segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Tecnocalipse (capítulo de "Minotauro")

    


   Ano 2000. Prato cheio para os apocalípticos de plantão, impacientes que não aguentavam mais deixar guardados os fogos de artifício para o fim do mundo. Virada de século e milênio (embora houvesse controvérsia a respeito): virada em marcha à ré; tanto que nada, aparentemente, acontecia.
   Contudo, as correntes que prendiam a Besta, paridas intestinalmente pelo Sacrifício, derreteram com o fogo e o enxofre por ela emanados. Não só a humanidade não deixara para trás seu passado, como fora deixada por este. Atropelada pelas reminiscências sangrentas, não soubera tirar lições da experiência nem reconhecer a verdadeira lua, limitando-se ao reflexo reluzente nas águas.
   Tudo parecia normal: nada de anjos com espadas flamejantes enviados por Deus para punir os ímpios, pelo menos por enquanto. Em uma metrópole que poderia ser Nova Iorque, Tóquio ou São Paulo, uma dezena de motoqueiros de jaquetas pretas, calças jeans rasgadas e correntes dependuradas percorria as ruas desertas de um bairro de luxo, daqueles repletos de casarões, em altíssima velocidade e ininterruptamente, quando se iniciou nos céus um intenso estouro de fogos de artifício. Pouco depois, surgiram aeronaves programadas e conduzidas por computadores, que desenharam no ar diversos sinais de fumaça com os costumeiros votos de feliz ano-novo. Prestando-se mais atenção, percebia-se que também alguns fogos delineavam frases de bons augúrios.
- Olha só. Deve ser meia-noite.
   Aquele que dirigia à frente de todos e devia ser o chefe do grupo freou a moto e parou, acompanhado na sequência pelos seus subalternos, que vinham quase que em fila. Nesses bandos, formados na maior parte por jovens de classe média cansados da vida pequeno-burguesa ordinária, o mais extrovertido no contato humano e hábil na direção tornava-se o mandachuva. Via-se um céu obscuro, preto dentro de preto, sem qualquer sinal de estrelas ou lua, no qual os fogos de artifício e as mensagens de fumaça constituíam as únicas luzes e nuvens. Fugazes contudo, como quase tudo aquilo que o homem produz. Logo a escuridão voltaria a reinar: e nem mesmo uma chuva de fogos de artifício durante uma hora ou mais seria capaz de diminuir a sua onipresença.
- Nossa...Como o ano passou rápido!
   No instante em que o líder, um garoto de não mais de 17 anos, magro e com penugens no rosto (não se podia chamar aquilo de barba), desceu de sua moto para observar o céu, os outros fizeram o mesmo. Seus veículos, de última geração, não necessitavam de rodas, pairando a alguns centímetros acima do solo.
   Por trinta minutos, a festa do novo milênio e a contemplação à distância desta por parte dos jovens motoqueiros seguiram sem interrupções.
   Entretanto, esgotado o tempo, o silêncio tomou conta do ambiente e o céu retornou às trevas petrificadas.
- O que será que aconteceu? Não ia ser uma hora de fogos?
- Ia. Mas tipo...Deve ser só uma pausa.
- Festas como essa não têm pausa.
- Porra, tava tão legal...
   A perplexidade e a desilusão ficaram evidentes nos rostos dos...Ainda...Meninos.
   De súbito, o líder do bando, calado desde que estacionara, soltou um murmúrio ininteligível, arreganhou os olhos como se tivesse se lembrado de algo terrível e gritou uma ordem:
- Não fiquem aí parados! Vamos nos mandar daqui!
- Hein?
   A perplexidade ficou ainda maior, com a desilusão dando lugar ao susto, e de dispersa rumou para um alvo: o chefe; que acabava de subir em seu veículo e ligá-lo.
- Que hein o quê! Vocês têm que subir logo nas motos ou vai ser tarde demais!
   Ele subira primeiro; mas isso não significava que iria partir primeiro, não se tratando daquele rapaz. Suando frio e sentindo uma angústia aberrante (a sensação era de que sabia de algo proximamente trágico que todos os outros desconheciam), por dever de líder esperou que todos estivessem prontos para a partida (ou talvez fuga?), mesmo os mais desajeitados, um dos quais tropeçou e caiu no chão. Não deu outra: por esses poucos segundos de deslize dos companheiros, foi arrastado para o inferno junto com eles assim que uma aeronave semelhante a um imenso dragão vermelho sobrevoou aquela área e soltou uma multidão de anjos, que desembainhavam com fúria suas espadas flamejantes...Ou, tecnocalipticamente falando, lançou mísseis e descarregou explosivos.
   Poderia ter fugido. Contudo, leal à sua trupe, não o fizera. Em definitivo, um precioso exemplar de uma nova geração; um precioso diamante carcomido por um mundo de chamas no qual as cinzas dos Seres mortos são os frutos do calor destrutivo da humanidade, tornada um insaciável deus arcaico devorador de seus próprios Filhos.
   Anjos com espadas flamejantes, forjadas pelo próprio ser humano, tinham acabado de passar. E, como de habitual, não deixaram quaisquer rastros dos justos presentes. Esta é a revelação dos anjos dos homens, duplos sombrios dos anjos de Deus, que se manifestam em datas redondas e quadradas.




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