segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Trecho de um capítulo de "Einherjar"



Verdadeira parecia ser a fúria dos trolls selvagens que atacavam o espírito etéreo.
Estes eram de uma espécie bem comum na região, dotados de uma musculatura poderosa, braços compridos, a pelugem negra e espessa por sobre a pele branca, dura e áspera que se revelava em trechos, como nas pálpebras e nos dedos das mãos e dos pés.
O rosto apresentava um focinho grosso e enrugado, seus dentes não tão afiados, mas compactos e fortes o bastante para esmigalhar ossos humanos.
Alguns usavam armas toscas, como clavas, pedregulhos, pedaços de troncos de árvore; e a fada apenas se defendia, envolvida por uma proteção mágica, uma esfera azul semitransparente em constante movimento, que empurrava ou mesmo derrubava os agressores, repelindo os objetos atirados em sua direção.
Contudo, a donzela feérica dava a impressão de estar exausta, um esforço tremendo sendo necessário para manter aquele campo. Evidente que não duraria muito mais, sua cabeça baixando, seu canto esmorecendo até cessar por completo. A safira em sua tiara emitia uma claridade inconstante, assim como seus olhos cerúleos abriam e fechavam. O mundo devia estar perdendo consistência à sua frente, a neve a seu redor evaporando e nem chão nem água permanecendo embaixo, abrindo-se o abismo da ausência: foi dessa forma que Fairhar interpretou sua condição ao vê-la, impondo sua potência para saltar sobre o precipício sem cair, levitando sobre este, conduzido por asas de fogo.
Tanto os cabelos como as asas da fada eram de pura luz nívea; mas sua túnica, cada vez mais material, ia sendo rasgada, talvez por se tratar de um ser sutil, que não suportava mais os ataques iracundos que lhe estavam sendo lançados.
Conduzidos por seu capitão, os guerreiros da Muralha agiram. Arden demonstrou o quanto era preciso ao alternar entre os lançamentos das facas em sua cintura e os disparos com sua besta. Nem as flechas nem as lâminas curtas eram fatais para os trolls, mas os distraíram. Permitiram, após atingi-los em pontos críticos, como olhos, pescoço ou orelhas, os golpes letais das espadas de Fairhar e Johnsen ou da acha de Aggar, entre outros.
No entanto, aquele era um grupo numeroso, resistente e de excepcional força física. O guerreiro da lâmina de Muspell incendiou alguns, o fogo sem dúvidas o que mais prejudicava criaturas habituadas apenas ao frio; mas não podia dar conta de todos.
Pancadas brutas foram derrubando cavaleiros, arrebentando-lhes os crânios quando demoravam a se reerguer após suas quedas, e o pior aconteceu: outros inimigos começaram a aparecer, provavelmente atraídos pelos guinchos de seus irmãos e pelo odor para eles inebriante de sangue humano.
A luta se tornou mais cruenta. Aggar caiu e terminou seus dias sob o espancamento de um círculo de trolls. Fairhar a seguir eliminou os oponentes, porém a face do companheiro, moída, sequer era mais reconhecível.
No auge da batalha, já bastante desgastado e perdendo pouco a pouco seus reflexos e o equilíbrio corporal, Johnsen viu a figura de Sonia observando-o à distância. Estava imóvel; séria; e a distração custou-lhe a cabeça, apagando-se no gelo após um violento golpe na nuca.
Arden, rápido no galope e ríspido nos tiros, viu sua munição acabar, obrigado a desembainhar sua espada. Quando já restavam poucos trolls, uma ponta de esperança brilhou, pensou que conseguiria, que dentro de breve reencontraria Mirna. Um sorriso voltava a raiar em seu rosto. Só que justamente no último embate sua arma se partiu no choque com o braço duro de um troll, um pedaço da lâmina ficando neste, que, furioso, saltou sobre o cavaleiro e, depois de derrubá-lo, esmagou-o no solo com suas próprias mãos.
