Urd. Na grama desta última região, um espaço idílico, pastava a cabra Heidin, amada pelas três nornas, de dimensões comparáveis às de um auroque.
A chuva e o orvalho do alto chegavam até aqui, recebidos pela fonte Urd, belíssimo monumento de um ouro esverdeado, repleto de esculturas retratando deuses, valquírias e outros seres, além de abrigar um par de cisnes, um negro e um branco, que não estavam ali por acaso: as substâncias do firmamento não só se fundiam às suas águas como eram trabalhadas pelos movimentos circulares dos dois pássaros, transmutadas em um hidromel mágico, um delicioso líquido cor de fogo expelido pela boca de uma escultura em forma de dragão, regando as terras circundantes, espalhando-se em veios espontâneos até perto de Yggdrasil, porém não chegando até ela. Por isso, entre outras razões, fazia-se necessária a existência das nornas, que recolhiam as quantidades certas do hidromel e regavam a árvore, fortalecendo-a.
Um ser inteligente, Yggdrasil podia gerar vidas, mas não seria capaz de preservá-las sem a energia que transferia para o ar após absorver e reelaborar o hidromel.
No princípio dos tempos, próxima à Árvore, primeiro surgira a fonte, na época com só uma escultura, a do dragão, criada por uma inteligência superior que Yggdrasil interpretara como sendo a Consciência Suprema, a sábia origem de todas as coisas, que lhe deixara também os cisnes. E só depois de compreender a função da fonte como a sua própria que a Árvore teria gerado a primeira norna.
As três juntas viriam a se tornar as responsáveis, entre outras coisas, pela preservação da existência dos seres criados em seu universo. Sem elas, Yggdrasil ainda sobreviveria, alimentada pela chuva e pelo orvalho. Mas todas as criaturas por Ela geradas, as distribuídas em seu tronco e as próximas deste, pereceriam. Os mundos em Yggdrasil, que não teria força para mantê-los, secariam ou ruiriam. Tudo voltaria a ser como antes da fonte, a grande árvore isolada no centro de um interminável deserto.
As nornas nasceram vegetais, a partir do solo, gradativamente metamorfoseando-se em entes humanoides.
A primeira, Urd, batizada com o mesmo nome da fonte, veio à luz já idosa. Tinha a aparência de uma senhora pacata, alta e de voz mansa, os cabelos brancos curtos e aloirados, as mãos leves, as rugas de seu rosto tranquilas, trajando costumeiramente vestidos longos e de cores claras que recobriam seus pés. Nasceu sabendo o que precisaria fazer, encarregando-se de cuidar da fonte e do paraíso subsequente, que passaria a receber as almas dos justos de Midgard que não possuíssem um espírito forte e guerreiro, isso depois que os mundos já estivessem formados. Assumiu a tarefa de educar estes seres, preparando-os para as encarnações seguintes e procurando fazer com que se perdoassem pelos erros que haviam cometido em suas vidas mais recentes, a fim de terem um renascimento favorável.
Como não pudera dar conta sozinha do trabalho que se acumulava quando Midgard passou a fervilhar, surgiu Verdandi, que se tornou a responsável por auxiliar almas desta mesma espécie quando ainda encarnadas. Sua aparência era a de uma mulher loira e atlética, de longos cabelos lisos, no auge de sua forma física, os olhos púrpuras. Costumava usar uma armadura violeta de retoques dourados, seu elmo e seus sapatos metálicos apresentando pequenas asas nas laterais. Era uma guerreira, que saía com frequência do jardim, ao contrário de Urd, que nunca saía, e assim como Skuld, a terceira a nascer e que se tornou a encarregada do treinamento e da direção das valquírias, além de combater periodicamente criaturas de Niflheim que ameaçassem Midgard e de encaminhar os espíritos para seus novos corpos quando fossem reencarnar. Apesar dos olhos e cabelos escuros, negros como sua armadura de resto idêntica à de Verdandi, sua tez era pálida ao extremo; e quando andava entre os homens se ocultava sob um capuz que cobria seu rosto com uma sombra. Diferentemente de Verdandi, não gostava de lidar com os humanos, tratando-os com distância, só nutrindo alguma simpatia pelas volvas. Em um pergaminho, anotava os nomes dos que contrariavam os deuses, punindo-os severamente e com gosto.
Encarregadas, portanto, de cuidar das almas de todos os que fossem reencarnar, não existindo esperanças para os que caíssem na mansão de Hel, onde degenerariam mais a cada noite, não havendo como retornar a Midgard, as nornas ganharam como presente de Odin, que quisera contar com seus favores sem precisar agir pela força, e obtivera êxito em seu objetivo, um tempo considerável depois de seus nascimentos, algumas auxiliares: as dises, filhas de Freyr e Fulla, que às vezes agiam como suas criadas e que lhes preparavam e serviam comida, em outras ocasiões realizando funções mais diretas sob suas ordens.
