segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Loki (capítulo de Bifrost)



Odin se pendurara de cabeça para baixo em uma árvore muito mais alta do que a maior montanha de Midgard; demorara nove dias e nove noites para escalá-la e abaixo de si não via nada além de nuvens.
Estava nos domínios de Mimir, uma das duas amplas regiões que envolviam a base de Yggdrasil.
A árvore à qual se prendera era uma réplica da Árvore do Mundo gerada pela mente do Sábio, um deus que não era nem aesir nem vanir, segundo se dizia mais antigo do que o próprio rei de Asgard, e que só cederia seus conhecimentos a alguém que passasse pela prova iniciática que propunha.
Odin, que na época ainda tinha dois olhos, estava disposto a enfrentar qualquer coisa para ter acesso a uma sabedoria superior.
Precisava, entrementes, vencer todos os seus medos ali, atormentado tanto por pesadelos a olhos abertos como por condições externas hostis enquanto esteve dependurado. O difícil era distinguir o concreto do espiritual e mental.
Os corvos que apareciam para bicar sua cabeça e seu peito não eram materiais; mas sentia-os como se fossem. Fantasmas e demônios surgiam para insultá-lo, tentá-lo e desafiá-lo, chamando sua atenção, muitos os que afirmavam que era fraco, que não suportaria a provação, outros convidando-o a desistir, que não precisava de tanto sacrifício para obter algo que lhe traria pouco, e que era melhor ser servido por deuses menores e se entregar aos prazeres, fazendo com que se lembrasse de Frija e se sentisse por instantes atraído por Freya, Sif e Skadi, quase cometendo adultério com todas estas deusas em sua imaginação.
Não cedendo, enfrentou os raios de um sol abrasivo; a mordida de uma serpente, o veneno desta parecendo se espalhar por cada veia e levando-o a sentir cólicas, tonturas e enjoos horrendos, além de acelerar seu coração; passou por ventos gélidos; tempestades de neve e granizo; chuva forte e relâmpagos que ameaçaram atingi-lo, os clarões cegando-o temporariamente; pedregulhos vinham do nada, atirados contra seu rosto. Experimentou fome, sede e nunca sentira tanta dor. Chegou a ver Frija numa forma evanescente, flutuando sobre as brumas em sua direção; mas quando esteve próxima de começar a cuidar de suas feridas, desapareceu.
Gritou algumas vezes; porém terminou percebendo que o silêncio era superior. Desacelerou sua respiração. Passaram-se dias, meses ou anos; e principiou a ver diante de seus olhos, tremulando e piscando, estranhos símbolos luminosos. Depois estes símbolos escureceram, se estabilizaram e se fixaram em pedras que pareciam flutuar à sua frente. Descobria dessa maneira as runas e sua magia.
Quando se deu conta, estava caído sobre o gramado que ficava no entorno da gigantesca árvore na qual se pendurara. Pôde voltar a ficar de pé, embora suas pernas estivessem trêmulas, e olhou para o alto: via-se apenas o tronco; a copa da árvore, sobre as nuvens, ali embaixo estava oculta. A enorme fonte onde Mimir residia, que parecia feita de um límpido mármore esverdeado, adornada por esculturas de árvores, estava por perto; e quando Odin se reaproximou dela precisou de nove dias e de nove noites, exercitando sua paciência, para que o deus antigo, que alguns diziam ser a essência masculina de Yggdrasil, voltasse a se pronunciar. O rei de Asgard aguardou, até a água borbulhar; nisso emergiu a cabeça de Mimir, o Sábio, tão grande quanto o corpo inteiro de Odin, barba e cabelos ruivos, olhos vermelhos que nunca se fechavam, sem pálpebras, e pele esquálida. A água então congelou, como acontecia em todas as ocasiões em que Ele se manifestava (sempre somente a cabeça; seu corpo nunca fora visto, se é que ainda tinha um). Disse:
- Sei que já sabe que as runas são apenas uma parte da minha sabedoria, que lhe transmiti após ter superado a prova da Árvore. Para que obtenha a sabedoria total, o conhecimento superior em toda sua amplitude, será necessário passar por uma nova prova.
- Aceito qualquer coisa que me for imposta. Não será agora, depois de tudo o que passei, que desistirei e desperdiçarei todo meu esforço.- Replicou Odin.
- Atente bem ao que disse. Cada palavra dita por um sábio é preciosa. E você deve se tornar sábio. Tenha consciência que, se disser sim, não poderá nunca mais voltar atrás.
- Pois digo sim.
- Dessa forma, considere-se pronto para perder uma parte de si.- Mimir escancarou sua boca e desta saiu uma lança de gelo, que se fincou exatamente no olho esquerdo do senhor de Asgard.
Odin recuou e urrou pela dor, que não se limitou à região, penetrando por cada nervo, por cada veia e artéria, tomando conta de todo o seu corpo. Foi ao chão, ficando de joelhos, tremendo, e Mimir puxou a lança de volta junto com o olho. A longa arma foi engolida. Mas a cabeça do deus da sabedoria submergiu sem deglutir o olho, que ficou boiando sobre a água que voltou a ficar líquida.
Ao se reerguer, Odin percebeu em si uma nova força interna e um conhecimento muito mais profundo da natureza e da vida; se não possuía mais seu olho esquerdo, isso não importava: via além, com uma visão espiritual amplificada. Tornara-se incontestavelmente o deus dos deuses.