Homens e trolls assim foram caindo. Até só restar Fairhar, sua armadura, seu rosto e seus cabelos salpicados de sangue, ofegante e ferido, apoiando-se em sua espada para persistir de pé entre os cadáveres. Percebeu que era o único que continuava a respirar entre os que haviam lutado. Refletiu que não ouviria mais a voz experiente de Johnsen, nem as brincadeiras de Arden, nem seria mais desafiado por Aggar. A tristeza e a fúria se mesclaram naqueles instantes, sem que a segunda conseguisse lhe dar alguma energia. Olhou para a fada, que agora parecia perfeita e intacta, sem o menor sinal de cansaço e sem ferimentos, e não soube o que sentir, enquanto ela se aproximava. Poderia curá-lo, cessar com os sangramentos?
- Gostaria de uma recompensa, valente guerreiro?
- Não sei. Nem sei mais...Do que gostaria.
- Todos os seus companheiros estão mortos. Só me resta lamentar...- A fada suspendeu a fala por alguns segundos; fechou os olhos. Ele não tinha forças para intervir. Ela retomou:- Lamentar a fraqueza deles.- Tais palavras fizeram com que o fragilizado sobrevivente arregalasse os olhos.- Você é o único homem digno que encontrei aqui, o único que serve para me saciar.- Então a mudança na expressão, que vinha sendo gradual, se completou: seu rosto se tornou sombrio e túrgido de crueldade; lâminas que pareciam feitas de cristais surgiram de seu corpo e perfuraram a armadura de Fairhar; cravaram-se na carne do capitão. Não tivera como se defender. O belo e terrível espírito sugou seu sangue; e teria sugado sua alma e tornado-a sua escrava, integrante de um cortejo de sombras de ira contida, que explodia quando entravam nos corpos de criaturas magicamente vulneráveis, como era o caso da maior parte dos trolls. Fazia isso para se alimentar da carne e do sangue de homens fortes, o que lhe proporcionava um prazer sem igual.
A alma de Fairhar só se salvou graças à intervenção de uma presença superior, que desceu feito um meteorito azul e incandescente de bordas douradas fúlgidas, desintegrando os cadáveres e sobrepondo sua luz à da traiçoeira fada, cujas lâminas viraram pó.
- Os seus dias de impunidade terminaram, espírito degenerado que deveria seguir os desígnios da natureza.- Um corvo passou por ali, de imediato transformando-se em um cisne, penas deste tipo de pássaro adornando o elmo da emissária do reino dos deuses que acabara de chegar, revestida por uma armadura em prata, azul e ouro, os cabelos de um loiro argênteo, mesma cor de seus olhos, os traços delicados de seu rosto em contraste com sua voz de autoridade possante.
- Uma das recrutadoras de espíritos perdedores...- A criatura ardilosa sabia não ter para onde nem como fugir; qualquer tentativa de vencer o combate também seria vã. Seu consolo consistiu em lançar uma provocação altiva.
- É um equívoco pensar que apenas recrutamos os que morrem em batalha. Na verdade, colhemos todos os espíritos guerreiros, independentemente de como faleceram. Mas de qualquer forma nenhum deles é um perdedor, são todos vencedores ao serem escolhidos por Fengr1, triunfando sobre as correntes de Helheim. Ao contrário de você, que hoje será enviada para lá com desonra.- A fada convocou seus ventos, mas a valquíria, flutuando com serenidade, não se mostrou minimamente afetada pelo ciclone que se formou. Extraiu, da bainha repleta de símbolos rúnicos, sua espada de empunhadura alada. E feixes de luz cortante, da mesma coloração prateada da lâmina, se espalharam e fizeram a inimiga em pedaços para em seguida reduzi-la a grânulos de gelo.

1“O Apanhador”, “O Receptor”; um nome alternativo de Odin.
 


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