segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Trecho de um capítulo de Bifrost


(...) Siegfried não respondeu; estava com os olhos totalmente focados na assustadora criatura, que à medida que bebia deixava cair as larvas de sua barba e envenenava mais o lago, cujas águas não podiam mais ser bebidas nem povoadas por nenhum ser natural. Não havia ali mais qualquer peixe, nem cisnes, somente aberrações ocultas nas profundezas, filhas do monstro, que só viriam à superfície se fosse necessário defendê-lo.
O filho de Sigmund, entusiasmado, mas também atento, não sentiu medo do monstro, ao contrário de Fernjotle. Ainda sem se deixar perceber, aprumou-se com sua espada. O mago de Xanten recuou; iria deixar que o herói agisse por conta própria, pelo menos no início.
A fumaça fétida que saía das narinas de Fafnir foi passando sobre ele próprio ao dar as costas aos invasores de seu lar. Estava deixando para trás aquelas águas no instante em que Siegfried saiu das folhagens e rapidamente contornou o lago para chegar ao dragão e atingi-lo com sua lâmina.
Fern ficou impressionado com a velocidade do guerreiro, sem dúvidas o homem mais rápido que já vira.
O dragão, entretanto, não permaneceria estático: voltou-se para o herói com um semblante surpreso, que em algo lembrava uma expressão humana, e expeliu uma golfada de chamas.
Nisso o mago agiu em auxílio do companheiro. Pronunciou palavras mágicas e formou uma aura protetora ao redor deste, que repelia o fogo. Siegfried sentira a proteção, testemunhou sua eficiência e agradeceu interiormente, afinal se precisasse se preocupar tanto com o ataque como com a defesa a batalha seria muito mais desgastante e a probabilidade de não terminar em êxito maior.
Podia agora se focar com segurança no ataque, atravessando as labaredas e aplicando o primeiro fendente certeiro no corpo escuro e reluzente de Fafnir, que, furioso, urrou.
Como consequência, não demoraram a emergir os filhotes do dragão, que haviam sido formados no decorrer do tempo a partir das larvas que caíam na lagoa. Suas formas eram diversas, em comum a horripilância e a agressividade: umas se pareciam com cabeças escamosas flutuantes, de um único olho ou de inúmeros, deixando saírem línguas pegajosas e que cresciam incrivelmente para puxar suas vítimas para suas bocarras de duas fileiras de dentes afiados; outras disparavam dardos de suas gargantas; criaturas tentaculares esticavam seus braços poderosos para agarrar suas presas, sugando-lhes todo o sangue depois de arrastá-las para dentro d'água; e serpentes aquáticas, algumas venenosas, as demais elétricas, deixaram o lago para defender seu pai.
Fernjotle continuou a proteger Siegfried e bombardeou as criaturas com ataques elementais, principalmente à base de fogo, afora rajadas de vento cortante. Contudo, com isso atraiu também alguns ataques para si. Precisava ficar atento em especial às cobras rastejantes, uma das quais sorrateiramente insinuara-se próxima de seus pés, conseguindo senti-la e no ato esmagar-lhe a cabeça com o cajado que trouxera consigo, antes mesmo de vê-la, ou teria levado um violento choque.
Ao perceber o companheiro em apuros, o filho de Sigmund tentou acelerar a luta, porém Fafnir era resistente. Mesmo os golpes carregados com força elemental, imantando sua lâmina primeiro com o poder do fogo, depois com a água, a seguir ventos acompanhando os fendentes, só lhe causavam ferimentos superficiais. O pior: ao invés do ardor se difundir, ou da energia da água se espalhar no sentido de lavar e purificar o interior do monstro, o que para ele haveria de ser fatal, a intenção mágica de Siegfried parecia não surtir efeito e as feridas foram desaparecendo. A pele se reconstituía, intacta, como se nunca tivesse recebido sequer um golpe. Isso perturbou o guerreiro.
Fafnir, crescendo em poder e fúria, pois era perceptível que quanto mais agredido e mais lutava mais sua energia aumentava, emanou de si um violento tremor. O descendente de Volsung ficou paralisado, assim como os filhos do dragão e o mago de Xanten; o solo apresentou rachaduras; e diversas árvores começaram a cair, tanto do lado de Fern como do de Siegfried. A maior teria esmagado o filho de Hjordis se este, com um esforço considerável de sua vontade, não tivesse recuperado os movimentos a tempo e se esquivado.
Assim que o terremoto cessou, o dragão expeliu um hálito esverdeado e de um odor forte e desagradável, que se juntou à fumaça de suas narinas, cuja emissão aumentou tremendamente, e se espalhou pela floresta. Este ataque gasoso neutralizou qualquer chance que os dois tinham de usar o elemento ar a seu favor, afastando os espíritos do vento, enquanto que ao inspirá-lo os filhos de Fafnir deram impressão que adquiriam mais forças e outros, que ainda deviam estar adormecidos no fundo do lago, vieram à tona.
Entre estes novos seres hostis, havia alguns de ferocidade e dimensões consideráveis, similares a hipopótamos encouraçados. Siegfried foi logo obrigado a enfrentar o primeiro que veio em sua direção e precisou aplicar diversos golpes no pescoço para conseguir decapitá-lo, após se esquivar algumas vezes dos avanços com sua boca de enormes dentes e saliva ácida.