Tinham aparências de donzelas claras, trajadas em bege, branco ou amarelo suave. Só não eram guerreiras, ramo que competia às valquírias, que também interagiam frequentemente com as nornas. As dises se identificavam mais com Urd, suas relações amenas e cordiais com Verdandi; temiam a rigorosa Skuld.
Das três, apenas Urd sabia como tivera início o reinado de Odin em Asgard e de suas primeiras batalhas. Contudo, mantinha absoluto sigilo a respeito, pois não desejava interferir na ordem das coisas. Associada pelas bruxas ao Passado, enquanto Skuld e Verdandi enquadravam-se respectivamente com o presente e o futuro, sabia que na realidade, além do passado condicionar o futuro, o que há de ocorrer molda o que já foi. Via isso na sua relação com Skuld, ora sendo como uma professora, mãe ou irmã mais velha, ora aprendendo com a caçula. “O tempo é, como a grande Árvore da copa às raízes, uma unidade.”, costumava dizer; enquanto sob a base de Yggdrasil, na profundidade da terra, em um ambiente de úmida escuridão, encontrava-se, aprisionado pela magia dos deuses, o dragão Nidhogg, roendo as três grossas raízes, que, no entanto, se reconstituíam.
Groa, na continuidade de sua viagem, não conseguiu enxergar o monstro com precisão. Viu de relance somente sua sombra. Permanecendo perto daquela criatura por um tempo mais longo do que alguns segundos, seu corpo astral teria sido destroçado, desencadeando não apenas sua morte física como o despedaçamento de sua identidade durante éons intermináveis.
Catapultada de volta para cima, viu o esquilo marrom Ratatosk percorrendo o tronco, incrivelmente rápido. Tinha o tamanho de um homem adulto e a percebeu, mas não chegaram a se comunicar. A bruxa retornou para dentro de seu mundo, para o céu de onde partira, onde começou a escutar um estrépito metálico de armas e armaduras que se acercavam. Ficou boquiaberta quando viu do que efetivamente se tratava: vinha em alta velocidade um verdadeiro exército celestial, compreendendo por que, ao testemunhar a diversidade de cores e a riqueza luminosa das túnicas e couraças, se dizia que as auroras coloridas nas regiões geladas de extremo branco eram produzidas pelas valquírias quando estas avançavam em conjunto.
Não conseguiu distinguir individualidades: era um grupo compacto, homogêneo em sua potência, acompanhado por relâmpagos poderosos.
Viu, por um instante, algumas das armaduras cobertas de sangue, depois este desaparecendo e todas tornando a ressoar límpidas, faíscas escapando de suas lanças e espadas; montadas em cavalos esplêndidos, a não ser uma sobre um lobo tão grande quanto um cavalo, a Vitória irradiava de seus peitorais ao voarem pelos ares de forma impetuosa.
Lamentavelmente para Groa, não conseguiu ver muito mais, despencando de maneira abrupta em retorno ao corpo. Talvez, refletiu em seu regresso, quente, suada e um pouco tonta, já vira demais para uma humana que ainda não fora admitida entre os deuses.
Ao se reerguer, a princípio com cautela, mas sem recorrer a ajudas externas, recobrou com mais rapidez do que o esperado o equilíbrio físico.
Notou então, em seu interior, e irradiando à sua volta, uma força que não tinha antes. Um poder palpável. Chegou a ver pequenas chispas saindo de suas mãos.
Baugi se aproximara e acenara afirmativamente com a cabeça. Groa não sorrira nem chorara, mas estava explodindo de felicidade por dentro. Thorbjorg desaparecera, o que significava um parabéns: com essa atitude demonstrava que a considerava a partir daquela noite uma volva madura, independente, livre para seguir seu próprio caminho. Quando se reencontrassem, seria como irmãs. Pena que fora a última vez que a vira encarnada, o que provavelmente seria o mesmo caminho em breve de sua relação com Gredir, abençoando-lhe a criança antes de sua iminente partida, seu sorriso e suas lágrimas não saindo, assim como ocorrera outrora, agradecendo por tudo mais do que fizera no passado: a Odin; às valquírias; e a Freya, que acabava de chegar.
Os coboldes se agitaram no verde, e onde este não havia nasceu, pelas rochas e nos galhos e troncos; fadas surgiram para se desmancharem em um pólen cristalino que fez brotarem diferentes cores e flores; os pássaros cresceram, inclusive em canto. A deusa desceu de sua carruagem de ouro e pedras preciosas, cujo cocheiro era uma criatura escura e de semblante bondoso, toda recoberta de pelos, um misto de homem e felino, felinos os animais que puxavam o carro, dois linces silenciosos do tamanho de leões e de pelugens refulgentes, tais quais os cabelos de sua senhora, cujos olhos não permaneciam restritos a seu rosto perfeito, expandindo-se num brilho cerúleo. Um colar de ouro e pedras flamejantes de maravilhosa feitura, que sob um olhar atento refletiam o brilho das almas dos indivíduos, envolvia seu pescoço magnificamente esculpido; e sua veste justa em verde-dourado com partes metálicas realçava a beleza das formas de seu corpo (...)

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