Contudo, quando se reaproximou da fonte para agradecer Mimir, mesmo que este não se achasse mais por perto, que tivesse mergulhado para profundezas desconhecidas, deparou-se com seu olho arrancado, que permanecera na superfície.
Surpreso, decidiu pegá-lo, só que, antes que pudesse agarrá-lo, viu atrás de si, sendo capaz de com sua visão espiritual enxergar tudo à sua volta, uma cópia exata de si mesmo. A única diferença era que essa sombra não tinha nenhum olho, porém ergueu a mão esquerda e o olho arrancado de Odin voou até ela, que o colocou do seu lado direito; a seguir, outro olho brotou de dentro: a criatura não estava destinada a ser cega nem caolha.
- Que tipo de aberração é você?- Indagou o soberano de Asgard.
- Tornou-se tão sábio e não sabe quem eu sou?
- Você deve ser a parte de mim que sacrifiquei para obter os conhecimentos de Mimir.
- Uma parte que nunca irá descansar até que consiga destruí-lo. Esse é o preço da sabedoria superior: se não ficar atento, despencará no Abismo. Não sou o mal que saiu de dentro de você; sou a atração do caos, que desvia sua atenção. Que fique bem claro: não pode me destruir de maneira nenhuma, enquanto eu poderei destruí-lo inclusive usando os que estão ao seu redor, seus melhores amigos e companheiros. Não pode me derrotar em definitivo; já eu posso fazer isso, dos modos mais ardilosos, e ocupar o trono de Asgard em seu lugar. Mesmo que me aprisione, estarei presente de alguma forma, rodeando-o...
- Você cheira mal, espectro.
- Não sou um espectro. Sou um ser tão concreto quanto você. Sou o deus do caos.- E a entidade mudou de forma, assumindo uma aparência jovem, de rosto malicioso, longos cabelos rubros cacheados, olhos de idêntica cor, pele acobreada, trajando uma túnica negra de mangas compridas. Era da altura de Odin, só que mais magro.- O meu nome é Loki.- E liberou uma gargalhada antes de desaparecer.
Dias depois, uma criança ruiva e de tez avermelhada apareceu em Asgard. Parecia o ser mais puro, doce, inocente e gentil de todo o universo. Odin logo descobriu que se tratava do cínico Loki, mas não disse nada.
Quando questionado pelos outros deuses sobre quem era o menino, fitado fixamente pelo jovem deus do caos, que não se mostrou minimamente inseguro ou assustado, em nenhum momento se desviando do papel que representava, sentiu como se uma força maior o impelisse a dizer que era um presente de Yggdrasil para Asgard, para garantir mais prosperidade e alegria a todos. Só que alguém precisava adotá-lo. Farbauti e Laufey assumiram essa incumbência.
Odin depois se deu conta que não pudera fazer nada para impedir o estabelecimento de Loki em Asgard porque fora guiado naqueles instantes pela sua mente superior, pela sabedoria maior que adquirira, que ia além do racional. Precisava de Loki por perto para crescer continuamente, para não se acomodar nunca. Vencendo Loki todos os dias, iria se fortalecer sem cessar e se garantir em seu trono para sempre.
Em sua juventude, o traquino deus ruivo enraivecia mas ao mesmo tempo distraía e fazia os demais deuses rirem com suas travessuras. O que não podiam imaginar era o quanto se tornaria cruel: e após a morte de Balder, Odin se viu obrigado, pressionado pelos demais habitantes de Asgard, principalmente por sua esposa, e por sua própria tristeza e seu ódio pela perda do filho dileto, a combater Loki e revelar aos aesires e vanires sua verdadeira natureza. Este não simplesmente “degenerara”, indo da malícia à maldade. O Inimigo era não uma dádiva de Yggdrasil, mas parte de si próprio que se cindira de seu ser, de quando sacrificara seu olho esquerdo pela Sabedoria. Por isso não podiam matá-lo, ou morreria junto. Não houve portanto escolha que não acorrentá-lo e selá-lo por meio da magia.
Alguns deuses chegaram a ficar indignados com o fato de Odin lhes esconder a verdade, em especial Ull, que ameaçou uma rebelião, mas Thor tratou de conter seu ânimo exaltado, disse que entendia a postura do pai, que talvez teria feito o mesmo em seu lugar, pois a origem de Loki não era algo fácil de admitir e explicar.
- Mesmo o maior de nós pode errar uma vez.- Disse o portador do Mjolnir, e em algum tempo a paz pareceu voltar para Asgard e para o casamento do rei dos deuses, Frija por meses preferindo ficar sozinha em algum canto do Fensalir, com frequência expulsando Hlin e Gna, e às vezes até Fulla, quando tentavam consolá-la, chorando por Balder, até que decidiu compreender e perdoar o marido.
No fim das contas, por mim você mentiu para todos e se manchou para sempre! Mesmo que tenha dito a verdade depois, isso pouco importa...”, contudo, por mais preso que o Inimigo aparentasse estar, vez ou outra o senhor de Asgard ouvia frases como esta pronunciadas em sua mente, sob o tom cáustico, agressivo e provocador, raivoso na gargalhada, que era típico do deus do caos.



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