Talvez com arrogância, Fafnir abriu suas asas e voou de volta para sua caverna. Certeza na vitória de seus filhos? Siegfried não pôde segui-lo, pois vários entre eles circundaram o guerreiro.
Fernjotle tentou usar a água do lago a seu favor, mas era impossível: estava por demais impregnada com a energia de Fafnir. Foi necessário abater inimigo por inimigo, entre golpes de espada e pilares e esferas de fogo, até que restaram o mago de Xanten e o filho de Sigmund como os únicos entes vivos nos arredores, entre os cadáveres, pedaços de cadáveres e cinzas das aberrações.
Após decepar a cabeça do último filho do dragão, a fumaça de Fafnir tendo se dissipado naturalmente, Siegfried correu na direção de Fern, preocupado com o estado do companheiro, que se ajoelhara com a cabeça baixa e parecia exausto.
- Você está bem?
- Como acha que eu estou?- Reergueu a cabeça devagar, esboçando um sorriso.- Esse monstro é realmente muito forte. E não tinha ouvido nenhum relato sobre ele ter esses auxiliares. A maioria dos que vieram deve ter sido eliminada já por essas coisas.
- Para a nossa sorte, parece que ele foi para a caverna.
- Sorte?
- Claro. Afinal se ele tivesse permanecido aqui, lutando junto com os monstros menores, provavelmente não teríamos conseguido sobreviver.
- É verdade! Me desculpe, Siegfried. É que estou tão cansado que fiquei tonto, o que dificulta o meu raciocínio. Mas por que será que ele fez isso? Excesso de confiança? Achou que essas criaturas a ele subordinadas dariam conta de nós sozinhas? Ou será que pensou que não estávamos sozinhos, e foi proteger o tesouro de um hipotético terceiro homem?
- Não faço ideia. Não sabemos até que ponto esse dragão é inteligente. Mas o que me pareceu, ao observá-lo enquanto lutava, é que não é uma simples besta. A expressão dele, em alguns momentos, lembra até a de um rosto humano...E não tão remotamente assim.
- Já ouvi falar de seres humanos, elfos e gigantes, prisioneiros em maldições, que se tornam monstros. Talvez seja o caso dele.
- Ainda que não pense da mesma forma que nós, há nele alguma espécie de raciocínio.
- Acho que ele não deve gostar nem um pouco de deixar o tesouro digamos que abandonado, desguarnecido pelo que julga ser um tempo longo. Isso deve provocar uma incômoda sensação de insegurança nesse monstro.
- É o motivo mais provável dele ter deixado a batalha.
- E acho que nos foi dada até uma chance de continuarmos vivos, e de voltarmos com a história que sobrevivemos a uma luta contra o guardião do tesouro dos nibelungos.
- Pelo visto, se outros passaram pelas criaturas deste lago, ficaram confiantes, seguiram em frente e morreram enfrentando o dragão.
- Talvez, quando outros vieram, podem ter feito um caminho alternativo e evitado o lago; ou esses seres ainda não estavam aqui, podiam estar em menor número, ou não ter se manifestado. É possível que apenas ajam à ordem do dragão, e que várias batalhas ocorreram diretamente na caverna do leito do monstro.
- E se ele contar com outros auxiliares na caverna?
- Isso só saberemos se formos em frente.
- Você está cansado, Fern. Não posso obrigá-lo a ir comigo. Se preferir, pode ficar aqui. E se eu demorar muito, fuja.
- Estou mesmo exausto, mas você também não está inteiro. Como poderia abandoná-lo?
- Estou mais inteiro do que você, que não estará me abandonando; já me ajudou muito nesta luta que tivemos. Se estivesse sozinho, mesmo que tivesse vencido os auxiliares do dragão, estaria completamente sem forças agora.
- Enfrentei o guardião de Nibelung e saí vivo! Não sei se posso chegar a dizer isso...Já que apenas você ficou cara a cara com o monstro. Eu o ajudei de longe.
- De qualquer forma ajudou.- E ficaram em silêncio por alguns segundos. O filho de Sigmund deixou seu olhar deslizar para o lago, agora com alguns dos restos dos filhos de Fafnir boiando, até Fern voltar a falar:
- Perdoe-me, Siegfried.
- Não precisa pedir desculpas por nada. Eu irei. E trarei a cabeça daquele dragão.
- Só a cabeça dele é bem maior do que você.
- É apenas um modo de dizer!- Conseguiu sorrir levemente.- Não serei derrotado. Disso tenho certeza. Voltaremos juntos para Xanten.
- Assim espero, do fundo do meu coração. Mas se fosse com você, agora não é por covardia que não estou indo, seria mesmo apenas um fardo. Sem forças para usar magia, não sirvo de nada. Não sou ágil nem forte como você. Não sou um guerreiro.
- É um guerreiro a seu modo. Aguarde-me aqui. Descanse apoiado em uma das árvores que restaram. Logo estarei de volta.- E depois que Siegfried lhe deu as costas e partiu, Fern, encostado em um tronco ainda firme, dos poucos que haviam resistido ao tremor provocado por Fafnir, fechou os olhos e pôs-se a respirar fundo, deixando escapar um discreto sorriso. (...)



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